Cada um na sua

Corinthians acabou com o mico na mão com Alexandre Pato

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

22 de julho de 2016 | 05h00

Futebol precisa ter emoção e ídolos. Sem uma e sem outro, não há graça, um vazio só. Está aí o exemplo da torcida do Flamengo, que fez algazarra enorme com a chegada do Diego, muito bom jogador, rodado (31 anos), mas que passou a maior parte da carreira no exterior, depois de início promissor no Santos. O moço foi recebido no aeroporto por uma multidão, animada como se tivesse ido receber o Messi ou o Cristiano Ronaldo. Maldade podar a alegria popular.

Mas há situações em que não se pode enganar o público nem criar falsas expectativas. Caso do Pato. Durante a semana o noticiário do Corinthians girou em torno da possibilidade de ele reestrear, quem sabe neste sábado, diante do Figueirense. Assunto tratado como notícia espetacular, quase um prêmio para a Fiel. Como se fosse isso que se aguardava há tempos.

Só para lembrar: o rapaz revelou-se o maior furo n'água do Corinthians nos últimos tempos. O clube investiu R$ 40 milhões, três anos atrás, para repatriá-lo, o que provocou intenso alívio no Milan, que não sabia o que fazer com ele. Pato não vingou no Parque São Jorge, ficou um ano e meio emprestado ao São Paulo e, mais recentemente, tentou a sorte no Chelsea. Sem sucesso.

Sem alternativas no mercado doméstico ou internacional, teve de reapresentar-se ao Corinthians, com o qual mantém vínculo até o final de 2016. A partir de janeiro, estará livre para cuidar da vida onde bem entender, sem que o clube receba um tostão. Dinheiro que a cartolagem alvinegra dá como perdido – e não é de agora.

A decepção com Pato jamais foi escamoteada. No ano passado, o ex-presidente Andrés Sanchez afirmava que, ao encerrar-se o acordo com tricolores, mandaria Pato para qualquer lugar, até para o Bragantino, se fosse o caso. Certeza, então, uma: não vestiria de novo a camisa corintiana. A opção, na época, foi a Inglaterra. Se ocorresse o milagre de ser aceito no Chelsea, voltariam para os cofres umas quirelas.

No início do mês, Roberto Andrade reconheceu que, feitas as contas, se tratou de um péssimo negócio o investimento de 2013. Ok, acontece, é da vida. Às vezes, contrata-se um atleta por uma ninharia e ele vira sensação. Em outras, recorre-se a sujeito com nome e, na prática, sai tudo errado. Damião no Santos é outro episódio exemplar – e bem parecido com o do Pato. O centroavante custou os olhos da cara, consumiu o pouco que se arrecadou com a saída de Neymar e foi um fiasco.

O Corinthians, como se vê, ficou com o mico na mão. Por lei, está obrigado a pagar uma nota alta com os salários de Pato. Assunta daqui, remexe dali, qual a solução para o impasse, já que o rapaz não quer ir embora antes do tempo? Coloque-o para treinar e, dentro do possível, para jogar. Fazer o quê? O elenco encolheu, o ataque virou um calcanhar de Aquiles. Tente-se a cartada final, e que Cristóvão Borges encontre um jeito de encaixá-lo.

Essa é a situação. O Corinthians vai se consolar se, nestes cinco meses, Pato for útil de alguma maneira. Se marcar um punhado de gols, se ajudar na conquista do título ou em vaga para a Libertadores, terá a saideira honrosa, diminuirá a sensação de fracasso. Não duvido, até, que os torcedores gritem seu nome. Depois, cada um para seu lado, mas a dúvida persistirá: "Por que não jogou assim enquanto teve chances?"

Não se deve vender a ideia de Pato como "reforço". Se o clube tem estratégia de marketing para promover o retorno, ok; está no direito dele. A imprensa não precisa agir como parceira e esquecer o senso crítico. E senso crítico significa também aplaudir e elogiar Pato, se vier a merecer.

Não ao medo. Na crônica de quarta, escrevi que autoridades brasileiras não dormiriam de touca no que se refere à segurança nos Jogos. A prisão de um grupo supostamente ligado ao terror é prova de vigilância. Ao expô-lo, o governo pretendeu tranquilizar a opinião pública internacional de que está atento.

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