Josep Lago/AFP
Negociações muito lucrativas, como a de Neymar junto ao Barcelona, são exceção Josep Lago/AFP

BRASIL EXPORTA MUITO E GANHA POUCO COM A VENDA DE ATLETAS

Em crise, clubes brasileiros se limitam a fornecer matéria-prima. Renda obtida com negociação de jogadores ainda é muito baixa no contexto internacional

Jamil Chade - correspondente, O Estado de S. Paulo

15 de fevereiro de 2015 | 07h30

Com clubes atolados em dívidas, o Brasil afunda na condição de mero fornecedor de matéria-prima para o futebol mundial e a diferença entre a situação financeira do futebol europeu e brasileiro se aprofunda. 

Dados colhidos pela Fifa e obtidos com exclusividade pelo Estado revelam que, em 2014, os jogadores brasileiros foram os mais comercializados no mundo. Mas a renda obtida pelos clubes com suas vendas está cada vez mais distante das potências europeias. 

Se por décadas o preço do atleta brasileiro era um atrativo extra aos clubes europeus, a esperança era de que, aos poucos, os clubes nacionais poderiam competir financeiramente de igual para igual com os grandes da Europa, o que faria com que o preço dos jogadores nacionais tomassem uma proporção mais parecida ao da Europa. 

O que ocorreu, porém, foi justamente o contrário, com uma concentração de renda inédita no futebol mundial nas mãos de apenas 20 clubes europeus. Assim, casos como o de Neymar, que em 2013 foi vendido por mais de  80 milhões, ainda são situações isoladas no futebol nacional. 

Segundo os dados da Fifa, o Brasil “exportou” em 2014 cerca de 689 jogadores, o que coloca o País na liderança como maior fornecedor de craques ao mundo. Mas isso não significa o maior lucro. Essas vendas geraram aos clubes, jogadores e agentes um volume de US$ 221 milhões. 

A Espanha, que vendeu quase cem jogadores a menos que o Brasil no mesmo período, obteve US$ 667 milhões com suas exportações. O Brasil também é ainda superado por Inglaterra, Portugal, França e Itália. 

O preço relativamente baixo obtido pelo Brasil não significa falta de dinheiro no mundo do futebol. Em 2014, as transferências internacionais de jogadores superaram a marca de US$ 4 bilhões (cerca de R$ 10 bilhões), um recorde. No total, foram 13 mil transferências no mundo, 2,9% a mais que em 2013. Em termos de valores, a alta foi de 2,1%.

Mas a constatação é de que esse dinheiro está cada vez mais concentrado na Europa. Um estudo da consultoria PriceWaterHouse Coopers indicou que, em 2012, os clubes europeus gastaram US$ 4 bilhões em reforços. Mas apenas 20% desse dinheiro foi para a América do Sul, o maior fornecedor de craques. De fato, a realidade não afeta apenas o Brasil, mas toda a América do Sul. A região, em 2013, já vendeu ao mundo quase dois mil atletas. 

Para economias relativamente pequenas da região, mesmo esses valores são significativos. Em 2013, os argentinos exportaram US$ 228 milhões em jogadores, um quarto do valor de sua venda de carnes ao mundo. 

O Uruguai obteve uma renda com jogadores que foi superior às suas exportações de peixe. No Equador, a venda de craques gerou o mesmo valor que as exportações de café. 

Valorização. Mas é mesmo nas transferências entre clubes europeus que esses jogadores ganham um outro valor de mercado. Um estudo realizado pelo professor da Universidade de Limoges, Jean François Bourg, sobre a economia política do esporte profissional revela que, uma vez na Europa, um jogador africano é vendido a outro clube europeu em média por 20 vezes o preço que lhe foi pago para sair de seu país de origem e viajar até o continente europeu. 

O zagueiro Thiago Silva foi comprado pelo Milan que pagou ao Fluminense cerca de 10 milhões de euros. Quando o clube italiano vendeu o defensor ao PSG, ele já valia 41 milhões de euros. 

O Porto, nesse sentido, se transformou em um paradigma de como valorizar um craque comprado por um preço baixo. Quando o time vendeu Ricardo Carvalho para o Chelsea em 2004, o zagueiro Pepe, brasileiro naturalizado português, foi trazido do Marítimo por 2 milhões de euros. Quando foi vendido ao Real Madrid, seu valor chegou a 30 milhões de euros. Com o atacante Hulk, a história não foi diferente. O Porto o comprou por 5,5 milhões de euros. Mas o vendeu por 60 milhões ao Zenit, da Rússia. A multiplicação de euros engorda os cofres dos clubes da Europa e deixa à míngua os brasileiros.

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Fundos de investimento viram 'vilões' e lucram com caos no Brasil

Não são poucos os grupos e agentes que tentam justamente lucrar com a difícil situação financeira dos clubes do Brasil. Há dez anos, um grupo de investidores abriu um fundo em Luxemburgo para justamente apostar na valorização dos craques brasileiros na Europa para lucrar. A meta era a de trazer o jogador por um preço baixo a um clube modesto europeu. Uma vez dentro do mercado, a revenda seria por um preço bem maior e o lucro distribuído aos investidores. </p>

Jamil Chade - Correspondente, O Estado de S. Paulo

15 de fevereiro de 2015 | 07h30

Nos últimos anos, dezenas de fundos passaram a agir, comprando parcelas de jogadores no Brasil e aguardando lucros com suas revendas na Europa. 

Amir Somoggi, especialista em marketing esportivo, aponta para a crise financeira dos clubes brasileiros como parte da explicação para o fenômeno. 

“Os clubes querem vender de qualquer jeito”, disse. “Somos pé de obra e o futebol é o retrato ainda de um país que se vê como exportador de matéria prima”, insistiu.

Somoggi faz uma comparação entre o jogador e o café. “O Brasil é o maior exportador de café. Mas são os italianos que compram as sacas de grão, moem, empacotam e vendem por um preço bem mais alto. No futebol, temos ainda o doentio pensamento de agirmos como commodities”, disse. 

Para Jerome Champagne, ex-assessor político de Joseph Blatter na Fifa, a concentração de renda no futebol europeu é uma ameaça real ao futebol no Brasil e no resto do mundo em desenvolvimento. “Apenas vinte clubes europeus têm uma receita de mais de  6 bilhões. Enquanto isso, quase cem federações nacionais vivem com  2 milhões por ano”, alertou. 

Para ele, essa realidade apenas vai se aprofundar nos próximos anos, com a saída de craques nacionais. “O círculo vicioso já conhecemos. Isso vai gerar problemas financeiros cada vez maiores aos clubes e, portanto, um enfraquecimento do futebol brasileiro”, alertou

A Fifa espera resolver parte desse problema proibindo os fundos de investimento de comprarem jogadores. A medida entra em prática ainda nesse semestre. Mas os agentes já têm mecanismos para escapar dessa nova regra estabelecida pela Fifa no mercado da bola.

CIFRAS

689 jogadores o Brasil exportou na temporada passada, número que coloca o País na liderança de maior fornecedor de craques.

221 milhões de dólares (R$ 624 milhões)  renderam esses 689 exportadores aos clubes, jogadores e agentes do futebol brasileiro.

667 milhões de dólares ( R$ 1,8 bilhão) faturou a Espanha com a venda de quase 100 jogadores a menos que o Brasil exportou.

4 bilhões de dólares (R$ 11,2 bilhões) movimentaram as transferências de jogadores, um recorde. No total foram 13 mil negociações.

41 milhões de euros (R$ 13,1 bilhões) o PSG pagou ao Milan pelo zagueiro Thiago Silva - ele havia sido vendido pelo Fluminense por 10 milhões de euros (R$ 31 bilhões) ao Milan.

6 bilhões de euros (R$ 19,3 bilhões) é a receita total de 20 clubes de ponta da Europa. Cem federações nacionais têm uma receita de apenas 2 bilhões de euros (R$ 6,4 bilhões).

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