Fabrice Coffrini/AFP
Fabrice Coffrini/AFP

Buscando novas receitas, Fifa está considerando uma importante mudança para os EUA

O órgão regulador do futebol mundial está pensando seriamente em realocar seus negócios comerciais multibilionários

Tariq Panja, The New York Times

06 de outubro de 2021 | 15h00

Buscando expandir sua presença global para além de sua sede enclausurada perto de um zoológico nos arredores de Zurique, o órgão regulador do futebol, a Fifa, está estudando a possibilidade de mudar seu motor financeiro, a operação comercial que produz bilhões de dólares em receitas para a organização, para os Estados Unidos.

A possível mudança será determinada por fatores técnicos, incluindo a adequação da localização nas duas costas, a facilidade de obtenção de vistos de trabalho para funcionários no exterior e regras fiscais, de acordo com um funcionário com conhecimento direto das discussões que se recusou a falar publicamente, pois uma decisão final ainda tinha que ser tomada. As operações envolvidas representam uma parte vital dos negócios da Fifa: elas supervisionam a venda de patrocínios e direitos de transmissão da Fifa, que representam algumas das propriedades mais lucrativas nos esportes globais.

Desde a eleição de Gianni Infantino como presidente em 2016, a Fifa está procurando expandir sua presença para além de sua sede de vidro e aço no lado leste de Zurique. Ela já abriu um escritório em Paris, onde a maior parte de sua equipe envolvida no desenvolvimento e nas relações com suas 211 associações filiadas ficará eventualmente sediada.

As autoridades da Fifa esperam que, a mudança de seus negócios comerciais para uma grande cidade americana vai ajudá-la a atrair e manter membros-chave da equipe, existe a preocupação de que sua sede atual tem sido uma barreira para atrair talentos. As regras locais exigem que a Fifa empregue um número fixo de funcionários suíços.

O interesse da Fifa em se dissociar de Zurique é também - em parte - um esforço para melhorar sua reputação e afrouxar os laços com seu passado recente tumultuado na Suíça, o país que tem sido seu lar desde 1932.

Diversos membros do conselho executivo da Fifa foram presos em Zurique em 2015, como parte de uma grande investigação do Departamento de Justiça americano que revelou práticas de corrupção em andamento há pelo menos duas décadas. Esse escândalo levou à queda do presidente de longa data da Fifa, Sepp Blatter, e da maioria dos líderes mais importantes da organização.

Uma mudança para os Estados Unidos teria sido impensável para a Fifa logo após as prisões, já que colocaria os funcionários da organização, as operações e as contas financeiras ao alcance das autoridades americanas. (Alguns ex-executivos da Fifa, possivelmente com medo da prisão, não puseram os pés nos Estados Unidos desde o escândalo.) Mas continuar na Suíça agora também traz problemas.

Infantino, que substituiu Blatter como presidente da Fifa um ano após as rusgas, enfrentou um ano de investigações sobre seu relacionamento com Michael Lauber, o ex-procurador geral da Suíça. Lauber, que teve que deixar o cargo após revelações de que tinha encontros privados com Infantino, era responsável pelas investigações suíças decorrentes da acusação americana. Essas investigações geraram poucas acusações.

O fracasso das autoridades suíças na condução do caso de corrupção frustrou integrantes da atual liderança da Fifa, que privadamente expressaram incredulidade pela inação diante do número de evidências obtidas nas buscas na sede da Fifa. Ao mesmo tempo, a investigação sobre Infantino levou a uma resposta furiosa, com o secretário geral adjunto classificando-a como “um pouco grotesca e injusta".

O esforço da Fifa em mudar parte de suas operações para longe de Zurique é visto por insiders como uma medida necessária para uma organização que busca modificar métodos de trabalho que remontam a várias décadas passadas. A decisão de se mudar para Paris, por exemplo, ofereceu aos funcionários de seus departamentos de desenvolvimento e filiações um acesso mais fácil à África, uma região sobre a qual a Fifa assumiu o controle total após um outro escândalo de corrupção envolvendo o presidente do órgão regional no continente.

“Nosso objetivo de fazer do futebol algo realmente global também significa que a própria Fifa precisa ter uma configuração organizacional mais equilibrada e global,” disse Infantino quando o escritório de Paris abriu em junho.

A mudança para os Estados Unidos daria à Fifa a oportunidade de desenvolver suas operações comerciais em um país que, segundo seus funcionários, ainda não abraçou o futebol em um nível que corresponda ao lugar que o esporte ocupa em outras partes do mundo. O momento também permitiria à Fifa exercer um controle maior sobre os preparativos para a Copa do Mundo de 2026, a primeira edição ampliada da Copa; ela será co-organizada pelos Estados Unidos, México e Canadá.

Mas estar perto de Wall Street e das principais empresas americanas, alguns altos funcionários da Fifa acreditam, também traria a oportunidade de aumentar significativamente as receitas e também encontrar parceiros para financiar novos eventos e investir na crescente popularidade do futebol feminino.

Além de aproveitar as potenciais oportunidades comerciais disponíveis na maior economia do mundo, ter a sede nos Estados Unidos também traria à Fifa outra oportunidade para mostrar que ela superou seu passado cheio de escândalos.

A Fifa tem tentado nos últimos anos consertar sua relação com o governo dos EUA, e seus funcionários têm mantido contato regular com o Departamento de Justiça, que continua sua investigação sobre a corrupção no futebol mundial. Alguns dos frutos dessa melhoria nas relações ficaram claros no mês passado, quando a Fifa e suas duas confederações regionais mais implicadas no escândalo de 2015 foram autorizadas a receber mais de US $200 milhões recuperados de empresas e indivíduos. O Departamento de Justiça disse que o dinheiro teria que ser administrado pela Fifa. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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