Cabralzinho: o técnico das arábias

O técnico Carlos Roberto Ferreira Cabral, o Cabralzinho, está no futebol egípcio desde o fim de novembro, comandando o Zamalek, time onde fez história em 2003, conquistando quatro títulos em uma única temporada. Não teve para ninguém. Mas mesmo do Cairo, onde mora, Cabralzinho acompanhou com atenção a decisão do Brasileirão, encerrada ontem.O simples fato de o Santos viver durante a semana a euforia de conquistar mais um título foi motivo de muita alegria para o treinador de 59 anos (completa 60 no próximo dia 2). Pudera. Cabralzinho já esteve atrás desta taça, quando comandou o Santos em 1995. O Peixe ficou com o segundo lugar, depois de uma final polêmica contra o Botafogo. Quem não se lembra? O árbitro Márcio Rezende de Freitas teria sido decisivo."O Santos foi um clube importante para mim. Foi onde eu surgi como jogador e onde tive a honra de atuar ao lado de craques. Depois, dirigi o time por três oportunidades. Na segunda vez, quase ganhamos o título brasileiro", relembra Cabralzinho.Como jogador, foi contemporâneo de Pelé. Para seu "azar". Cabralzinho ficou conhecido como o eterno reserva do principal ídolo do Santos. "Azar nada. Foi um privilégio jogar com ele e todos aqueles craques que o Santos tinha", diz.A decisão do Brasileiro de 95 foi marcante. "Ninguém esperava que o Santos chegasse onde chegou. Nosso time não tinha grandes estrelas. Não contratamos ninguém. Começamos um trabalho e o time o foi assimilando, até a final. Conseguimos um conjunto", relembrou.O problema do Santos, contou Cabralzinho, era fora do campo. "Naquela época, o Pelé era vice-presidente do clube e estava brigado com a CBF. Imagina se o Pelé, vice-presidente do Santos, conquista um título? Ninguém da CBF queria isso. Por conta disso, nós fomos prejudicados pelas arbitragens."Hoje, nove anos depois daquela decisão, Cabralzinho lembra com detalhes os lances que marcaram a derrota santista. "Dizem que o primeiro gol Botafogo (do Túlio) foi impedido, mas o nosso gol de empate também foi meio irregular. O Capixaba tocou a bola com a mão. Ela sobrou para o Marcelo Passos. Então, os dois gols deveriam ter sido anulados. Agora, o gol legítimo que fez o atacante Camanducaia, de cabeça, o Márcio anulou. Seria o gol do título, da festa."Apesar da excelente campanha de 95, Cabralzinho não se firmou como técnico de ponta no Brasil. Em 97, começou a atuar no futebol árabe. É o seu 12º ano na profissão. Cabralzinho deixou claro que o Oriente Médio é uma opção forçada: "No Brasil, nos meus últimos quatro clubes, tive de acionar a Justiça para receber. Isso me marcou muito. Também não tenho empresários. Ao passo que, no Exterior, tenho um ótimo reconhecimento", diz."Fiquei um ano desempregado no Brasil. É um absurdo um técnico com meu currículo não ser lembrado por nenhuma equipe. Enquanto isso, clubes do Exterior me convidavam. Decidi voltar ao Egito, onde tive uma boa passagem no Zamalek. Fui o primeiro técnico estrangeiro que retornou ao futebol egípcio, um feito para poucos na categoria. Pena que isso não traga reconhecimento no meu País", lamenta Cabralzinho.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.