Glauco de Pierri
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Bunker da Guerra Fria vira atração turística e é ‘atacado’ por brasileiros

Construção de abrigo antinuclear soviético foi ordenada por Stalin logo após os EUA terem lanças bombas atômicas no Japão

Glauco de Pierri, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

29 Junho 2018 | 05h00

“Meu deus, isso é uma fila? Cadê o começo? E onde é o fim?” Foi assim, em um inglês britânico inconfundível, que um senhor vestido elegantemente com sapatos, calça social e camisa apareceu, às 14h23, para conhecer o Bunker 42, um abrigo antinuclear soviético que fica no coração de Moscou, em visita que começava às 14h30. Ele só não contava com uma coisa - a invasão do “exército” brasileiro ao local um dia depois de a seleção ter jogado na cidade e vencido a Sérvia por 2 a 0.

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A entrada do Bunker 42 é discreta. Nesta quinta-feira, 28, ela lembrava muito mais um dos acessos ao Maracanã em dia de clássico. A reportagem do Estado tinha “passagem” reservada três dias antes, por telefone, para a excursão das 15h30. Atrasou. Por causa da fila e do mar de gente com camisa do Brasil, começou às 16h40. Em meio aos gritos de um ou outro estrangeiro, que engrossava a voz à toa (“excuse-me” ou “pajalusta” - o nosso por favor em inglês e em russo), a maioria vestia camisas do Brasil, ou da seleção brasileira, ou de times brasileiros. Cada visitante pagou 2.220 rublos para conhecer o local (R$ 135), que fica perto da Estação Taganskaya do metrô de Moscou.

Andréa Cabral e a mãe, Vilma, visitaram o museu junto com a turma do Brasil. “Está bem cheio hoje, mas não tem problema. Isso é uma aula de história”, comentou dona Vilma. “Copa é assim, cheio de gente. Fica mais divertido, parece o Brasil”, brincou Andréa.

O local é uma instalação subterrânea cuja construção foi ordenada pelo ditador Joseph Stalin logo após os EUA terem lançado duas bombas atômicas nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, em 1945, durante a Segunda Guerra Mundial. Lá, os principais líderes da URSS sobreviveriam aos possíveis ataques. E foi lá que, segundo o guia, passaram a se organizar militarmente, a partir de 1955, em um dos quartéis-generais soviéticos da Guerra Fria.

 

Já dentro do bunker, a excursão brasileira começou a descida para 18 andares debaixo da terra (65 metros) em uma escada estreita e escura. O lugar tem mesmo um jeitão de esconderijo militar. A entrada parece cena de filme, e deve ser mesmo, afinal, o bunker é utilizado pela indústria cinematográfica em tramas de guerra da época.

Na entrada, o guia russo explica que, se um inimigo tentasse invadir o bunker, ele seria morto na primeira barreira, onde ficava um agente da KGB, a agência de espionagem russa. 

Na sequência da visita, a turma do funil, quer dizer, do Brasil passou por dormitórios até a chegada em um hall, onde dois bonecos trajados com uniformes de guerra soviéticos faziam a “guarda”. Nesse trecho, o local lembra as estações do metrô e não é por acaso. Foram os operários que construíram o sistema de transporte por trilhos de Moscou os responsáveis por deixar o bunker pronto o mais rápido possível. Como as linhas já estavam criadas, eles precisaram de muita precisão. Em todo o passeio, é possível ouvir e sentir as trepidações na terra por causa do vai e vem dos trens da capital russa.

A sala de Stalin era aconchegante. Armários, estante para livros, mesa com um tabuleiro de xadrez, um sofá grande, mais uma mesa com telefones e mapas, muitos mapas - do mundo, da União Soviética, de Cuba, dos EUA. Stalin, que ordenou a construção do projeto, não chegou a vê-lo pronto, já que morreu antes da conclusão da obra.

A Sala da Justiça, ou das reuniões, tinha espaço para muita gente. De lá, o visitante cai no local em que os soviéticos, ou os russos, “guardam” uma réplica da bomba atômica desenvolvida por eles próprios, além de outros itens de guerra.

A excursão continua com a chegada à sala “proibida” - o único lugar em que não se pode tirar fotos (menos para a turma do fundão, que saiu clicando com os celulares).

O local conta com centenas de equipamentos de espionagem, rádios, máquinas de escrever, telégrafos e enormes equipamentos com milhares de botões. A justificativa do guia para proibir as fotos? “Apesar de antigos, esses equipamentos não podem ser decifrados pelos inimigos. É um dos nossos segredos”, disse, fazendo cara de “russo”. 

De lá, o visitante volta. No meio do corredor principal, tudo fica escuro, com apenas as luzes de emergência acesas. É tenso. No breu, o alarme de bomba nuclear começa a tocar alto, numa simulação de ataque bem divertida e que dá um ar soviético do passado ao passeio, mas que logo desaparece. Antes da saída, há uma lojinha, que vende tudo o que se pode imaginar relacionado ao antigo esconderijo da URSS. Foi construída em uma das reformas.

 

 

 

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