Andre Penner/AP
Andre Penner/AP

Brasil x Argentina: tudo o que se sabe até agora sobre o jogo interrompido pela Anvisa

Clássico foi suspenso depois que agentes da Anvisa entraram em campo para retirar atletas argentinos que teriam descumprido os protocolos sanitários de combate à covid-19

Redação, Estadão Conteúdo

06 de setembro de 2021 | 16h28

No último domingo, o clássico entre Brasil e Argentina, válido pelas Eliminatórias da Copa e disputado na Neo Química Arena, em São Paulo, foi suspenso depois que agentes da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) entraram em campo para retirar quatro atletas argentinos, três deles titulares, que teriam descumprido os protocolos sanitários brasileiros de combate à covid-19.

O jogo foi interrompido aos cinco minutos do primeiro tempo e não há ainda uma definição sobre o desfecho da partida, que vai ficar a cargo do Comitê disciplinar da Fifa. Desde o momento em que o confronto foi paralisado, especulou-se sobre a possibilidade dos argentinos perderem por W.O. — quando a equipe fica impossibilitada de competir — ou, até mesmo, o jogo ser reiniciado de onde parou.

Por que o jogo foi paralisado e suspenso?

O clássico foi suspenso logo aos cinco minutos de jogo, por agentes da Anvisa e da Polícia Federal. Segundo o órgão sanitário, o goleiro Emiliano Martinez, o zagueiro Cristian Romero e os meias Emiliano Buendia e Giovani Lo Celso não poderiam estar em campo no duelo contra a seleção brasileira. 

Em nota, a Anvisa afirma que os quatro jogadores não cumpriram a quarentena obrigatória para aqueles que chegam ao Brasil e que estiveram no Reino Unido nos últimos 14 dias. Os atletas atuam no futebol inglês e, de acordo com os agentes, disputaram jogos pelos seus clubes no final de agosto. Por estarem no Reino Unido nas últimas duas semanas, mentiram às autoridades brasileiras quando tiveram que preencher as declarações sanitárias quando entraram no País.

Qual a medida restritiva que os argentinos descumpriram?

Para conter a disseminação da variante Delta do coronavírus, o Governo Federal publicou, no dia 23 de junho, no Diário Oficial da União (DOU), a Portaria 655/2021 que proíbe a entrada de estrangeiros que chegam ao Brasil vindos do  (ou que tenham passado por) Reino Unido, Irlanda do Norte, África do Sul e Índia sem antes fazer uma quarentena de 14 dias. Os jogadores argentinos jogaram partidas do campeonato inglês no final de semana dos dias 28 e 29 de agosto.

A Anvisa tentou barrar os argentinos antes da partida?

Desde sexta-feira, quando a seleção srgentina desembarcou no Brasil, a Anvisa identificou que os jogadores haviam mentido na entrada ao País e comunicou às autoridades sobre a irregularidade e a necessidade dos atletas cumprirem a quarentena.

Na tarde de sábado, foi realizada uma reunião envolvendo membros do Ministério da Saúde, da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, representantes da Conmebol, da CBF e da delegação argentina para explicar a situação e sobre a impossibilidade dos quatro jogadores de entrarem em campo. Mesmo depois do encontro, os atletas envolvidos participaram de treinamento realizado na noite de sábado.

Ainda na manhã de domingo, dia da partida, a Anvisa esteve com a Polícia Federal no hotel onde estava hospedada a delegação da Argentina. Mas, quando chegaram, os jogadores já tinham se dirigido à Neo Química Arena.  No estádio, novamente os agentes  tentaram contato com os quatro atletas, mas a delegação argentina trancou o vestiário antes de começar a partida.

Os argentinos tiveram a chance de jogar?

Na reunião de sábado, a Anvisa orientou a Conmebol e a delegação da Argentina a formalizarem, com urgência, um pedido de excepcionalidade para que os jogadores pudessem jogar no domingo. O pedido então seria analisado pelo Ministério da Saúde e pela Casa Civil.  Porém, a solicitação não foi feita.

O que diz a Anvisa?

Em nota publicada neste domingo, a Anvisa afirmou que já sabia das irregularidades cometidas pelos atletas argentinos desde sexta-feira, quando a delegação albiceleste chegou ao Brasil e que tomou providências para que eles cumprissem a quarentena conforme determina a legislação. 

A agência ainda explicou que tentou interceder para que os quatro jogadores não disputassem a partida por meio de um notificação que determinava o retorno imediato dos jogadores ao país de origem. O documento, contudo, foi ignorado pelos jogadores, segundo a Anvisa.

"Chegamos a esse ponto (suspender a partida) porque tudo aquilo que a Anvisa orientou antes não foi cumprido. Esses jogadores tiveram orientação de ficarem isolados para serem deportados. O isolamento poderia ser até mesmo no hotel. Mas isso não foi cumprido. Eles entraram em campo ainda. Há uma sequência de descumprimentos", afirmou o presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, durante a transmissão do jogo na TV Globo.

O que acontece agora, a Argentina vai perder de W.O? O Brasil pode ser punido?

Depende. Quem decidirá é o Comitê Disciplinar da Fifa que vai analisar o relatório enviado pelo juiz e comissário da partida. Os membros da Comissão vão se debruçar sobre uma questão fundamental e que vai determinar o desfecho da história: a suspensão foi causada por força maior ou por abandono da partida?

Depois que a Anvisa entrou no gramado, os jogadores argentinos saíram de campo e foram para o vestiário. A atitude pode ser configurada como abandono da partida, o que resultaria na vitória para os brasileiros por W.O (3 a 0). Porém, se o Comitê julgar a situação e entender que a paralisação foi ocasionada por motivos de força maior, a partida deve ser reiniciada de onde parou. 

Essa é a defesa dos argentinos, segundo o jornal Clarín. A delegação argentina entende que a CBF não interviu para que o clássico continuasse e que foram autoridades brasileiras que interromperam o jogo, o que excluiria a possibilidade de punição aos argentinos.

Não há uma data ainda para a Fifa tomar uma decisão, mas deve acontecer antes de março de 2022, quando se encerram as Eliminatórias para a Copa.

O que diz a FIFA?

A entidade máxima do futebol afirmou, em uma nota curta, que lamenta o que aconteceu no clássico entre duas das maiores nações do futebol, e afirmou que vai investigar a situação a partir dos relatórios que já estão sendo enviados à instituição. "Já foram enviados os primeiros relatórios oficiais à Fifa. Estas informações serão analisadas pelos órgãos disciplinares competentes e uma decisão será tomada no seu devido tempo", acrescentou. 

O que diz a CBF?

Apesar de afirmar que entende e respeita os protocolos sanitários para o combate à covid-19, a Confederação Brasileira de Futebol disse, em comunicado, que ficou “surpresa com o momento em que a ação da Agência Nacional da Vigilância Sanitária ocorreu, com a partida já tendo sido iniciada”. Na mesma nota, a CBF acredita que a Anvisa poderia ter suspendido a participação dos atletas antes do jogo começar, o que foi rebatido pela agência. 

No comunicado, a CBF afirma que “reitera sua decepção com os acontecimentos e aguarda a decisão da Conmebol e da Fifa em relação à partida", finalizou a entidade

O que dizem os argentinos e a AFA?

O técnico Lionel Scaloni afirmou que ele e os atletas não receberam qualquer comunicado para avisar que os quatro jogadores não estariam aptos a entrar em campo. "Em nenhum momento fomos avisados de que não poderiam jogar”, disse o treinador. 

A Associação do Futebol Argentino (AFA) rebateu as declarações da Anvisa e afirmou que os jogadores cumpriram os protocolos sanitários exigidos pela legislação brasileira. O presidente da associação, Claudio Tapia, rebateu a Avisa e defendeu os jogadores da Argentina afirmando que os atletas mentiram quando chegaram ao Brasil. 

O presidente da AFA explica que foi respeitado o protocolo sanitário que rege as competições sul-americanas. "Aqui não se pode falar de mentira porque existe uma legislação sanitária que rege todos os torneios sul-americanos. As autoridades sanitárias de cada país aprovaram um protocolo que temos cumprido ao máximo", ressaltou Tapia.

Qual o posicionamento da Conmebol?

Depois da suspensão do clássico, a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) comunicou que o Comitê Disciplinar da Fifa vai receber o relatório enviado pelo árbitro e comissário do jogo e ,com isso, determinará as próximas etapas do confronto. "As Eliminatórias da Copa do Mundo são uma competição da Fifa. Todas as decisões relativas à sua organização e desenvolvimento são da competência exclusiva daquela instituição", disse a Conmebol.

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