Brasil joga no Haiti para fazer história

Há um clima de muita expectativa e ansiedade entre os jogadores do Brasil que entram em campo nesta quarta-feira, em Porto Príncipe, contra o Haiti para uma partida amistosa. O "Jogo da Paz" vai reunir as duas seleções, mas é como se uma só fosse jogar. Por esse motivo, os atletas brasileiros adorados pelos torcedores haitianos uniformizaram um discurso único: "Estamos fazendo história." Os jogadores, que se concentraram por dois dias no país vizinho, a República Dominicana, viajam no início da tarde para o Haiti, onde permanecerão menos de cinco horas. O amistoso deve começar às 14h30 (16h30 em Brasília). Mas o que mais gera expectativa e causa muita preocupação para os organizadores do evento ocorrerá na chegada dos atletas em Porto Príncipe. Do aeroporto para o estádio, a equipe com Ronaldo, Roberto Carlos e Ronaldinho Gaúcho, os mais idolatrados entre os fanáticos torcedores haitianos, desfilará num comboio pelas ruas em veículos militares urutus.Cerca de 600 soldados brasileiros, que participam da Missão de Estabilização para o Haiti, farão a segurança no estádio para os jogadores e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que incentivou a realização da partida. Os militares impedirão a aproximação dos torcedores mais exaltados. Mas os atletas não demonstraram estar com esse tipo de preocupação. "O que vai ter é excesso de carinho do povo haitiano", disse o meio-campo Gilberto Silva.O Haiti que os jogadores vão ver é um país assolado por uma série de conflitos internos, e não uma guerra, como todos vêm repetindo à exaustão. É a nação mais pobre das Américas, com elevadas taxas de analfabetismo, de desnutrição infantil, de mortalidades infantil e materna. No início do ano, Jean-Bertrand Aristide foi deposto da Presidência e uma missão militar provisória liderada por tropas americanas tomou conta do país."É muito gratificante saber que estamos contribuindo para parar uma guerra. A gente sabe do poder do futebol de levar uma mensagem positiva", disse Ronaldo. Embaixador da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Pobreza, o atacante do Real Madrid será a estrela-maior da festa. Antes do jogo, Ronaldo entrará em campo de mãos dadas com o garoto Donald, de 4 anos, soropositivo.Os outros 21 jogadores da seleção brasileira também entrarão acompanhados de crianças haitianas que fazem parte de projetos sociais da Unicef. No total, o órgão da ONU para infância levará mais de 300 crianças ao estádio. Sempre disposto a colaborar em eventos de caráter social, o atacante pediu que outros craques mundiais façam o mesmo. "Não deveria ser só a seleção, mas mais jogadores deveriam participar de ações humanitárias como essa." Nesta terça-feira, Ronaldo gravaria três frases em creole, a língua mais falada entre os haitianos, em benefício de uma campanha contra a aids para a Unicef: "Nou pap pran sida/nou pap bay sida/lavi a two bèl", que significa "nós não estamos infectados/não vamos infectar ninguém/a vida é muito linda". O lateral Roberto Carlos, outra estrela entre os haitianos, disse que espera que o amistoso desta quarta possa "abrir as porteiras" para que outras seleções joguem em benefício da paz no mundo.Em Porto Príncipe, os haitianos terão a oportunidade de ver os principais jogadores entrarem em campo. A CBF também levará ao Estádio Sylvio Cator, que foi reformado e recebeu um piso sintético, as Taças Fifa e a recém-conquista Copa América para que os haitianos possam vê-los. Mas não será desta vez que poderão ver o capitão Cafu, que não participará do jogo, repetir a cena histórica da conquista da Copa do Mundo de 2002.Na República Dominicana, os jogadores tiveram uma grata, mas curiosa, surpresa. Nesta terça-feira, num simples treino para o amistoso no Haiti, os atletas participaram de um treino no Estádio Olímpico de São Domingos. Milhares de dominicanos compareceram e até pagaram por um ingresso que anunciava um amistoso contra a seleção dominicana, que não ocorreu. Apesar disso, todos aplaudiram muito o time brasileiro.

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