Jamil Chade/Estadão
No estádio de Sochi, operários preparam gramado para receber seleção. Sementes foram importadas da Bélgica Jamil Chade/Estadão

Brasil já estuda base alternativa a Sochi para a Copa do Mundo

Seleção não jogará na cidade em nenhum momento e ter uma segunda base, a partir das oitavas de final, é opção

Jamil Chade, enviado especial a Sochi, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2017 | 07h00

A comissão técnica da seleção brasileira já estuda a possibilidade de encontrar uma segunda base na Copa do Mundo da Rússia, a ser utilizada a partir das oitavas de final. O Brasil escolheu Sochi como quartel-general, mas o sorteio dos grupos apontou que a equipe não jogará na cidade e ainda poderá ter de percorrer quase 20 mil quilômetros durante o Mundial. Um segundo local para concentração seria uma maneira de encurtar as distâncias.

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Antes mesmo de saber onde jogaria, o Brasil garantiu a base estabelecida pela Fifa em Sochi, no extremo Sul do país. O que atraiu a CBF foi a infraestrutura do local. Também pesou contar com dois campos de treinamento a menos de 500 metros dos quartos dos jogadores.

O problema é que ser sorteado para o Grupo E, ao lado de Suíça, Costa Rica e Sérvia, frustrou os planos da comissão técnica de jogar em Sochi. “Essa variável eu não tinha como controlar”, lamentou Tite.

Assim, se insistir em ficar na cidade por toda a Copa, saindo para jogar e voltando em seguida, a seleção poderia ser obrigada a viajar mais de 19,6 mil quilômetros, afetando o ritmo de treinos e desgastando os jogadores.

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No entanto, pelas regras da Fifa, uma vez fechado o acordo com a base, como já ocorreu, o Brasil tem a obrigação de ficar nela até o final da primeira fase. Depois, estaria livre para buscar outra solução. E aí que entram os estudos para verificar a disponibilidade de outro local a partir das oitavas. Se optasse por ficar em Moscou, por exemplo, a seleção viajaria apenas 7,4 mil quilômetros até a final.

Na comissão técnica, a possibilidade de buscar uma concentração alternativa está em debate. No domingo, ao começar a montar o plano de ocupação do hotel em Sochi, Tite ficou entusiasmado com o local. Mas terá de pesar a qualidade da estadia com a exigência das viagens.

O que ainda está em consideração é se trocar de hotel na fase final será um peso a mais ou um alívio para os jogadores. Um dos cenários seria o de permanecer até o dia 27 de junho, dez dias depois de começar o Mundial e 17 dias depois de o Brasil chegar ao balneário. O outro é o de permanecer até o final em Sochi, desfrutando da infraestrutura montada à medida para a seleção.

GRAMA

Enquanto o Brasil avalia o que fazer, operários russos nos dois campos de treinamento em Sochi passaram o domingo no local para adiantar o máximo possível o trabalho. Mesmo durante a noite, um trator com suas luzes percorria o futuro gramado, preparando a terra para uma plantação de sementes que deve ocorrer ainda em dezembro. 

O motivo da pressa era claro: nesta segunda-feira, o treinador Tite e o chefe da comissão técnica, Edu Gaspar, vão realizar uma visita ao local e os organizadores querem ter certeza de que terão o que mostrar. 

Enquanto os operários cortavam barras de aço, cavavam e trabalhavam no gramado, crianças praticavam esportes na pista de atletismo ao redor, sob os olhares de severos treinadores. 

Juntos, os dois campos estão exigindo investimentos de 2,2 milhões de euros, bancados pelo Ministério dos Esportes. Num deles, uma nova grama foi plantada e o local estava coberto por uma tela. “As sementes vieram da Bélgica”, contou à reportagem Alexander Khomenkov, dono da empresa que está preparando o local, Intersportstroy.  

Ali, ele ainda planeja colocar placas ao longo do campo, para garantir a Tite uma certa privacidade para poder realizar inclusive treinos secretos. Mas, à beira do Mar Negro e aos pés de morros, o local é de fácil acesso visual a partir dos prédios e lajes nas redondezas. 

Até a Copa do Mundo, porém, as instalações do estádio, que é de propriedade pública, serão usadas pelo Comitê Olímpico Russo. Entre os atletas, alguns deles que estiveram na Rio-2016, poucos sabiam que a seleção de Neymar iria tomar o local a partir de junho. Um deles era Dmitrii Ushakov, ginasta que terminou em quinto lugar no Rio. Ele admitiu ao Estado que não acompanhou nem o sorteio da Copa. 

CASA

Muito menos acessível será “a casa” do Brasil em Sochi. O hotel é considerado como uma das “joias” da cidade. Conta com uma praia privativa, piscina externa aquecida, quartos de luxo e é o destino predileto de astros russos que querem privacidade ao visitar a Riviera. Num preço de tabela, cada quarto pode custar 450 euros por noite. 

Edu Gaspar, coordenador da comissão técnica, ainda quer transformar salas grandes ou mesmo a suíte máster em uma ala para a recuperação dos atletas depois dos jogos ou de treinos puxados. Para isso, está negociando trazer ao hotel o equipamento necessário. 

Também haverá uma ala especial para que os jogadores possam receber suas famílias e até mesmo uma brinquedoteca será montada para os filhos dos jogadores. 

No hotel, os funcionários todos comentam a expectativa de receber o time brasileiro. E não faltam as funcionárias que, segundo elas mesmo, já começaram a tentar saber quais são os jogadores solteiros do grupo. 

O prestígio do local, porém, vai muito além da seleção. Neste fim de semana, enquanto Tite se reunia com a gerência do local, uma equipe de filmagem usava justamente as instalações suntuosas do local para rodar um filme. Nos quartos, o luxo é complementado por uma vista privilegiada do Mar Negro, rodeado por um bosque particular. 

Se a elite russa tem seu local preferido em Sochi, nem por isso o tradicional hotel retirou de seu jardim estátuas que estiveram por ali por décadas. Neles, pode-se ver uma agricultora com uma foice. Em outro, um operário com um martelo, enquanto a marca de um conhecido champanhe francês é estampada como sinal de sofisticação do local.

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Cidade prevê injeção de dinheiro com a chegada do Brasil em 2018

Com economia em baixa por causa da fuga dos turistas habituais, Sochi espera reaquecimento com presença da seleção

Jamil Chade, enviado especial a Sochi, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2017 | 07h00

Ao longo do Mar Negro, lojas vazias aguardam desesperadamente os clientes, num clima de desilusão. Os hotéis, muitos deles construídos para os Jogos de Inverno de 2014, também estão parcialmente vazios. Num domingo de sol e com temperatura agradável, centenas de famílias percorriam a orla. Mas poucas pessoas se atreviam a entrar nos bares e restaurantes.

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O baixo crescimento que atinge a Rússia também fez seu desembarque na cidade conhecida como “Riviera”. Não é por acaso, portanto, que o anúncio da CBF de que havia fechado um acordo para usar Sochi como base foi comemorado por comerciantes, hotéis e autoridades locais.

Na prefeitura, a estimativa é de que a transformação de Sochi na base do Brasil leve à cidade pelo menos mil pessoas, entre jogadores, assistentes, familiares, agentes, patrocinadores, empresários e um batalhão de jornalistas de todo o mundo.

Nos primeiros meses da recessão, entre 2014 e 2015, Sochi chegou a se beneficiar da crise. Isso porque aqueles russos que tinham o hábito de viajar para o exterior optaram por rotas domésticas, depois de ver sua moeda perder 50% do valor. Destinos como Espanha, Itália e Grécia foram trocados por Sochi.

Como consequência, o turismo atingiu seu pico, com mais de 6 milhões de pessoas. Ironicamente, os investimentos de US$ 50 bilhões (R$ 163 bilhões pela cotação atual) para os Jogos de Inverno pareciam ter valido à pena. Vladimir Putin, presidente russo, havia sido alvo de duras críticas depois de garantir que, após as obras, Sochi não seria apenas um resort de verão, mas também de inverno, com trens e estradas ligando a cidade à beira do mar até os picos de neve das montanhas.

Com clima subtropical, Sochi por décadas apenas atraia visitantes durante o verão ou era destino de pessoas com artrite, como Joseph Stalin.

Mas, segundo empresários da região consultados pelo Estado, três anos depois da crise a falta de dinheiro atinge a todos e o resultado é o começo de uma queda nas reservas e da atividade econômica. O hotel onde a seleção se hospedará, o luxuoso Kamelia, estava oferecendo quartos com 75% de desconto em comparação ao preço de tabela para os meses de verão. Empresas aéreas, como a Transaero, faliram.

O próprio time de Sochi, que fechou suas portas, é o retrato da crise. Em 2010, a reportagem esteve no estádio que o Brasil vai usar como base. Naquela época, o time do Zhemchuzhina gastava por ano US$ 30 milhões (R$ 97 milhões) com a ambição de subir para a Primeira Divisão. No dia da visita, os cartolas comemoravam um fato histórico para seus cofres. Naquela noite ocorreria a primeira transmissão pela TV de um jogo de Segunda Divisão da Rússia.

“Vamos aumentar comerciais e arrecadação’’, afirmava Andrei Malozolo, então presidente do time. Sua grande estrela era um brasileiro, Ricardo, que perambulava pelas divisões inferiores da Rússia.

O governo, tentando manter a economia de Sochi funcionando e evitar a ociosidade das instalações, passou a levar ao local conferências e festivais. Da mesma forma que fazia o Kremlin durante a era soviética, o governo de Putin agora subsidia tours à cidade para funcionários públicos de todo o país.

A cidade também foi afetada pelo embargo imposto à Rússia depois de sua invasão da Crimeia. Por ano, Sochi recebia cerca de 30 navios com turistas em uma rota que também incluía a Crimeia. Agora, as empresas europeias são obrigadas a evitar o território invadido e as reservas despencaram. Para 2017, serão apenas cinco cruzeiros.

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