Buenos Aires se consola com derrota brasileira

Fazendo jus ao apelido que ostentou durante décadas, a ?Paris da América do Sul?, Buenos Aires, celebrou neste sábado a vitória francesa e saboreou a derrota brasileira. A jornada causou dupla satisfação entre os portenhos, já que em poucas horas, no mesmo dia, viram a remoção de seus dois maiores rivais: o Brasil (inimigo por questões esportivas) e a Inglaterra (rival pela disputa das ilhas Malvinas). Fora da Copa desde a sexta-feira, os fanáticos argentinos consolaram-se com as duas derrotas alheias. A duzentos metros do Obelisco, em pleno centro portenho, em três cafés pesquisados pelo Portal do Estadão no primeiro tempo, os argentinos que assistiam o jogo declaravam que deixavam de lado temporariamente a ?solidariedade? sul-americana para respaldar a seleção francesa. ?Hoje estou mais para Edith Piaf do que para Tom Jobim?, brincou Héctor Zanardi, professor de sociologia, que via o embate acompanhado da namorada, que também declarou sua preferência ?circunstancial? pelo time francês. ?Mon Dieu!? (Meu Deus!) foi a expressão, no original em francês, repetida à exaustão com tom irônico pelos locutores argentinos que transmitiam o jogo pelo canal TyC. Segundo os comentaristas do único canal na Argentina que transmitiu o jogo, ?os brasileiros não jogaram bem em toda a Copa, e vão embora desta forma?. Além disso, definiram como ?fato histórico? que pela primeira vez em muitos anos ?o Brasil seja eliminado em uma Copa nas quartas de final?. Os locutores também destacaram que ?há tempos que o Brasil não levava um baile desses? e que ?a França estava boa demais, para ser aplaudida em pé?. A imprensa argentina aproveitou para revidar as ironias disparadas na véspera do lado brasileiro da fronteira, quando a seleção deste país foi desclassificada. O jornal econômico Infobae disparou: ?Tristeza não tem fim: o Brasil despediu-se cedo da Copa?. O jornal esportivo Olé, de tradicionais posições anti-brasileiras, festejou o resultado, recordando que o time francês havia sido considerado ?velho?: ?Velhos são os trapos!?. O Olé foi sarcástico com o Brasil: ?E pensar que pediam a aposentadoria de Zidane...Ainda bem. Deu uma lição de futebol e o time de Domenech eliminou o pentacampeão, que foi uma sombra?. Segundo o Olé, o jogo dos franceses ?surpreendeu o Brasil, que não tinha a bola, não dominava, e sem dúvida, estava incômodo?. O tradicional e sóbrio La Nación usou - no original em português - a expressão que sempre havia sido aplicada ao Brasil, para elogiar a seleção gaulesa: ?Eliminados - a França mostrou o jogo bonito?. Segundo o La Nación, as estrelas brasileiras ?brilharam por sua ausência?. Além disso, categorizou: ?o Brasil deu adeus à Copa com um pobre rendimento de suas figuras?. O Clarín não poupou o time de Parreira: ?França deu o golpe e eliminou o Brasil?. Segundo o principal jornal da Argentina, os jogadores brasileiros ?mostraram um perfil desconhecido e não puderam jogar em momento algum?. Portugal Os argentinos, habitantes de um país colonizado por espanhóis, sem vínculo cultural algum com os portugueses, tornaram-se neste sábado, pela primeira vez em uma Copa, em fanáticos torcedores da seleção da terra de Camões. O apoio aos portugueses era circunstancial, já que os argentinos sonhavam com a desclassificação da Inglaterra. Desde 1982, a Inglaterra tornou-se o maior rival da Argentina no campo futebolístico por questões mais geopolíticas do que esportivas. Os argentinos não perdoam a Inglaterra por ter derrotado a Argentina na Guerra das Malvinas, em 1982. Desde então, a Inglaterra reforçou seu domínio sobre esse gélido arquipélago, constantemente reivindicado pela Argentina, que a considera parte de seu território nacional. Na Copa de 2002, com a Argentina desclassificada, os argentinos preferiram torcer pelo Brasil no jogo contra a Inglaterra.

Agencia Estado,

01 Julho 2006 | 19h07

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