Brasil sofre com racismo no esporte após 126 anos do fim da escravidão

Nas últimas semanas, atos preconceituosos marcaram o futebol brasileiro e mundial

Rafael Fiuza e Renan Fernandes, O Estado de S. Paulo

13 de maio de 2014 | 07h00

SÃO PAULO - A Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel no dia 13 de maio de 1888, acabou refletindo muitos anos depois no surgimento de grandes esportistas negros para o País como João do Pulo, Adhemar Ferreira da Silva, Dayane dos Santos, Leônidas da Silva e Pelé.

Se o período de trabalho escravo foi deixado para trás, as atitudes preconceituosas da época ainda são cometidas por alguns indivíduos na sociedade atual, e refletem nas atrocidades cada vez mais recorrentes nas praças esportivas.

No dia 15 de abril de 2005, um episódio de racismo ficou marcado no futebol brasileiro. O zagueiro Leandro Desábato foi detido, ainda em campo, após ser acusado por injúria qualificada (ofensa à dignidade de alguém com elementos de raça, cor e religião) contra o atacante Grafite, em partida válida pela Copa Libertadores, entre São Paulo e Quilmes. Na época, o jogador argentino foi liberado depois de dois dias após pagar fiança de R$ 10 mil.

Quase dez anos depois, atos racistas vão ganhando cada vez mais espaço em eventos esportivos pelo mundo. Dínamo de Zagreb, CSKA, Zenit, Olympiakos, foram algumas das equipes de futebol multadas e obrigadas a jogar sem público pela Uefa, após incidentes de cunho racial praticados por seus torcedores apenas na última temporada.

Mas foi um caso recente que ganhou repercussão mundial. Em partida válida pelo Campeonato Espanhol, o lateral do Barcelona comeu uma banana arremessada por um torcedor no gramado. A atitude foi reverenciada nas redes sociais com a campanha #SomosTodosMacacos. O Villarreal, multado em R$ 37 mil, identificou o infrator e obrigou o a devolver seu carnê de sócio, além de ser proibido de assistir um jogo no estádio El Madrigal.

Os casos de racismo não são exclusivos do futebol, mas em outros esportes as punições são cada vez mais inflexíveis. Donald Sterling, proprietário do Los Angeles Clippers, foi banido da NBA após proferir comentários racistas para os jogadores negros da NBA, além de receber uma multa de 2,5 milhões, o máximo permitido pela lei americana, imposta pelo comissário da liga basquete, Adam Silver.

Em entrevista cedida à emissora norte-americana CNN, na noite desta segunda-feira, Sterling pediu perdão pelos atos cometidos. "Sou um bom membro que cometeu um erro, peço desculpas e solicito que me perdoem. Não posso cometer um só erro após 35 anos? Amo minha Liga, amo meus companheiros. Nunca farei de novo", disse.

O tenista Júlio Silva também foi vítima de atos racistas em uma partida na Itália, pelo Challenger Reggio Emilia, proferidos pelo austríaco Daniel Koellerer, em 2010. Chamado de "macaco" e mandado "de volta para a floresta", Julinho se dirigiu a polícia para realizar a denúncia. Um ano mais tarde, o polêmico austríaco acabara expulso do tênis profissional por se envolver com apostas e acabou lembrado pelos atos de racismo.

POUCA AÇÃO

A presidente Dilma Rousseff chegou a se reunir com o árbitro de futebol Márcio Chagas e com os volantes Tinga, do Cruzeiro, e Arouca, do Santos, todos vítimas de racismo no futebol brasileiro. Mas depois de muito alarde, pouca atitude prática foi tomada.

Um projeto de lei criado pelo deputado Federal Alceu Moreira tramita na Câmara dos Deputados, em Brasília, e pode se tornar o primeiro grande passo para acabar, ou pelo menos diminuir, o número de casos envolvendo racismo no Brasil. O texto prevê punição de cinco anos e proibição de frequentar eventos esportivos para autores de racismo. Caso o crime seja cometido por servidores públicos, dirigentes ou funcionários da entidade esportiva ou membro de torcida organizada, a pena ainda pode aumentar em um ano e oito meses.

A proposta de Moreira está sob análise da Comissão de Direitos Humanos da Casa e, para se tornar lei federal, precisa ser aprovada também pelos plenários da Câmara e do Senado e, enfim, ser sancionada pela Presidência da República. O texto deve ser analisado ainda pela Comissão de Constituição e Justiça. A expectativa é que seja votado ainda este ano.

O deputado defende uma punição mais rigorosa nos casos de racismo. O projeto de lei prevê suspensão de 5 anos do cidadão que cometer atos racistas em estádios. Se ele for ligado a um clube, a pena terá acréscimo de 30%. Se for um estrangeiro, ocorrerá a deportação do indivíduo. "A pena de pouco impacto fazem parte de um comportamento cínico da sociedade, que crítica os atos de racismo, mas não pune como é preciso. "É preciso corrigir esse processo com uma pena maior", disse.

CASOS RECENTES

O Real Garcilaso foi punido em R$ 27,8 mil pela Conmebol depois que sua torcida imitava sons de macaco toda vez que o jogador Tinga, do Cruzeiro, pegava na bola em jogo disputado estádio Huancayo, no Peru.

Já no sul do País, o Esportivo, equipe de Bento Gonçalves, foi multado em R$ 30 mil e punido com perda de cinco mandos de campo pelo Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) do Rio Grande do Sul. A medida foi tomada depois que o árbitro Márcio Chagas da Silva, encontrou seu carro depredado e cheio de bananas no estacionamento do estádio Montanha dos Vinhedos. Após o fato, o juiz decidiu pendurar o apito.

Em São Paulo, o estádio Romildo Vitor Gomes Ferreira, do Mogi Mirim, foi interditado pela Federação Paulista de Futebol depois de insultos contra o volante Arouca, após goleada do Santos por 5 a 2 do contra a equipe da cidade, no Paulistão 2014. Neste caso, nenhum torcedor foi identificado.

Minas Gerais também foi palco de discriminação racial em uma partida. Marcelo Carlos Fernandes, de 45 anos, foi levado para a delegacia depois de chamar o lateral-esquerdo do Uberlândia, Francisco Assis, de "macaco, negro, safado e fedorento". No fim das contas, o torcedor foi indiciado por delitos menos graves e foi liberado.

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