Brasil estreia neste domingo na Copa do Mundo dos padres

Torneio reúne seleções de padres e seminaristas que estudam em colégios italianos

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2014 | 17h00

SÃO PAULO - A Copa do Mundo dos padres possui algumas diferenças em relação à Copa tradicional, que começará no dia 12 de junho. A primeira é a presença de um diretor espiritual à beira do gramado, ao lado do técnico. Esse diretor fica ali, de olho, só para controlar os ânimos. Ele não está nem aí para o esquema tático, apenas observa – e tenta controlar – o comportamento dos atletas. Afinal, padre pode jogar futebol, mas tem de se comportar. Todo time da Copa dos Padres tem o seu diretor espiritual, função geralmente desempenhada pelo padre mais idoso, o mais experiente.

Mas, às vezes, surge uma falta mais dura ou um escorregão no Verbo. Aí vem o cartão azul, a segunda diferença. De acordo com o regulamento, ele é aplicável em momentos de “comportamento incorreto, incluindo protestos”. Ao recebê-lo, o jogador fica cinco minutos fora para refletir sobre o que fez. Arrependido, ele volta. E o jogo segue.

Em muitos aspectos, no entanto, a Copa dos padres, ou Clericu’s Cup, na denominação oficial, é um torneio normal. Dezesseis equipes formadas por padres e seminaristas que estudam na Itália começaram a disputar neste sábado a oitava edição do campeonato. O Brasil estreará no domingo contra a Itália, dona da casa, da bola e do campo – as partidas serão disputadas no Centro Esportivo Italiano, ao lado da Basílica de São Pedro, local da maioria das cerimônias com participação do papa e que fica distante cinco minutos do Vaticano.

O torneio deste ano é especial. Pela primeira vez, a taça será entregue ao campeão pelo próprio papa. A participação do pontífice Francisco é tão importante que inspirou o slogan da competição: “16 equipes, um capitão”, frase que aparece nos uniformes de todos os times da competição. “Seria uma bênção receber a taça das mãos do papa. Esse torneio representa a união da igreja em torno da alegria e da vivacidade. É um torneio eclesial”, comenta o padre Edisley Batista dos Santos, coordenador da equipe brasileira e natural de Formoso do Araguaia, em Tocantins.

Não foi à toa que o papa Francisco fez questão de participar do torneio dos clérigos. Um traço marcante da sua biografia é a paixão pelo San Lorenzo, da Argentina, do qual é sócio desde 2008. Por isso, a presidente Dilma Rousseff afirmou que vai convidar Sua Santidade para vir ao País para assistir à cerimônia de abertura do Mundial, em 12 de junho, na Arena do Corinthians, e, depois, ver algumas partidas de sua Argentina.

TUDO JUNTO

A Copa dos Padres reúne 350 atletas divididos em 16 times, que representam 60 países, um recorde no evento. Mas espere um minuto! Essa conta não bate. Como 16 seleções representam tantas nações? Eis a terceira diferença da competição para a Copa “pagã”: diminuir a rivalidade entre os países e promover a integração. Por isso, os colégios são incentivados a misturar as nacionalidades. O Brasil, por exemplo, tem um ucraniano no meio, da mesma forma que o time norte-americano, atual campeão, tem seus italianos “infiltrados”. Mas não se tem notícias de um padre argentino defendendo as cores da equipe brasileira.

O time do Brasil é formado a partir dos 92 padres que estudam no Colégio Pio Brasileiro, instituição de 150 anos destinada à formação do clero na América Latina e localizada em Roma. Ali, os brasileiros estudam Teologia, Filosofia e Direito Canônico, entre outros cursos que duram entre dois e três anos e que equivalem a um mestrado brasileiro. A maioria absoluta possui bolsas de estudo. O futebol? Quartas e sábados, dias de lazer. Mas os treinos começam às 15h, por causa do frio, e terminam antes do anoitecer, por causa da missa das seis.

Até as mulheres se envolvem com o torneio. Quatro religiosas que trabalham no colégio preparam as refeições mais cedo nos dias de treinos e até ocupam as arquibancadas nos jogos mais movimentados. “O futebol é momento de compartilhar a felicidade do outro. Quando damos um passe e o companheiro faz o gol, nós também ficamos felizes”, diz o padre Ivan Conceição, paraense de Castanhal e craque do time.

JEITINHO

Como jogador de futebol não é santo, os padres usam a criatividade para expressar os momentos de raiva. E para driblar o diretor espiritual e também os cartões azuis. Para não falar uma palavra cabeluda, usam uma outra inofensiva. Um dos padres, por exemplo, transformou o termo “caneco” em seu palavrão particular. “Os palavrões são ponderados, nada que ofenda. Mas basta o jogo começar para que, em alguns lances, escape um ‘Pô, irmão, pega leve’, mas nunca os desrespeitosos palavrões”, conta o padre Ivan.

Os times têm 11 jogadores de cada lado – os campos têm medidas oficias –, mas uma quarta diferença em relação à Copa normal não entrou na conta. Cada tempo da partida tem 30 minutos, ou seja, menos do que os 45 tradicionais. Afinal, na Copa dos Padres a carne é fraca. No sentido literal, não no figurado.

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