Brasil tem bons filmes sobre futebol

Há poucos, mas bons, filmes brasileiros sobre futebol. O mais famoso talvez seja o documentário ?Garrincha, Alegria do Povo?, de Joaquim Pedro de Andrade, sobre o jogador de Pau Grande que encantou o Brasil com seus dribles, nos anos 50 e 60. Mas o Garrincha de Joaquim Pedro não é um personagem fácil de ser seguido. Na maioria das vezes, o diretor o flagra à distância no gramado. Fica até difícil seguir seus lances geniais. Havia um sentido ideológico a ditar o conceito do filme: Joaquim Pedro, como a maioria dos intelectuais de esquerda nos anos 60, estava convencido de que o futebol era alienante e era porque vibrava demais com as jogadas do seu ídolo que o brasileiro médio não se dava conta da miséria em que vivia. ?Garrincha, Alegria do Povo? absorve lições de montagem do russo Serguei M. Eisenstein. É filme de um intelectualismo nos limites do cerebralismo. Murilo Salles, pelo contrário, é todo emoção no seu belo documentário sobre a Copa do Mundo de 1994. ?Todos os Corações do Mundo? é o grande épico do futebol. É um triunfo da técnica: Salles usou 22 câmeras e 30 toneladas de equipamentos pilotados por profissionais do primeiríssimo time, tudo isso para fazer do documentário oficial sobre a Copa dos EUA um espetáculo. Você não precisa ser fã de futebol. Basta gostar de cinema. É o suficiente para vibrar com a grandiosa visão do esporte de Salles. Ele criou um épico com heróis, alguns vilões e o imenso coro grego, representado pela platéia planetária. Quando a seleção brasileira aparece, destaca-se a figura heróica de Romário. Por mais coletivo que seja o futebol, abriga certas individualidades que se impõem: Garrincha, Pelé, Romário. Dois documentários, duas concepções de cinema e de montagem. Houve mais documentários sobre futebol no cinema brasileiro. O de Maurice Capovilla que integra a coletânea ?Brasil Verdade?. Chama-se ?Os Subterrâneos do Futebol?. Vai fundo no tema, denunciando a manipulação nos clubes e nas federações. Capovilla com certeza poderia e até deveria refazer os subterrâneos na era Ricardo Teixeira. Seu dedo em riste dos anos 60 apontaria para escândalos muito mais estarrecedores. Nem só de documentários se alimenta o cinema que vai aos estádios de futebol. Haveria outros a citar, incluindo ?Futebol?, do grande João Moreira Salles. Há, também, as ficções. ?Boleiros?, de Ugo Giorgetti, mostra o reverso da glória sem descer aos subterrâneos. O diretor, com seu diálogo sempre econômico e a concisão cênica, filma uma conversa de bar. Essa conversa é de amigos que falam sobre futebol. Desfilam casos exemplares, nenhum tão marcante quanto o episódio centrado na magnífica figura de Paulinho Majestade. Também ficção é o curta ?Uma História de Futebol?, de Paulo Machline, que concorreu ao Oscar da categoria. É bem-feito, um tanto sentimental. Não é Boleiros, com certeza.

Agencia Estado,

20 Março 2002 | 18h44

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