Bye Bye Brasil

Nunca houve tão grande disposição de jogadores para sair do País

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

14 Janeiro 2018 | 04h00

De vez em quando o título do famoso filme de Carlos Diegues me vem à cabeça. É aplicável de acordo com as circunstâncias e com as vicissitudes do momento que eventualmente o País atravessa. Pode ter tido um sentido quando o filme foi lançado, há mais de 30 anos, mas foi adquirindo ao longo do tempo feições diversas.

Bye Bye Brasil diz tudo. Evoca alguém dando adeus a algo que fica para trás, algo que se abandona, que é necessário abandonar. Bye Bye Brasil embute uma despedida tão inevitável quanto melancólica.

Nesse momento, penso nesse título e não posso deixar de ligá-lo ao futebol. Afinal, há algo de mais Brasil do que o futebol? No entanto, é nele, no futebol, que noto os sinais mais evidentes de adeus a este País. A partida como ambição maior, o deslocamento para fora, nunca se tornou tão claro como neste momento. O fim não é mais o Brasil, mas algum país distante dele.

O futuro não é mais aqui de maneira nenhuma, pelo menos para uma classe de pessoas. É em algum outro lugar. Não mais na Europa de alguns anos atrás, mas na China, na Turquia , na Eslovênia, no Vietnã, qualquer lugar. Fica claro que, para uma parte substancial da sociedade brasileira o Brasil é um dos piores países do mundo, pior talvez do que qualquer outro, mesmo os desconhecidos, mesmo os que não se sabe nem onde ficam.

O pensamento, ainda que não clara e totalmente explicitado com todas as letras, é que nada pode ser pior. Não é necessário nem uma pesquisa muito séria para avaliar que todos esses garotos que disputam a Taça São Paulo de Futebol Junior, ou algo com nome parecido, nem pensam mais em qualquer time grande brasileiro. Ao contrário, pensam no time grande como uma etapa pouco importante de suas vidas. Algo em que estarão de passagem.

Esse torneio é disputado por mais de 120 equipes. Devem ser produzidos mais de 120 vídeos, portanto, material que vai servir para que agentes, empresários e aventureiros em geral saiam por aí oferecendo pelo mundo o que resta do Brasil. Os grandes clubes também participam disso, e suas bases hoje são “viveiros” que servem mais para fazer algum trocado do que para reforçar seus combalidos times principais.

E não são apenas os garotos que veem o Brasil como um caminho para o aeroporto mais próximo. Nunca houve tão grande disposição de jogadores, já com nome e carreira feita, para sair. O prestígio de um grande time, os títulos, a torcida, tudo isso não vale mais nada. Todos os grandes clubes de São Paulo acabam de perder jogadores. E partem muito satisfeitos, nem um deles levantou um dedo, ou sequer pensou em ficar por aqui. Quem ficou no Brasil não ficou por causa da grandeza do clube, mas na esperança, última talvez, de ser lembrado por Tite para ir à Rússia e, portanto, ao exterior.

Há jogadores implorando para que algum clube no mundo se lembre deles, caso de Scarpa do Fluminense que até agora não recebeu proposta nenhuma e, inconformado, não se decide sobre o que fazer.

A própria torcida acompanha as mudanças de cabeça baixa. Quando a torcida do Flamengo pedia a Rueda – outro, aliás, que tratou o clube da maneira mais deselegante – desesperadamente que botasse em campo Vinicius Junior, 16 anos e já vendido ao Real Madrid, era uma forma de pedir pelo amor de Deus que lhe fosse permitido poder vê-lo um pouco mais aqui perto, ao vivo, no Maracanã, vestido com a camisa que foi de Evaristo, Zico, Adriano. 

É esse clima de resignação profunda o mais grave. Estamos nos acostumando a rebaixamentos. Desde os mais visíveis, como os partem da Standard and Poor, até os pouco noticiados, como a partida de algum anônimo garoto cujo nome só se vai saber um dia. Bye bye Brasil.

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