Paulo Liebert/Estadão
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Brasis

Ao se integrar no Nordeste, Rogério Ceni percebeu que felicidade não tem região

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2019 | 04h30

Não existe um Brasil, mas muitos. Estão todos espalhados por aí, pelas regiões, cidades, ruas. Frequentemente o Brasil ao qual pertencemos nem consta dos mapas, mas nos cerca por todos os lados e convivemos com ele dia após dia. Nos damos conta do Brasil dos mapas e do Hino Nacional quando assistimos aos noticiários na TV, que, de resto, nos fala em geral de regiões onde nunca fomos, nem pensamos em ir. Onde há um governo e autoridades que são mais imagens numa tela do que reais e próximas.

O futebol, como sempre, esclarece as coisas a esse respeito. Vi o jogo entre Fortaleza e Botafogo da Paraíba, decisivo na Copa do Nordeste. O tipo de jogo e de Copa que não significam nada para nós aqui do Sul, mas de significado imenso para o Nordeste do Brasil. O comportamento da torcida é exatamente o mesmo de qualquer grande torcida no momento de uma conquista muito almejada. A mesma loucura, o mesmo carnaval, a mesma explosão. Eram as mesmas comemorações, em intensidade e vibração, das torcidas de um Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Flamengo no caso de uma conquista como a Libertadores, por exemplo.

Naquele momento, os torcedores do Nordeste não pensavam no lugar que ocupavam no Brasil nem na importância relativa de suas regiões para o PIB nacional. O que importava era o que estava diante de seus olhos, seus conterrâneos, seus amigos no estádio, a paixão pelo grande clube para o qual torcem. O resto do Brasil é literatura.

Por esse motivo os campeonatos nacionais sobrevivem: eles lembram do que está ao lado, lembram do Brasil ao qual pertencemos realmente. Esses sentimentos provavelmente vêm dos campos de várzea que havia por todo o país. O que é mais próximo do que o time de várzea da sua rua? Quem, que viveu os anos 40 e 50 do século passado em cidades como São Paulo, por exemplo, não teve como primeiro ídolo um vizinho que jogava no time da sua rua?

Os campos de várzea estão raros, mas a herança deles está presente nesses inúmeros torneios espalhados pelo Brasil, cuja grandeza só atinamos quando vemos pela frente uma disputa como a Copa do Nordeste, tão eletrizante quanto qualquer torneio de qualquer outra região do País.

Rogério Ceni compreendeu isso. Ir para Fortaleza foi uma intuição rara à qual hoje ele deve agradecer muito. Como homem do Sul, tenho a impressão que sabia pouco sobre as competições de regiões mais ao Norte, se é que não compartilhava da opinião arrogante que nós aqui do Sul temos desses lugares e seus campeonatos. Como se transferir para a distante Fortaleza ele, ídolo por anos e anos de um time vencedor, cujos feitos ecoavam na Europa e Ásia? Foi por instinto, e talvez tenha logo cedo começado a perceber que as coisas eram diferentes. Talvez ele mesmo tenha de novo experimentado a mesma sensação da conquista de sua primeira Libertadores com essa Copa do Nordeste que acaba de ganhar. Talvez mais, pois é uma conquista que, como técnico, não estava acostumado. Pode ser que tenha renovado o prazer das primeiras vezes, da juventude. Qual a diferença de loucura, qual a diferença de felicidade?

Ao se integrar cada vez mais na região, Ceni percebeu que felicidade não tem região, não é diferente aqui, no Nordeste ou na Europa. Não é surpreendente ter recusado ofertas que já recebeu desde quando levou o Fortaleza de volta à Série A do Brasileiro. Ao vê-lo, em campo ainda, depois do jogo com o Botafogo da Paraíba, cercado pelos seus jogadores, aturdido pela comemoração, compreendi porquê. Um dia certamente sairá do Fortaleza. A lembrança que deixará, estou certo, não será a de um treinador que esteve lá apenas de passagem, para cobrir breve período de desemprego, mas de alguém à procura de um outro Brasil. 

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