Paulo Liebert/Estadão
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Ugo Giorgetti
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Brasileirão secreto

Torneios sub-20 e sub-17 formam os jogadores do futuro e são pouco visados no País

O Estado de S.Paulo

11 Novembro 2018 | 03h00

Existe uma competição importante para a qual pouca gente liga. E, no entanto, na minha opinião poderia ser classificada com a mais importante de todas, pelo menos na área do futebol, pois trata do nosso futuro, dos jogadores que virão. Aliás, não se trata de competição única, mas várias, levando o pomposo título de Campeonato Brasileiro. É o sub-20 e o sub-17. Talvez haja mais torneios além desses, sob o nome de Campeonatos Brasileiros, mas é difícil saber, até porque quase nada é divulgado.

Apenas quando um canal de televisão resolve, sabe-se Deus por que, meter no meio de sua programação a transmissão de uma ou mais partidas desses torneios é que ficamos sabendo de alguma coisa. Por escassos 90 minutos são passadas informações erráticas e dispersas, cacos que vamos juntando para poder minimamente saber do que se trata.

É claro que há a indefectível internet e os interessados que procurem nela como se desenrolam as competições. Só que isso não é maneira de propagar torneios que, pela sua qualidade, mereceriam ser vistos e ter divulgação normal, como, aliás, tem, por exemplo, a famosa Copa São Paulo de Futebol Junior que, por força das revelações que já ofereceu ao futebol, passou a ter divulgação mais decente e hoje é vista de acordo com sua importância.

Não é o caso desses Campeonatos Brasileiros Sub-20, Sub-17 ou sub mais sei lá o que, que andam por aí. A prova disso é que em nenhum dos jogos a que assisti, sempre com equipes grandes envolvidas, havia público significativo no estádio. Ao contrário, em todos eram comuns os vazios, as crateras de público nas arquibancadas – e estavam em campo times como o Flamengo ou o Corinthians. Isso demonstra de maneira clara que ninguém tinha informação suficiente sobre os jogos.

Parece até que dirigentes organizam essas competições para serem jogadas, mas não vistas. Os empresários certamente vêm, os agentes, os intermediários, os que têm contatos ou representam clubes do exterior. Esse talvez seja o verdadeiro público dessas partidas. Por isso há jogadores que subitamente passam a ser falados em outros países dos quais nunca ouvimos falar ou vimos jogar por aqui.

Esse aspecto se reflete nas partidas. Vi duas recentes, que, coincidentemente, acabaram em brigas, em conflito entre jogadores com algumas adesões dos raríssimos torcedores e algumas comissões técnicas. Primeiro foi a partida de ida da final do Brasileiro Sub-20 entre Palmeiras e Vitória, em Salvador. A segunda, ainda mais recente, foi a semifinal da Copa do Brasil Sub-17 entre São Paulo e Flamengo.

As brigas, me parece, são a consequência de sonhos truncados. Ou subitamente ameaçados. Aqueles garotos estão lá na esperança de passar a fazer parte da ínfima, insignificante, microscópica parte de candidatos a jogadores que realmente saem da base para se tornarem atletas de times que disputam as séries A e B do Brasileiro.

Estar na base de time grande não garante nada a ninguém, é claro, muito menos quando perdem partidas decisivas que lhes dariam mais visibilidade e nome. Por isso as partidas são ferozes e uma derrota ou, sobretudo, uma falha que leve à derrota, tem um sabor especialmente amargo. Nesse país de necessitados e carentes o futebol é uma porta estreita, muitas vezes única, para o progresso. Em alguns casos é o caminho não só para um lugar na vida, mas para a fortuna súbita e repentina. Essas partidas sub alguma coisa me incomodam um pouco. Não posso deixar de ver aqueles garotos, todos vestindo uniformes gloriosos que possivelmente jamais vestirão de verdade, se esforçando desesperadamente para que alguém os veja e os retire da obscuridade. E o adversário passa de adversário a inimigo.

 

 

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