Miguel Vidal/Reuters
Miguel Vidal/Reuters

Brasileiros são 'campeões de venda', mas faturam menos do que clubes portugueses

Levantamento indica que mais de 5.000 atletas deixaram o Brasil nos últimos três anos

Samuel Quintela, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

04 Outubro 2016 | 07h03

Depois de arrecadar o maior valor em transferências dos últimos 13 anos, não seria demais afirmar que o mercado brasileiro tem o que comemorar. Até porque, somadas, as negociações para exportar jogadores no País chegaram a R$ 730 milhões. Além disso, nas últimas quatro temporadas, o Brasil foi quem mais vendeu atletas, segundo relatório da Fifa. Ao todo, foram 5.520 transferências. A Argentina, que ficou com a segunda colocação, negociou 2.632 atletas no mesmo período. Mas se os números impressionam pela quantidade, os dirigentes brasileiros talvez tenham uma lição a aprender sobre "qualidade de investimento" com os cartolas dos principais times de Portugal. 

Se de 2012 a 2015, os três clubes da Série A que mais lucraram com vendas (São Paulo, Internacional e Cruzeiro) acumularam 255 milhões de euros (R$ 924,15 milhões), as três maiores potências do campeonato português (Porto, Benfica e Sporting) arrecadaram quase o dobro deste valor. Foram 503 milhões de euros (R$ 1,822 bilhão). Em 2015, o Porto, sozinho, lucrou mais dos que os três brasileiros citados. São 90 milhões de euros (R$ 326,17 milhões) dos portugueses contra 81 milhões de euros (R$ 293,55 milhões) do trio nacional.

Os dados são de uma pesquisa feita pela empresa de consultoria esportiva Football Improvement, que também mostra que somente Porto, Benfica e Sporting movimentaram um valor maior que todo o mercado brasileiro em 2015. Os três clubes de Portugal acumularam 196 milhões de euros (R$ 710,32 milhões).

Considerando os dados dos últimos 13 anos - de 2003 a 2015 -, consolidados pelo mesmo levantamento -, a vantagem do mercado português diminui, mas não muito. Somados, São Paulo, Internacional e Cruzeiro tiveram receita de 612 milhões de euros (R$ 2,217 bilhões), aproximadamente 61% do volume total gerado por Porto, Benfica e Sporting, que somaram 997 milhões de euros (R$ 3,613 bilhões) no mesmo período. Na comparação anual, os três times do Brasil não ficam à frente das potências portuguesas desde 2007. 

O trabalho prova que o Brasil continua sendo um formador de jogador e, acima de tudo, um exportador nato, mas destacando-se pela quantidade e não pelo montante arrecadado. É interessante constatar que, mesmo somando os cinco melhores resultados brasileiros em venda de jogadores de 2003 a 2015, o resultado não seria suficiente para superar o total levantado pelos três grandes de Portugal. Juntos, Internacional (R$ 906,02 milhões), São Paulo (R$ 739,32 milhões), Cruzeiro (R$ 572,61 milhões), Corinthians (R$ 565,36 milhões) e Santos (R$ 453,01 milhões) lucraram R$ 893 milhões de euros (R$ 3,236 bilhões).

"Em Portugal, graças à Eurocopa de 2004, criou-se uma infraestrutura que deu condições aos times antes inexistentes, tendo surgido academias de formação nos clubes. Além disso, os clubes começaram a investir na prospecção de atletas do mercado sul-americano, como Brasil e Argentina. De lá, os clubes portugueses começaram a recrutar e a formar talentos", analisou o professor Mauro de Almeida, sócio-diretor da Football Improvement.

Para exemplificar esse investimento na América do Sul, o Porto lucrou 99,08 milhões de euros (R$ 359,08 milhões) somando as negociações de James Rodríguez, hoje no Real Madrid, Jackson Martínez, que está no Guangzhou Evergrande, da China, e Alex Sandro, que foi negociado com a Juventus, da Itália. Os dados são do site especializado Transfermarkt. Sem tanto poder econômico e potencial competitivo para atrair craques, considerando as ligas mais poderosas da Europa, o mercado português passou a investir em promessas de mercados menores. E tem dado resultado.

Em 2016, para a janela de verão europeia, a pesquisa aponta o mercado português na segunda posição da lista de maiores vendedores, com 182 milhões de euros (R$ 659,59 milhões). A Alemanha, com 193 milhões de euros (R$ 699,45 milhões) , aparece na liderança. O top 5 ainda conta com Itália, em terceiro, França, em quarto, e Inglaterra, na quinta posição. O Brasil ficou fora da lista. "Para piorar, em quase todas as transferências, os clubes brasileiros ficam com apenas parte do valor negociado, já que não detêm 100% dos direito econômicos dos atletas. São verdadeiras vitrines de jogadores fatiados em percentuais", comentou Amir Somoggi, consultor de marketing e gestão da Football Improvement.

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