Clayton de Souza/Estadão
Luis Fabiano, Luxemburgo e Jadson são os brasileiros do Tianjin Quanjian Clayton de Souza/Estadão

VALORES BAIXOS DE BRASILEIROS ATRAEM CLUBES CHINESES

Chineses aproveitam a desvalorização do real para seduzir jogadores

Paulo Favero, Raphael Ramos, O Estado de S. Paulo

09 de janeiro de 2016 | 17h00

Com os cofres cheios e incentivados pelo governo de um presidente apaixonado por futebol, os clubes chineses têm dinheiro para contratar os melhores e mais caros jogadores do mundo. Por que, então, resolveram concentrar grande parte dos seus investimentos no Brasil? Há duas razões básicas: a histórica paixão pelo futebol brasileiro e a desvalorização do real.

O Tianjin Quanjian, time que disputa a Segunda Divisão do Campeonato Chinês, por exemplo, traçou como meta subir para a elite e conquistar uma vaga na Copa da Ásia. Os dirigentes não pensaram duas vezes. Vieram ao Brasil e contrataram o técnico Vanderlei Luxemburgo, o meia Jadson e o atacante Luis Fabiano. Os chineses ainda ofereceram para Pato salário de R$ 5 milhões, mas ouviram o atacante do Corinthians dizer não. Agora estão atrás de outro jogador brasileiro.

Segundo Sun Xian Lu, coordenador do Tianjin Quanjian, mesmo depois do vexame da última Copa do Mundo o Brasil continua sendo visto como o "país do futebol", com jogadores e treinadores considerados capazes de ajudar no desenvolvimento do esporte na China.

"A derrota na Copa afetou um pouco a imagem do futebol brasileiro, mas o país continua tendo bons jogadores e o 7 a 1 foi um episódio isolado. O futebol é um jogo coletivo, mas também é importante contar com destaques individuais. É bom um time ter jogador que faça a diferença. Os chineses são muito duros e esse contato com os brasileiros é importante. O que falta para o futebol chinês é a qualidade técnica do brasileiro", disse Lu.

Assim como o Shandong Luneng no ano passado, o Tianjin Quanjian aproveitou para fazer a sua pré-temporada no Brasil, e Luxemburgo levou o time para Atibaia.

Tang Wei, diretor-geral da Câmara Brasil-China de Desenvolvimento Econômico, destaca também a desvalorização do real perante ao dólar no último ano. "O valor do jogador brasileiro ficou até 40% mais barato no mercado internacional. Isso foi fundamental para o Brasil ser escolhido como principal lugar de importação de mão de obra no futebol", disse Wei, que nasceu em Pequim e desde 1988 vive no Brasil.

Não é de hoje que jogadores saem do Brasil para jogar na China. O sérvio Petkovic, por exemplo, que fez carreira no futebol brasileiro, deixou o Vasco em 2003 para jogar no Shanghai Greenland. O contrato foi costurado pelo advogado Marcos Motta, que nos últimos dez anos participou da maioria das transferências de atletas do País para a China, quase todas intermediadas por Joseph Lee, empresário indonésio que desde 1993 negocia jogadores com o mercado asiático.

"Já é uma tradição ter jogador do Brasil na China. Há empresários com uma penetração muito grande na China. Isso criou uma tropicalização e fez um elo negocial. Jogador brasileiro na China tem dado certo. É uma experiência satisfatória tanto do ponto de vista técnico como do financeiro", diz Motta.

INCENTIVO

O número de transferências se intensificou desde a chegada do presidente Xi Jinping ao poder, em 2013. Seu plano é não só ver a China numa final de Copa do Mundo, como também fazer com que o país seja sede do Mundial a médio prazo. Assim, os clubes estatais passaram a receber mais investimentos e os de propriedade privada a contar com colaboração financeira do governo, sobretudo através da isenção de alguns impostos. Além de gastar com atletas, o investimento em estrutura cresceu muito nos últimos anos.

"Desde quando eu era pequeno e morava na China, sempre admiramos o futebol brasileiro. Mas a China não está interessada em importar apenas jogadores. Ela quer conhecimento no futebol para avançar na área de medicina esportiva, por exemplo, já que o Brasil, pela sua tradição no futebol, possui know-how no ramo", diz Wei.

Luxemburgo levou dez profissionais para montar a sua comissão técnica. Número semelhante às "trupes" de Mano Menezes no Shandong Luneng e de Luiz Felipe Scolari no Guangzhou Evergrande.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Investida da China já levou três titulares do Corinthians

Alvinegro ainda pode perder mais jogadores importantes

Paulo Favero, Raphael Ramos, O Estado de S. Paulo

09 de janeiro de 2016 | 17h02

O Corinthians é até agora o clube brasileiro que tem sofrido o maior assédio dos chineses. Três titulares da campanha do hexacampeonato nacional do ano passado já foram para o país asiático: o meia Renato Augusto, o volante Ralf (ambos para o Beijing Guoan) e o meia Jadson (Tianjin Quanjian).

Mais dois titulares têm propostas do times da China. O volante Elias recebeu uma oferta do Hebei China Fortune, e Gil foi procurado pelo Shandong Luneng, que já tirou do Parque São Jorge o fisioterapeuta Bruno Mazziotti, responsável por recuperar fisicamente Ronaldo Fenômeno e Renato Augusto.

Por enquanto, as transferências para o mercado chinês renderam R$ 27 milhões aos cofres do clube. O dinheiro é considerado baixo porque as multas dos jogadores não eram altas para o mercado internacional. Para piorar, o Corinthians tinha apenas 30% dos direitos econômicos de Jadson e 50% dos de Renato Augusto.

O desmanche no elenco deixou o presidente Roberto de Andrade irritado principalmente pela forma como os jogadores saíram do clube. O dirigente não foi nem procurado pelos chineses, que negociaram salários diretamente com os atletas e seus empresários e depois o Corinthians foi comunicado de que iria receber um depósito com o valor da multa rescisória na conta do clube.

"Nenhum clube da China fala com o Corinthians. Ninguém, ninguém, ninguém. Nem por e-mail, sinal de fumaça, nada, porque não sei de nada", reclamou Andrade na última quinta-feira durante entrevista no CT do Parque Ecológico.

Os salários oferecidos pelos chineses são fora da realidade do futebol brasileiro. Renato Augusto, por exemplo, receberá R$ 2 milhões por mês. Hoje, o atleta com o maior salário no Corinthians é Alexandre Pato, que ganha R$ 800 mil.

Sem poder financeiro para se defender dos ataques dos chineses, o Corinthians teme perder Elias e Gil. A janela de transferências para a China fecha apenas no fim de fevereiro. "Teremos mais um mês tumultuado", admitiu o diretor adjunto de futebol Eduardo Ferreira.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

3 perguntas para Aloisio, atacante do Shandong Luneng

Atacante ex-São Paulo fala sobre o futebol na China

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

09 de janeiro de 2016 | 17h12

Por que os chineses contratam tantos brasileiros?

Os chineses admiram muito o jeito como o brasileiro joga. Eles gostam da técnica e do drible. Aqui o futebol é mais corrido. No Brasil é mais técnico e mais cadenciado. Eles procuram a mistura.

A diferença é muito grande entre os dois estilos?

Existe uma troca. Os chineses estão no caminho certo. Existem grandes jogadores no meu time, no do Felipão e do Conca. Alguns chineses são até mais técnicos do que alguns brasileiros. 

Quanto tempo você pretende ficar na China?

Pretendo cumprir meus dois anos de contrato e, se renovar, quero ficar mais cinco aqui. Quero construir a minha independência financeira.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.