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Brilho na terceira idade

Felipão tem oportunidade de provar, no Palmeiras, que não foi superado pelo tempo

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2018 | 04h00

Luiz Felipe Scolari, na arte do futebol conhecido por Felipão, virou assunto da semana. O anúncio da terceira passagem dele pelo Palmeiras superou o “desabafo” de Neymar em comercial, deixou a retomada de Copa do Brasil e Sul-Americana em segundo plano e abafou até a estreia de Cuca, no Santos, com derrota para o Cruzeiro.

Para o bem ou para o mal, atraiu atenção e dividiu opiniões. Há quem o admire como arquiteto do time pentacampeão mundial em 2002 e quem o execre como artífice da equipe que ruiu nos 7 a 1 em 2014. Para parte dos palestrinos, foi a alma da conquista da Libertadores de 99, até hoje maior proeza da centenária história do clube. Para outra ala, é o treinador que deixou o barco à deriva em 2012 – com o naufrágio pra Série B.

As análises em torno de Felipão refletem seu modo de ser – intenso, impetuoso, impulsivo, emotivo. Em geral, envolvente; às vezes, irritante e turrão. Raramente dissimulado. A imagem que tem, para usar termo da moda, é a de técnico raiz, daqueles que dão bronca em jogador, em juiz, pressionam bandeirinha, instruem gandulas, jogam segunda bola dentro de campo, se necessário. E acima de tudo inflamam elencos, extraem deles o máximo. Contraste com os professores contidos, engravatados e com linguagem empolada. Em suma, é sujeito sem frescura. 

Para quem não o estima, esses mesmos traços – com um quê de estereótipos – moldaram profissional que fez sucesso por um período para em seguida empacar no tempo. A fórmula motivadora não funcionaria mais em épocas de sofisticação do esporte. Ou seja, alguém que sobressai pelo brilho intenso na década de 90 e início dos 2000. Vive de metodologia outrora eficiente.

Talvez Felipão reúna qualidades e defeitos que fãs e depreciadores detectam, com certo exagero. Que bom, sinal de que se trata de ser humano normal, com as contradições que qualquer um carrega do berço à passagem para a Eternidade. Além da experiência, riqueza que os sábios acumulam com a idade, para mim se destaca a inteligência. Felipão não é do tipo mediano, e já mostrou isso na profissão dele. 

Não colecionou títulos por acaso ou intervenção do Divino Espírito Santo; teve méritos para tanto. Não veio do nada o respeito de cartolas, público e boleiros; empenhou-se para tal. Não é à toa que, quase setentão, tenha espaço no mercado. Sobretudo num país em que o carimbo de “velho” é lascado no lombo de um trabalhador que dobrou os 40 anos. Ok, vale alegar que isso é possível porque a nova geração de treinadores não se firmou. Assunto tratado na crônica anterior e que merece reflexões adicionais mais adiante.

Importam agora presente imediato, com o perdão da redundância, e o futuro a curto prazo. Felipão assume grupo caro, como o do fim dos anos 90 (era Parmalat) e com cobranças semelhantes ao de 2010/12. Como na primeira aventura no Palestra, tem recursos fartos, que despertam expectativas altas. Entenda-se no mínimo faturar outra Taça Libertadores.

O palmeirense hoje não admite “participação honrosa” em torneios; isso animava na fase de vacas magras. No momento, exige glórias. 

Eis o desafio em campo, que refletirá o que virá dos vestiários – a administração de plantel com gente boa, com egos diferentes e desempenhos oscilantes. Eduardo Baptista, Cuca e Roger falharam ao não utilizar com argúcia o material de que dispunham. Caíram em desgraça.

Felipão tem oportunidade de provar que não dormiu nos louros, que não apelará para o “jogo feio, porém de resultados”, que manejará com sabedoria os talentos, que “calará os críticos” e silenciará os cornetas. E que sobretudo se pode superar prejulgamentos – nem estreou e já há quem torça o nariz – e brilhar na terceira idade. Que tenha boa sorte.

 

 

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