Cabralzinho ataca diretoria do Santos

O fato de já estar em plena atividade no comando do Figueirense-SC, clube que assumiu na última quarta-feira, não foi suficiente para Cabralzinho esquecer os problemas que teve em sua última passagem pelo Santos. Ele faz questão de ressaltar que não foi mandado embora da Vila Belmiro. "Simplesmente não tive meu contrato renovado." Para o treinador, isso ocorreu por diversos fatores. No entanto, o que mais se destaca é a forma arcaica como a diretoria administra o clube."São pessoas despreparadas, que não existem só no Santos, mas acho que em qualquer grande clube. Porém, no caso do Santos, é importante que as pessoas parem de viver do passado, daquele time maravilhoso que encantou o mundo, e ponham os pés no chão para uma nova realidade", atacou Cabralzinho.Com a experiência de quem já dirigiu a equipe da Vila Belmiro por três vezes e até chegou ao vice-campeonato brasileiro em 95, Cabralzinho se aventura na difícil missão de apontar os problemas que mantêm o Santos em uma fila de títulos que já chega a 18 anos. "Eu estava em um clube no qual havia uma grande rejeição ao modernismo", explicou o treinador. "Ora, estamos no século 21 e as pessoas ainda não entenderam que é preciso mudar para sobreviver." Diante disso tudo, Cabralzinho demonstra otimismo com seu novo desafio. Mesmo tendo em mãos um time modesto, mas que espera surpreender nesta temporada, sobretudo depois de ter conquistado uma vaga na primeira divisão do Campeonato Brasileiro, o técnico aposta suas fichas exatamente numa nova forma de encarar o futebol."Aqui no Figueirense os dirigentes não têm esses ranço, esses vícios que encontramos na maioria dos clubes", afirmou. "Isso, somado a uma infra-estrutura que está sendo montada, pode dar condições de a equipe evoluir bastante nos próximos anos." Agência Estado - Dos quatro grandes clubes paulistas, apenas o São Paulo manteve o treinador (Nelsinho Baptista) que terminou o Campeonato Brasileiro. Você acredita que essa forma de tratamento dos técnicos um dia pode mudar no País? Cabralzinho - É difícil dizer. Nós trabalhamos com dirigentes amadores. Só para você ter uma idéia, me disseram que o presidente do Santos (Marcelo Teixeira), ao apresentar o Celso Roth como novo treinador, disse que ele era o sétimo da sua gestão e que, como esse era o seu número de sorte, o trabalho tinha tudo para ser bom. Com esse tipo de mentalidade fica complicado até argumentar. AE - Por falar no Santos, a forma como você saiu te surpreendeu? Parece que o Marcelo Teixeira não demonstrou boa vontade em resolver o caso.Cabralzinho - Eu não fui demitido. Simplesmente não tive meu contrato renovado. Mas isso deixa claro a mentalidade antiga desses indivíduos. O que surpreendeu, mas a mim nem tanto, é que, nos grandes clubes, existem pessoas que pararam no tempo há 40 anos e são assessores do presidente, têm mais poder do que o técnico. Por isso ficamos diante dessa metodologia retrógrada, quadrada, que ainda acha que somos os melhores do mundo no futebol. AE - Você passou alguns anos trabalhando fora do Brasil. O tratamento dos treinadores é diferente lá fora? Cabralzinho - Não tenha dúvida disso. É claro que existe a cobrança, mas também existe o respeito. O técnico de futebol é avaliado pelo trabalho realizado e não apenas pelo resultado da equipe dentro do campo. É o caso do Parreira. Só no Brasil um treinador que comandou a seleção na conquista de uma Copa do Mundo é encarado dessa forma. Tem gente que pensa da seguinte forma: ah, fulano nunca dirigiu um Corinthians ou um Palmeiras, então não tem condição de chegar à seleção. Outros falam que o Parreira não tem a cara do Corinthians. Isso é absurdo.AE - Fale um pouco sobre o Figueirense. O que te fez aceitar a proposta dos catarinenses e sair de São Paulo, que é o principal centro do futebol brasileiro? Cabralzinho - Em primeiro lugar, depois que deixei o Santos, só recebi uma proposta de clube paulista. Foi do Botafogo de Ribeirão Preto. Em segundo lugar, no Figueirense existe uma filosofia de trabalho. Aqui os dirigentes não têm essa mentalidade atrasada, esses vícios de memória. Tudo é novo. A proposta é investir na renovação, nas categorias de base. Essa filosofia, por exemplo, não encontrei no Santos. AE - Apostar no novo? Quer dizer que aquela idéia da diretoria de trazer o Edmundo, como surgiu alguns meses atrás, está afastada? Cabralzinho - Não tenha dúvida. Aquilo foi uma reação de momento, baseada na empolgação. Claro que essas ações de marketing fazem parte do futebol. Só para te dar um exemplo, quando estava no São José, acho que em 1997, tentaram contratar o Edmundo. Mas isso atrai torcida para dois ou três jogos, depois ninguém mais dá bola.

Agencia Estado,

13 de janeiro de 2002 | 19h04

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