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Amistoso entre Brasil e Egito, em 2011, também é alvo de investigação

Justiça suspeita que jogo disputado em Doha tenha servido para quitar 'dívida' com Teixeira e dirigente egípcio pelo voto no Catar

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE EM GENEBRA, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2015 | 07h00

Mais um amistoso da seleção brasileira é alvo de investigações, sob a suspeita de que tenha sido usado como mecanismo para pagar propinas em troca de votos ao Catar para a Copa de 2022. Segundo o Estado apurou com exclusividade, o novo foco dos investigadores americanos e suíços é a partida entre Brasil e Egito, disputada no Catar em 2011.

Na semana passada, a reportagem do Estado revelou que o jogo em 2010 entre Brasil e Argentina está entre os investigados. A partida amistosa ocorreu no Catar dias antes da votação na Fifa que deu ao pequeno país do Golfo o direito de sediar o Mundial de 2022. Tanto o Brasil como a Argentina votaram pelo Catar, ainda que Ricardo Teixeira garanta que jamais recebeu um centavo pelo apoio.

Mas aquele não seria o único jogo na lupa dos investigadores. Segundo o Estado apurou em Berna, a partida no dia 14 de novembro de 2011 no estádio do Al Rayyann, em Doha (Catar), também levanta suspeitas. O Brasil venceu por 2 a 0, com gols de Jonas.

Oficialmente, Doha foi escolhido pelos organizadores da partida por ser um local onde a torcida egípcia poderia comparecer em um bom número. No início daquele ano, o país havia passado por uma revolução e jogar no Cairo não era ainda uma opção.

Mas a suspeita é de que os organizadores da Copa do Catar teriam aproveitado a ocasião para quitar duas dívidas. A primeira seria ainda com Teixeira, que votou um ano antes pelo país.

Mas o Catar solucionava com o jogo uma outra dívida: com o chefe do futebol egípcio, Hany Abo Rida. O cartola era um dos maiores aliados de Mohamed Bin Hammam, do Catar, que tentou derrubar Joseph Blatter do cargo de presidente da Fifa.

Abo Rida está sendo investigado pelo FBI por também ter viajado com Bin Hammam para um encontro na União Caribenha de Futebol. Naquele evento, o representante do Catar distribuiria US$ 40 mil a cada um dos dirigentes do Caribe em troca de votos para as eleições na Fifa. Os americanos, agora, querem saber o que Abo Rida fazia no mesmo jato particular que voou do Oriente Médio ao Caribe.

Apesar de o jogo com o Brasil ter ocorrido um ano depois da vitória do Catar, os investigadores alertam que os pagamentos podem não ter ocorrido de forma imediata. Um exemplo foi o pagamento feito ao então-vice-presidente da Fifa, Jack Warner, por seu voto para a Copa na África do Sul em 2010. Apesar de a escolha ter ocorrido em 2004, a dívida com ele apenas foi quitada em 2008. 

 

'Nossa percepção é de que para a Copa do Catar, os eventuais pagamentos foram realizados entre 2009 e 2012', disse uma fonte em Berna na condição de não ter sua identidade revelada. 

Ao Estado, o procurador-geral da Suíça, Michael Lauber, confirmou o interesse pelos dados da Kentaro, empresa que organizou os amistosos do Brasil entre 2006 e 2012. No dia 27, o servidor da empresa foi confiscado pelas autoridades suíças, ainda que a agencia não esteja entre as suspeitas.

Lauber confirmou à reportagem que pretende usar a informação da Kentaro para ampliar suas investigações. 'A Kentaro está colaborando', disse o procurador-geral. 'Mas nosso interesse é o de saber o que talvez seja interessante para o Brasil. Vou processar os dado, definir a prioridade e talvez seguir para algum outro lugar', indicou.

Roland Buchel, deputado suíço que lidera os trabalhos no Parlamento por uma reforma na Fifa, defende uma investigação do esquema dos amistosos. 'Essas partidas não tem qualquer objetivo esportivo e precisam ser investigadas', declarou ao Estado. 'Os jogadores se transformaram no circo de alguns que ganham dinheiro com isso', insistiu.

PADRÃO FIFA

O que tanto o MP quanto o Parlamento apontam é que a rede de amistosos pode ter sido usado por mais de uma candidatura. 

Outro jogo sob suspeita é a ida do Paraguai até a Austrália para um amistoso, em 9 de outubro de 2010, dois meses antes da votação. Os australianos também concorriam para sediar a Copa de 2022. Membros da campanha organizadora confirmaram ao Estado que o time inteiro do Paraguai foi pago para viajar até o outro lado do mundo, apenas para um amistoso. A Justiça também suspeita que o jogo foi usado para fazer um agrado a Nicolas Leoz, o paraguaio que era membro da Fifa e votava na eleição.

Os australianos também admitiram que pagaram para que a seleção sub-20 de Trinidad e Tobago viajasse até a ilha de Chipre para um estágio e um torneio de verão em 2009. A viagem custou cerca de US$ 300 mil e o dinheiro foi depositado nas contas da agência de viagem de Jack Warner, vice-presidente da Fifa, o homem forte de Trinidad e Tobago e um dos votos mais influentes da escolha da sede da Copa de 2022.

O destino também é suspeito. O Chipre, insignificante no futebol, é o país de outro cartola que também votaria na eleição para a Copa: Marios Lefkaritis, interrogado hoje pelo Ministério Público da Suíça e ainda membro do Comitê Executivo da Fifa. 


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