Gustavo Oliveira/Londrina EC/Divulgação
Gustavo Oliveira/Londrina EC/Divulgação

Brusque já sente no bolso os efeitos do racismo explícito. Mas ainda é pouco

Ao menos um patrocinador rompeu contrato com o clube e outro afirma 'monitorar o caso' após a nota racista contra Celsinho, do Londrina. Havan repudia caso, mas diz que 'manterá patrocínio master'

João Abel, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 12h00

Episódios de racismo, infelizmente, são frequentes no futebol. Mas o Brusque tornou sua situação única ao dobrar a aposta na discriminação e na covardia. A equipe de Santa Catarina criou rejeição quase unânime desde o último domingo, 29, quando divulgou uma nota em que acusava Celsinho, jogador do Londrina, de ‘oportunismo’ por ter relatado uma injúria racial sofrida durante partida da Série B entre os dois times.

“O atleta é conhecido por se envolver neste tipo de episódio. Esta é pelo menos a 3ª vez, somente este ano, que alega ter sido alvo de racismo, caracterizando verdadeira 'perseguição' ao mesmo”, afirmava o texto racista divulgado no site e redes sociais do Brusque.

Até o momento, ao menos um patrocinador rompeu contrato com o clube catarinense. A Barba de Respeito informou que suspendeu os pagamentos até que haja uma posição justa da equipe em relação aos responsáveis pelas injúrias e pela nota publicada. Leia o posicionamento completo no post abaixo. A Embrast, outra empresa estampada na camisa do Brusque, afirmou estar atenta ao caso e que “não compactua com qualquer violação de direitos”.

O Brusque tem as Lojas Havan como patrocinadora master do time. A empresa do bolsonarista Luciano Hang, brusquense de nascimento, fez investimentos diretos para garantir os acessos consecutivos à Série C em 2019 e à Série B em 2020. Até o projeto de uma ‘Arena Havan’, com capacidade para 15 mil torcedores, está no papel.

À coluna, a Havan afirmou que "repudia veementemente qualquer forma de discriminação e está aguardando os desdobramentos do caso", mas que "manterá o patrocínio" para não prejudicar trabalhadores do Brusque.

Há ainda contrato com outras seis companhias: Archer, Erbs, Sicoob, HJ Tinturaria, Unimed Brusque e Bóca Mafra. A coluna entrou em contato com cada uma delas para saber o posicionamento sobre o caso Celsinho, caso haja respostas, vai atualizá-las ao final deste texto.

Com a deterioração da imagem pública e a possível perda de dinheiro, o Brusque tentou apagar o incêndio com um ‘pedido de desculpas’. “Nosso clube sempre foi e será contra qualquer tipo de discriminação”, diz o texto assinado pelo presidente do time, Danilo Rezini, e divulgado um dia depois da fatídica nota contra Celsinho.

Uma retratação que, claro, não colou. Afinal, o primeiro texto foi divulgado com a chancela do clube e, portanto, supõe-se que passou pela aprovação do próprio presidente. Ou não? Quem redigiu e pediu a publicação? Quem é o homem que gritou ‘macaco’ do camarote do Estádio Alfredo Bauer em direção ao jogador do Londrina? São perguntas que o Brusque deve responder. E não só perante ao público. Perante à Justiça.

O Londrina divulgou na noite desta terça um trecho da transmissão do SporTV que capta a injúria contra Celsinho. Assista:

A Procuradoria do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) afirmou que está analisando o episódio. Na súmula do jogo, o árbitro relatou que Celsinho ainda “informou ao quarto árbitro que [também] foi ofendido com as seguintes palavras: 'vai cortar esse cabelo seu cachopa de abelha”.

O artigo 243-G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD) impõe uma pena em casos de discrimação que pode variar de 5 a 10 jogos para atletas e membros da comissão técnica, e de 120 a 360 dias para outras pessoas ligadas ao clube. Além de uma multa estabelecida entre R$ 100 a R$ 100 mil. Se for comprovado que a infração foi praticada por um número considerável de pessoas, o time pode sofrer sanções esportivas como a perda de pontos no torneio.

O histórico do tribunal em casos de racismo, no entanto, não costuma ser exatamente exemplar. Na maioria das vezes, por ‘insuficiência de provas’, os casos são arquivados, como aconteceu com a acusação de injúria racial do feita pelo volante Gérson, do Flamengo, contra Ramírez, do Bahia, em dezembro do ano passado. 

Em 2019, o STJD condenou o Bragantino por injúria. O time paulista foi multado em ‘incríveis’ R$ 2 mil após um goleiro do Brasil de Pelotas ter informado que foi chamado por torcedores de “negão de merda do c*”.

Em janeiro deste ano, o próprio Brusque viu um de seus jogadores, o atacante Jefferson Renan, acusar um dirigente do Vila Nova (GO) de tê-lo chamado de ‘macaco’ durante partida da Série C. À época, o presidente do time goiano classificou a atitude do atleta como “mimimi”. Essa é a mentalidade que impera na diretoria de muitos clubes brasileiros.

O caso de Celsinho não pode passar impune. A perda de patrocínio ou o simples ‘hate’ das redes sociais não vai resolver nada. Pelo contrário. É preciso construir uma dura situação de reparação, exigir do Brusque que reforme sua estrutura interna racista e sirva de exemplo.

Enquanto isso, um movimento cada vez maior diz ‘não’ à discriminação. “Nós nunca nos calaremos”, afirma Celsinho em um vídeo publicado nas redes do Londrina ao lado dos companheiros de time.

E até mesmo jogadores do Brusque como o lateral-direito Edilson, o meio-campo Diego e o atacante Edu Júnior prestaram solidariedade ao jogador adversário. 

Apoie a causa antirracista no futebol.

O Observatório da Discriminação Racial no Futebol, comandado pelo diretor Marcelo Carvalho, faz um dos trabalhos mais importantes do esporte brasileiro. Vale conhecer o site deles clicando aqui

Recomendo ainda a série de episódios O Negro no Futebol, do podcast História Preta. Quer se aprofundar ainda mais? A HBO produziu a ótima série documental O Negro no Futebol Brasileiro, baseada no livro de mesmo nome escrito por Mário Filho, e publicado originalmente em 1947.

É só conhecendo a história que entendemos por que casos como o de Celsinho acontecem até hoje e como combater a violência racial dentro e fora das quatro linhas.

POSICIONAMENTO DOS PATROCINADORES DO BRUSQUE:

Lojas Havan

Sobre o episódio envolvendo o jogador Celsinho, do Londrina e o Brusque Futebol Clube, a Havan enfatiza que repudia veementemente qualquer forma de discriminação e está aguardando os desdobramentos do caso. A varejista também informa que manterá o patrocínio ao clube, visto que mais de 30 jogadores, além da comissão técnica e demais colaboradores dependem dos seus salários, advindos do trabalho prestado ao Brusque FC, para garantir o sustento das suas famílias e acreditamos que seria injusto prejudicá-los.

Embrast / Bompack

A Embrast vem a público manifestar em relação ao ocorrido durante o jogo realizado no último dia (28/08) entre Brusque FC e Londrina.

Cabe registrar que a Embrast não compactua com qualquer tipo de falta de respeito, discriminação ou violação de direitos. O ocorrido será devidamente apurado e a Embrast tomará as medidas cabíveis.

Nós da Embrast, acreditamos que o esporte é uma junção de fraternidade e respeito mutuo, tanto por parte do torcedor quanto dos jogadores, acreditamos em uma sociedade igualitária, e nunca deixaremos de combater ações que violem nossos princípios e valores.


O espaço segue aberto para as demais empresas patrocinadoras do clube.


*João Abel é editor do Drops, no Instagram do Estadão, autor de ‘Bicha’ e coautor de ‘O Contra-Ataque’. Escreve às quartas-feiras.

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