Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

ANÁLISE: Brasil está longe do seu torcedor, jogadores não têm carisma e Tite não vai mudar Neymar

Independentemente da lista da Copa América, sem Lucas Moura e Vinicius Junior, seleção e seus representantes ainda vivem em 'outro mundo', se fecham entre eles e não dão a mínima para quem está fora

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2019 | 12h16

Tite não é mais o mesmo, tampouco sua condição no comando da seleção brasileira. O treinador está na defensiva, como todos os outros que assumiram o cargo antes dele. O fracasso na Copa do Mundo da Rússia não o tirou do cargo, como era praxe, mas o fez mais amargo. Tite comete o mesmo erro dos outros, mostrando não ser diferente de nenhum deles. Tite defende seus jogadores como se eles não cometessem erros, no caso de Neymar, por exemplo, não se vale da transparência para onde o mundo caminha, prefere usar a máxima do "prefiro conversar com os atletas reservadamente antes de comentar com vocês..." Ocorre que nunca traz essas informações depois.

O soco de Neymar dado num torcedor na França não o faz mudar o discurso. O brasileiro queria explicações, atitudes, até punições se fosse o caso. Mas Tite prefere não dizer nada. A seleção brasileira não pertence à CBF nem à comissão técnica no cargo. Ela pertence a todos nós. Explicações deveriam ter sido dadas, sem medo, sem receios, com mais transparência.

O fato de Sylvinho também ser desligado da comissão também aponta para problemas de gestão. Sylvinho foi anunciado como treinador do sub-23 recentemente, era auxiliar de Tite no time principal para os próximos quatro anos até chegar ao Catar em 2022. E, de repente, o cara que estava no projeto aceitou outra oferta de trabalho num clube da Europa não revelado. Sorte ao profissional em seu novo desafio, mas isso aponta problemas na gestão da comissão técnica, enfraquece do ponto de vista do "estamos todos juntos", como apregoa Tite.

A lista, como todas, aponta buracos. Gostos e desgostos. Lucas Moura e Vinicius Junior são dois ausentes que gostaria de ver na relação. Os atacantes poderiam estar no grupo para a Copa América porque estão em boa fase, diferentemente de Gabriel Jesus, por exemplo, que é reserva no Manchester City. Mas há, talvez, um sentimento de gratidão ao garoto que saiu do Palmeiras. Gabriel é bom jogador, mas está pior do que alguns concorrentes. A volta de Fernandinho também me parece um ato de agradecimento ou talvez para limpar a barra do jogador que foi injustamente apontado por alguns como responsável pelo fracasso do Brasil diante da Bélgica na Copa da Rússia. Primeiramente, queria dizer que não foi. Que Fernandinho é muito bom jogador, excelente no meio de campo no City, sob o comando de Pep Guardiola, o melhor de todos para mim, mas talvez seu tempo na seleção já tenha passado.

Então, vejo sua convocação como uma gratidão de Tite a ele. Não sei se Fernandinho estará no Catar. "Ele sabe de sua responsabilidade e do tipo de trabalho que tem de fazer", disse o treinador.

Edu Gaspar, coordenador de seleções,  pontuou que Tite chamou nos últimos oito amistosos 44 jogadores ao todo, 24 deles não estiveram no Mundial e 11 fizeram suas estreias no Brasil. Disse isso para apontar que muita coisa mudou depois do Mundial perdido - o Brasil não ganha uma Copa desde 2002. Tite sabe que cada brasileiro ou treinador tem sua próprio lista. Não é isso o que está em jogo nesta Copa América. Mas é o fato de o Brasil jogar bem, ganhar campeonatos, não pipocar, dar alegria aos brasileiros e não viver trancafiado entre seus representantes na Granja Comary e nos hotéis.

Há muito tempo o elenco nacional não dá a mínima para ninguém fora do grupo. Eles se respeitam entre eles, não respeitam quem está do lado de fora. Os jogadores são assim. A comissão técnica é assim. A CBF é assim. Nenhuma dessas partes aceita críticas, aceita conversar num mesmo nível. Neymar, por exemplo, não entende o que o torcedor pensa dele, nem a mídia. Estão todos errados? Seu pai não entende isso também. E tudo isso faz com que o torcedor se afaste da seleção, prefira ir ai cinema ao ver um jogo do time nacional. Essa imagem precisa ser melhorada. Mas com esses "representantes" talvez seja impossível. A seleção brasileira não tem mais carisma. Esses jogadores não se identificam com ninguém. O que Tite fala já virou gozação. E isso é uma pena.     

LISTA DO BRASIL NA COPA AMÉRICA

Goleiros

Alisson, Cássio e Ederson;

Laterais

Alex Sandro, Daniel Alves, Fagner, Filipe Luís

Zagueiros

Marquinhos, Miranda, Thiago Silva, Éder Militão

Meio-campistas

Allan, Arthur, Casemiro, Fernandinho, Lucas Paquetá, Philippe Coutinho;

Atacantes

David Neres, Everton, Firmino, Gabriel Jesus, Neymar e Richarlison;

 

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