'Brasileiro precisa aprender a jogar em pé', diz Gaciba

'Brasileiro precisa aprender a jogar em pé', diz Gaciba

Ex-árbitro critica comportamentos dos jogadores e culpa atletas pela má fase do futebol brasileiro

Mateus Silva Alves e Raphael Ramos , O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2014 | 17h00

Por que os jogos no Brasil são mais truncados do que em outros países?

O jogador brasileiro tem por característica querer cavar e simular faltas a todo momento. A prova disso é que o jogador brasileiro, quando vai para a Europa, principalmente o atacante, leva um certo tempo para se adaptar ao sistema europeu, que nada mais é do que aprender a jogar em pé. É uma particularidade do jogador brasileiro que torna o jogo aqui mais difícil de ser comandado dentro de campo. Isso é preocupante porque a gente está tirando do torcedor que vai o estádio metade do valor pago pelo ingresso, afinal só metade do jogo é de bola rolando.

Como é para o árbitro conduzir uma partida em que praticamente todos os jogadores estão tentando enganá-lo?

É preciso muito treinamento antes do jogo e estudo das características dos jogadores que estarão em campo. A experiência também ajuda muito, porque os atletas passam a te conhecer melhor. É fundamental aprender qual é o melhor ângulo e o posicionamento ideal para tomar a decisão técnica correta. Esses tipos de escolhas ajudam a melhorar a performance do árbitro, mas é difícil. Eu, particularmente, encontrava uma facilidade muito maior quando dirigia partidas da Libertadores e das Eliminatórias da Copa porque só tinha de me preocupar com as questões técnicas. A parte disciplinar era mais tranquila.

Para o árbitro, o que é pior: a catimba dos sul-americanos ou a simulação de faltas?

A simulação de faltas, com certeza. Tem muita jogada que apitei aqui na América do Sul que eu achava que era para cartão amarelo e o atleta que sofria a falta levantava e continuava jogando normalmente, dando completa velocidade ao jogo. O árbitro brasileiro tem de se adaptar a essa realidade. Aqui no Brasil, normalmente a gente coloca nos atacantes a culpa pelo grande número de faltas. É verdade que muitas vezes os atacantes jogam a bola de lado só para o adversário atingir a sua perna, mas os defensores também têm culpa. No Brasil, marcar bem não é interceptar a bola antes que ela chegue no adversário, mas sim bater no atacante. O objetivo é fazer a marcação diretamente no corpo do adversário. Muitíssimos defensores no Brasil têm essa filosofia. Em momento algum eles visam a bola para fazer o desarme.

Além de simular faltas, os jogadores também tentam forçar cartões para os adversários?

Na Copa do Mundo, a média de faltas foi de 29 por jogo. No Brasileiro, é de 34. Não é uma diferença tão grande. O problema maior é o que acontece depois da falta sofrida. O tempo que se demora para cobrar a infração é enorme. O que no exterior é uma falta normal, aqui no Brasil o cara fica rolando no chão. Em algumas situações, a minha primeira sensação é de que o jogador quebrou a perna, mas quando ele vê o cartão amarelo ou vermelho na mão do juiz, aquilo faz mais bem para ele do que um atendimento médico e ele levanta na hora com se nada tivesse acontecido. Essa é uma questão de filosofia. Dentro de campo, eu ouvi muitas vezes os técnicos falarem para os seus jogadores: “Quando estiver dentro da área, cai porque é pênalti.”

Fala-se em mudar a regra, obrigando o atleta que precisar de atendimento médico a ficar pelo menos cinco minutos fora. Qual é a sua opinião sobre isso?

Vejo prós e contras. Esse tipo de atitude pode incentivar que o marcador dê um pontapé forte no adversário só para ele ficar cinco minutos fora do jogo. Hoje a regra diz que quando o atleta pede atendimento ele tem de sair do campo e só pode voltar depois que a bola entrar em jogo novamente. Antes, era normal a gente ver zagueiro caindo para todos os lados nos minutos finais dos jogos. Hoje em dia, a matada de tempo é durante todo o jogo e não mais especificamente nos minutos finais.

A pessoas também estão questionado o Fair Play, já que muitas vezes o atacante perde a bola e cai pedindo atendimento médico só para matar o contra-ataque do adversário. Isso incomoda os árbitros?

Infelizmente, no Brasil tem regra no futebol que tem de ser modificada só por causa dos jogadores brasileiros. É o caso da paradinha na hora do pênalti, por exemplo. No vídeo da Fifa, todos os exemplos eram de atletas brasileiros, sem exceção. O Fair Play surgiu, acima de tudo, como um conceito de educação esportiva. Quando um atleta se machuca, o adversário, por livre e espontânea vontade, abre mão de atacar para a entrada do atendimento médico. O problema é que o jogador caído no chão não significa necessariamente que o adversário tem de colocar a bola para fora. Esse é um conceito deturbado dentro do futebol brasileiro. Se o árbitro vê que a lesão é grave, ele tem a obrigação de parar o jogo imediatamente. Quem avalia isso é o árbitro, e não os jogadores.

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