Sergio Moraes| Reuters
Sergio Moraes| Reuters

Brasileiro diz subornar de forma regular cartolas por 25 anos

José Margulies fecha delação premiada com Justiça dos EUA

Thiago Mattos e Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2016 | 07h16

NOVA YORK e LAUSANNE - A Justiça dos Estados Unidos publicou nesta segunda-feira as dezenas de páginas do depoimento no qual o empresário brasileiro José Margulies admitiu ter pago propinas "de forma regular" durante anos a dirigentes do futebol para ter direitos comerciais sobre as transmissões de eventos esportivos como a Copa América, a Copa Libertadores da América, e jogos classificatórias das Olimpíadas e da Copa do Mundo. O Estado havia antecipado com exclusividade que o brasileiro estava fechando um acordo de delação com a Justiça dos EUA, após ter se entregado no fim de 2015.

Acusado de extorsão, lavagem de dinheiro e fraude eletrônica, Margulies confessou culpa por todas as acusações em audiência realizada em novembro de 2015 para evitar penas de até 20 anos de prisão por cada um dos crimes. Na ocasião, sua fiança foi estabelecida em US$ 10 milhões.

Em sua confissão, o empresário detalhou esquemas de corrupção e afirmou que os dirigentes de futebol usavam suas posições de autoridades para enriquecer, embora ele mesmo só teria concordado em receber uma "comissão" por seus serviços a partir de 2013. Entre os réus no processo que o governo dos Estados Unidos move contra dirigentes de futebol, também estão o ex e o atual presidentes da CBF, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero.

TRAJETÓRIA 

José Natalio Margulies, de 76 anos, começou sua carreira no mundo do futebol nos anos 1970, comprando e vendendo direitos comerciais para jogos de futebol da Copa Libertadores da América. Desde 1986, Margulies usava duas empresas que fundou nos Estados Unidos - Somerton e Valente - para fazer pagamentos de propinas a dirigentes de futebol. Em 1989, tornou-se diretor da Spoart - uma das empresas listadas no escândalo dos Panama Papers. Agora em condição de réu confesso, Margulies deve pagar uma fiança de US$ 10 milhões.

CONFISSÃO 

"Por volta de 1986, eu ajudei ao senhor José Hawilla, que era dono da Traffic, uma empresa de marketing esportivo, a obter os direitos comerciais da Copa das Américas, alguns dos jogos de classificação para as Olimpíadas e a Copa Libertadores da América", revelou Margulies durante sessão judicial que ouviu sua confissão em novembro de 2015. "A partir de 1991, eu ajudei a pagar propinas em nome da Traffic para vários dirigentes da Federação de Futebol da América do Sul, uma das seis confederações continentais de futebol conhecidas como Conmebol. Eu também sabia que essas propinas foram feitas para que a Traffic ganhasse e mantivesse direitos comerciais para esses eventos de futebol, assim como para jogos classificatórios para a Copa do Mundo."

Durante a confissão, o empresário admitiu que o pagamento de propinas foi feito "de forma regular" até 2015. Além dos subornos pagos à Traffic, do brasileiro José Hawilla, Margulies também manteve o que chamou de "relação de negócios" com outras duas empresas: "Torneos y Competencias" e "T e T", esta última fundada em conjunto entre a Traffic e a Torneos.

"Por um tempo como executivo da indústria de comunicação, Fifa, Conmebol, Concacaf e outras organizações relacionadas ao futebol ou a empresas de marketing esportivo estavam envolvidas na promoção e na regulação do futebol em todo o mundo como parte de uma organização permanente. Entre outras coisas, essas empresas patrocinam e têm eventos relacionados ao futebol e fazem negócios nos Estados Unidos e usam instituições financeiras nos EUA", disse o empresário, que ao fim da confissão disse sentir remorsos pelos problemas que causou à família, ao mundo do futebol e aos Estados Unidos.  "Com meu reconhecimento de culpa, estou dando os primeiros passos para resolver esses problemas."

No início da audiência judicial em que o empresário José Margulies confessou culpa por extorsão, lavagem de dinheiro e fraude eletrônica, o réu foi informado de que perderia uma série de direitos com a confissão e que poderia se valer da Quinta Emenda constitucional dos EUA e não dizer nada contra si. Margolies preferiu abrir mão do direito e optou pela confissão, detalhando como o dinheiro usado para o pagamento de propinas foi movimentado para dentro e fora dos Estados Unidos. Pela lei do país, sua confissão não pode ser revogada.

"Nos anos 70 eu ajudei a administrar uma empresa de eventos chamada Socram e eu comecei a comprar e vender direitos comerciais para vários eventos de futebol, incluindo a Copa Libertadores da América. Por volta de 1989, eu me tornei o diretor sênior de uma empresa recém formada chamada Spoart. E eu também ajudei na transmissão de uma série de eventos futebolísticos e formei as empresas Somerton e Valente, que contratavam empresas dedicadas ao marketing esportivos para entregar uma série de serviços. Por volta de 1986, eu ajudei ao senhor José Hawilla, que era o dono da Traffic, uma empresa de marketing esportivo, a obter os direitos comerciais da Copa das Américas, alguns dos jogos de classificação para as Olimpíadas e a Copa Libertadores da América."

"A partir de cerca de 1991, eu ajudei a pagar propinas em nome da Traffic para vários dirigentes da Federação de Futebol da América do Sul, uma das seis confederações continentais de futebol conhecidas como Conmebol. Eu sabia que esses dirigentes estavam usando suas posições de autoridades, utilizando a confiança e as posições de autoridades para enriquecer. Eu também sabia que essas propinas foram feitas para que a Traffic ganhasse e mantivesse direitos comerciais para esses eventos de futebol, assim como para jogos classificatórios para a Copa do Mundo. Embora eu não tenha recebido nenhuma comissão por esses pagamentos, eu os fiz para manter minha relação com a Traffic. Eu fiz os pagamentos de maneira regular em nome da Traffic até cerca de 2007."

"Eu também tive uma relação de negócios com a empresa Torneos y Competencias. E assim com a mesma regularidade que fiz com a Traffic, eu vendi alguns direitos de ajudei Torneos na retransmissão de alguns eventos de futebol. Começando por volta do ano 2000 e até 2015 eu fiz transferências de dinheiro periodicamente em nome e a pedido da empresa T e T, que era originalmente uma empresa em conjunto entre Traffic e Torneos e posteriormente se tornou uma associação entre Torneos e outros investidores, que eram administrados pelos executivos da Torneos. Eu deduzi que muitos desses pagamentos eram feitos em nome da T e T para pagar propinas a dirigentes de futebol para que eles concedessem contratos para a Torneos ou para a T e T."

"Eu sabia que T e T tinha os direitos para a Copa Libertadores, entre outros torneios e que isso era apoiado pelas autoridades da Conmebol para garantir tais direitos. Eu também sabia que Torneos ganhou uma parte dos direitos para a Copa América, que aconteceria nos EUA em 2016, organizada em conjunto pela Conmebol e pela Concacaf, a confederação regional para o futebol norte-americano, América Central e Caribe. Aproximadamente no início de 2013, eu concordei em receber uma comissão de um porcento para algumas quantias que eu transferia para a T e T. Antes disso, não recebi nenhuma comissão para os pagamentos que eu fazia para a T e T, mas eu fiz todos esses pagamentos e aqueles que eram incluídos no acordo para manter minha relação com Torneos e seus executivos." 

"Eu usei duas empresas estrangeiras que eu controlava, Valente Corp.e Somerton Ltd, para fazer muitos desses pagamentos, e os pagamentos descritos acima, em nome da Traffic e Torneos e seus executivos. Começando por volta de 1986 até o presente, Valente e Somerton mantiveram suas contas nos Estados Unidos. Quando um executivo de uma empresa de marketing esportivo me pedisse para fazer algum pagamento para sua empresa, a empresa transferiria eletronicamente os fundos de uma conta de fora dos EUA para as contas da Valente ou da Somerton nos EUA. Valente e Somerton fariam depois os pagamentos para as empresas e a quantidade especificada pelos executivos de marketing esportivo."

"Por um tempo como executivo da indústria de comunicação, Fifa, Conmebol e Concacaf, e outras organizações relacionadas ao futebol ou a empresas de marketing esportivo estavam envolvidas na promoção e na regulação do futebol em todo o mundo como parte de uma organização permanente. Entre outras coisas, essas empresas patrocinam e tem eventos relacionados ao futebol e fazem negócios nos Estados Unidos e usariam instituições financeiras nos EUA. O planejamento de pagamentos de propina não foram revelados para Fifa, Concacaf e Conmebol."

"Gostaria de acrescentar que tenho remorsos para os problemas que causei para minha família, o mundo do futebol e para os Estados Unidos. Com minha aceitação de culpa, estou dando os primeiros passos para resolver esses problemas."

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