José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão

Brasileiros culpam torcidas organizadas pela violência no futebol

Segundo pesquisa, 84,5% considera que grupos são responsáveis pela confusão nos estádios

Marcio Dolzan, O Estado de S. Paulo

29 de outubro de 2013 | 07h30

SÃO PAULO - As torcidas organizadas ou os torcedores fanáticos são os grandes responsáveis pela violência nos estádios. Ao menos essa é a percepção de 84,5% do público que acompanha futebol no País, de acordo com pesquisa realizada no fim de agosto com 8.112 pessoas e que teve seus resultados divulgados agora. A margem de erro é 1,1%.

O número de pessoas que culpam as organizadas pelos conflitos chega a 84,7% se forem considerados apenas os entrevistados que disseram frequentar estádios de futebol. O levantamento, realizado pela Stochos Sports Entertainment, empresa especializada em pesquisa e análise de mercado do esporte, aponta ainda que somente 8,4% considera o Poder Público ou os órgãos de segurança como os verdadeiros responsáveis pela violência nas arquibancadas. A pesquisa é feita regularmente desde 2008 e, de acordo com César Gualdani, sócio-diretor da Stochos, os resultados têm sido semelhantes. "Constatamos esses números já há longa data e temos divulgado isso com o intuito de chamar a atenção das autoridades", afirma. "Mas eu não tenho ilusão nenhuma de que os resultados possam mudar alguma coisa. Isso é um problema crônico."

Para o advogado Eduardo Carlezzo, secretário da Comissão de Direito Desportivo e Conselho Federal da OAB, a violência nos estádios só diminuirá com mudança na legislação. "A gente vê cenas de torcedores se arrebentando, mas se eles não tiverem antecedentes o máximo que vai acontecer é serem proibidos de irem aos estádios por três meses. É preciso que sejam responsabilizados criminalmente", defende. Carlezzo pede ainda uma maior atuação do Governo no controle aos torcedores que forem flagrados em confusão. "A fiscalização tem de vir de cima, de algum ministério ou órgão federal."

OUTRO LADO

Doutor em psicologia social, Felipe Tavares Paes Lopes estuda a violência no futebol pela Unicamp e garante que a culpa imposta às organizadas é exagerada. "O número de mortes envolvendo torcedores aumentou significativamente a partir da década de 1990, e parte dessas mortes está associada a torcedores organizados. Mas isso de forma alguma nos autoriza a generalizar a violência para todos esses torcedores", garante Lopes. Segundo o pesquisador, a violência no futebol é um problema que vai muito além da atuação das organizadas. "É preciso que haja uma transformação cultural profunda, que envolva um pacto democrático para a paz, em todos seus aspectos: físico, cultural e estrutural."

Maior organizada do Atlético-MG, a Galoucura considera que a má percepção do público sobre os grupos organizados se deve a conflitos do passado. "Essa culpa sempre vai cair nas torcidas organizadas pelo histórico de violência adquirido ao logo dos tempos", diz João Paulo de Souza, diretor da torcida. Os atleticanos são, entre todos os torcedores, os que mais culpam a atuação das organizadas pela violência. "Mas não há registros de confrontos entre as duas torcidas rivais no estádio nos últimos anos. O problema ocorre nos bairros, e isso é de responsabilidade da segurança pública", afirma Souza.

Diretor da Independente, organizada do São Paulo, Fábio Silva considera que o resultado da pesquisa vem do desconhecimento do público sobre a atuação dos grupos. "Geralmente quem fala isso é porque não conhece as torcidas organizadas, não frequenta a nossa sede e não viaja com a gente", alega.

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