Brazuca, o outro lado da bola oficial da Copa

Produzido no Paquistão, produto tem preço superior ao salário dos trabalhadores responsáveis por costurá-lo

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

22 de junho de 2014 | 05h00

Cada vez que o juiz soa o apito inicial, milhões de pessoas ficam de olhos vidrados, esperando pelo momento de vibrar quando ela sacudir as redes. A Brazuca, bola oficial da Copa, é sinônimo de emoção para uns – e de lucros milionários para outros. Mas para aqueles que produzem o principal produto do torneio, o salário não passa de US$ 4 por dia.

No Paquistão, longe das novas arenas modernas construídas no Brasil, centenas de pessoas envolvidas no trabalho de costurar cada uma das bolas que são usadas nas partidas ganham um salário mensal que não chega nem ao valor do produto.

A Adidas, que fornece as bolas oficiais da Copa do Mundo, terceirizou o trabalho de costura e de fabricação da Brazuca para empresas na região de Sialkot, no Paquistão. A inovação está na forma pela qual as gomas da bola são coladas umas às outras. Desde 2006, o método passou a ser termal, o que garante um percurso mais previsível da bola.

Não é a primeira vez que as empresas da região são as responsáveis pelas bolas da Copa. Em 1982, a Adidas também fabricou a Tango na região. Nos anos 80, 70% das bolas vendidas no mundo vinham do Paquistão e cerca de 40 milhões delas eram exportadas a cada ano.

Mas, em 2007, acusações de que o setor estava usando trabalho infantil fez com que o Paquistão perdesse grande parte do mercado. A Nike deixou a região e, segundo a Organização Internacional do Trabalho, até 7 mil crianças atuavam nas fábricas.

Muitas dessas empresas foram para a China. Agora, com os salários em Pequim aumentando, as multinacionais voltaram a recorrer também aos paquistaneses, mais baratos.

Desta vez, a promessa do setor é de que o uso de trabalho infantil não voltará a ocorrer e que todos os princípios da Organização Internacional do Trabalho serão cumpridos. Empresas garantem que não contratam pessoas com menos de 15 anos e que os trabalhadores têm o direito de formar sindicatos. Mas os salários ainda são baixos.

Os empregados ganham cerca de 10 mil rupias por mês, cerca de R$ 250. O salário não chega nem ao preço da bola, que no site da Adidas está à venda por R$ 399,90.

Na Associação de Exportadores e Produtores de Materiais Esportivos do Paquistão, o salário é considerado como adequado, já que ninguém ganha abaixo da lei. Mas os responsáveis admitem que a Adidas optou pelo Paquistão por conta dos "preços competitivos". Ou seja: custos de produção baixos.

Segundo dados do Fundo Monetário Internacional, o Paquistão tem um PIB per capta anual de US$ 3,1 mil. O valor corresponde a apenas um terço do da China e é quatro vezes inferior ao do Brasil. A renda também fica abaixo de Gana, Congo e Bolívia, o país mais pobre da América do Sul.

"Temos qualidade e preço", declarou ao Estado o secretário-geral da Associação de Exportadores, Mosin Massoud. Segundo ele, neste ano a região deve vender 42 milhões de bolas de todas as marcas. Num período normal, cerca de 10 mil bolas são produzidas na região. Agora, com a Copa, o número subiu para uma média de 40 mil.

A Forward Sports, por exemplo, deve produzir 3 mil bolas para o Mundial. O trabalho consiste em costurar à mão 20 hexágonos e 12 pentágonos que, depois, serão colados com uma tecnologia inovadora. Para isso, conta com 1,8 mil empregados, que trabalham seis dias por semana.

LUCROS x SALÁRIOS

A disparidade entre os salários dos trabalhadores e os lucros do setor é profundo. No mundo, a Adidas prevê bater as vendas de 2010 e colocar no mercado mais de 13 milhões de bolas. A previsão é de uma renda de  2 bilhões em 2014.

Questionada pelo Estado, a Adidas afirmou que não revela os salários. Mas garante que está “comprometida em garantir práticas trabalhistas justas, salários justos e condições seguras nas fábricas”. A empresa diz que segue as recomendações da ONU e que nenhum empregado pode ganhar menos que o salário mínimo em toda a cadeia de produção.

Segundo a empresa, os trabalhadores recebem ainda incentivos e são pagos por horas extras trabalhadas. O que a Adidas não explica é que optou por produzir a bola no Paquistão e na China porque o custo é muito inferior a qualquer fábrica na Alemanha. 

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