Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Ciro Campos, Leandro Silveira, O Estado de S. Paulo

19 Agosto 2018 | 05h00

Sempre visto como exportador de talentos para o exterior, o futebol brasileiro tem se tornado também polo de atração de estrangeiros, pois cada vez mais clubes da Série A se reforçam com jogadores sul-americanos, apontados a dedo pelos olheiros que mapeiam os mercados. Além do maior poderio financeiro dos times do Brasil, essas transferências têm ocorrido por serem vistas como trampolim para a Europa. Ou seja, uma boa chance de fazer dinheiro.

Na Série A atualmente estão em ação mais de 60 estrangeiros, alguns com potencial para encher o cofre do seu clube. O colombiano Mina, por exemplo, foi vendido pelo Palmeiras ao Barcelona por valor quatro vezes acima do pago na contratação. O Corinthians trouxe o paraguaio Balbuena por R$ 6 milhões para negociá-lo dois anos depois por R$ 18 milhões. Esse é o "pulo do gato" dos times nacionais: comprar a preço de banana e vender a preço de ouro.

Estão quase todos fazendo isso. O venezuelano Otero veio ao Atlético-MG por R$ 7,9 milhões e pode render até R$ 35 milhões ao sair definitivamente – está emprestado ao Al-Wehda, da Arábia Saudita, time de Fábio Carille, que já pagou R$ 21 milhões. Com o peruano Cueva, no São Paulo, os valores são parecidos. O clube pagou R$ 9 milhões e o revendeu ao futebol russo por R$ 35 milhões. É ou não é um negócio da China? Os clubes brasileiros entenderam seu papel de hospedeiro desses jogadores, que são colocados na vitrine para se valorizar. 

O Corinthians trouxe o chileno Araos para repor a perda de Rodriguinho e espera que o paraguaio Diáz repita o sucesso de Romero. "O Corinthians tem tido sucesso com esse tipo de negócio. São jovens e podem contribuir com o time. Podem dar retorno técnico e estão em idade que a Europa vem comprar", diz o técnico Osmar Loss. 

No Atlético-MG a busca por estrangeiros é motivada por outra questão: o preço. "No Brasil, qualquer transação interna está cara e, às vezes, no mercado sul-americano você consegue oportunidades", afirmou ao Estado o diretor de futebol do clube, Alexandre Gallo. "Se acontecer uma venda no futuro, pode ser interessante, especialmente pelo aspecto da idade", informa.

Nos últimos 15 anos, a presença de estrangeiros na elite do futebol brasileiro aumentou 450%. Em 2003, temporada da primeira edição do torneio por pontos corridos, eram só 14 gringos em campo. A legião no Brasil aumentou de vez a partir de 2013, quando a CBF alterou de três para cinco o número de atletas nascidos em outro país que poderiam ser relacionados para os jogos. A mudança veio após um pedido do então diretor executivo do Grêmio, Rui Costa. "Isso abriu o mercado. Os clubes passaram a monitorar mais o futebol sul-americano. O futebol do Brasil é atraente para a exposição do atleta", diz Rui.

DIFICULDADE

A vinda de sul-americanos também apresenta desafios. O Palmeiras investiu R$ 33 milhões em Borja. O colombiano demorou para render. "O futebol brasileiro é diferente, mais rápido. Tive de mudar um pouco o meu estilo do jogo", contou. O São Paulo se frustrou com o argentino Centurión há três anos. Contratado por R$ 14 milhões, teve problemas pessoais e sofreu com o idioma. 

O Santos penou em 2009 com o equatoriano Bolaños. Ele não fez amizades, teve depressão e deixou a Vila após nove jogos. "Se é para tirar espaço do atleta brasileiro, tem de ser melhor, ou vão te olhar torto", alertou Juninho Paulista, gestor do Ituano e que viu de perto o fracasso do badalado chileno Sierra no São Paulo nos anos 1990.

TRÊS PERGUNTAS PARA...

Eduardo Bandeira de Mello, presidente do Flamengo

1. Quais fatores pesam para clubes procurarem atletas de outros países?

Temos observadores que mapeiam os mercados, principalmente sul-americanos.Como consequência, ainda levamos a marca do Flamengo para fora do País, já que temos jogadores com nível de seleção nacional. Olhando nossa história, temos jogadores estrangeiros que foram ídolos da torcida como Modesto Bria, Valido, Gamarra, Doval e, mais recentemente, o Petkovic, protagonista das nossas conquistas do Tri Estadual em 2001 e do Hexacampeonato Brasileiro em 2009.

2. Quais as preocupações do clube com o atleta?

Essa questão é muito importante. Hoje no nosso elenco, o fato de haver outros jogadores sul-americanos também ajuda, pelo idioma, adaptação, cultura. Damos assistência psicológica e auxiliamos na integração da família, na adaptação no Rio de Janeiro, local para morar, matrícula dos filhos no colégio, etc.

3. A chance de revender os reforços também pesa?

Sim, claro. Assim como acontece com os talentos brasileiros formados no clube.

 

 

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Ciro Campos, Leandro Silveira, O Estado de S. Paulo

19 Agosto 2018 | 06h00

A procura por jogadores estrangeiros fortaleceu a atuação de outro setor no futebol. Os empresários de atletas intensificaram o trabalho de indicação de reforços e da organização de rede de contatos com clubes.

O último balanço de transferências divulgado pela CBF provou o quanto os agentes estão atuantes. Apenas em 2017, os times brasileiros gastaram R$ 35,3 milhões em comissões a eles. A possibilidade de se ter mais estrangeiros abriu o mercado nacional para empresários de países vizinhos também.

Boa parte das negociações começam a partir dos próprios empresários, que sabem da necessidade dos técnicos para uma determinada posição do time e oferecem ao clube alguma oportunidade (boa) de reforço. 

A tecnologia é outro componente de peso para explicar o aumento de estrangeiros no Brasil. "Com a globalização, as distâncias diminuíram. Quem estiver mais atento pode fazer negócios melhores", garante o diretor de futebol do Atlético-MG, Alexandre Gallo.

As equipes aumentaram suas comissões de análise de desempenho e passaram a monitorar campeonatos de países vizinhos, numa espécie de olheiro profissional. A utilização de programas de computador virou lei. "Hoje é possível acompanhar campeonatos até da terceira divisão do Chile. Dá para procurar reforços aplicando filtros nesses programas de acordo com a posição e característica que é procurada no atleta", diz Rui Costa, ex-diretor executivo de Grêmio e Chapecoense.

Se no Brasil os estrangeiros são uma realidade, ainda falta usufruir melhor dessa presença. Para Danyel Braga, diretor de negócios da empresa de gestão CSM Golden Goal, os times poderiam aproveitar a vinda de um colombiano, por exemplo, para realizar ações voltas ao público daquele país. "Falta explorar comercialmente esses reforços. Seria possível gerar vínculo desse atleta com a torcida do seu país, para aumentar as receitas ligadas a isso", diz.

 

 

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Wilson Baldinir Jr., O Estado de S. Paulo

19 Agosto 2018 | 06h00

A presença do jogador estrangeiro no futebol brasileiro ficou marcada por uma data importante. Em 19 de dezembro de 1973, diante de mais de 155 mil espectadores, no Maracanã, um combinado de atletas do exterior, muitos que atuavam em times nacionais, enfrentou a seleção brasileira, reforçada por Pelé no "Jogo da Gratidão". A partida marcava a despedida e também buscava arrecadar dinheiro para Mané Garrincha.

Foram arrecadados mais de US$ 160 mil. Garrincha, então com 40 anos, comprou sete casas (para as filhas), outra na Tijuca, um carro Mercedes-Benz (usado) e uma casa de shows no bairro de Vila Isabel, onde sua companheira e cantora Elza Soares poderia se apresentar.

O combinado estrangeiro contava com Andrada (Vasco), Forlan e Pedro Rocha (São Paulo), Alex (América-RJ), Reyes e Doval (Flamengo) e Dreyer (Coritiba). O técnico foi Travaglini.

O Brasil jogou com Félix (Leão); Carlos Alberto (Zé Maria), Brito (Luis Pereira), Piazza e Everaldo (Marinho Chagas); Clodoaldo (Zé Carlos) e Rivellino (Manfrini); Garrincha (Zequinha), Jairzinho (André), Pelé (Ademir da Guia) e Caju (Mário Sérgio). Zagallo comandou o Brasil. Armando Marques apitou o primeiro tempo e Arnaldo Cesar Coelho, a segunda etapa.

O argentino convidado Brindisi, que jogava pelo Huracán e seleção argentina, abriu o placar. Pelé, com um golaço, em jogada individual, empatou ainda no primeiro tempo. Luis Pereira fez no segundo o gol da vitória da seleção.

Garrincha, após algumas boas jogadas proporcionadas pela frouxa marcação adversária, combinada, deixou o gramado ovacionado aos 30 minutos da etapa inicial. Não dava mais para ele. Deu volta olímpica. O craque morreu pobre, nove anos mais tarde, aos 49, em decorrência do alcoolismo.

 

 

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