Tony Gentile/Reuters
Tony Gentile/Reuters

Cadê a Copa? Sem a Azzurra, Itália silencia e prefere ignorar torneio

Com seleção fora do Mundial pela terceira vez na história, pouco se vê ou se ouve sobre os jogos na Rússia

Edison Veiga, especial para o Estado / Milão, O Estado de S.Paulo

24 Junho 2018 | 05h00

Noite de domingo na Itália. Logo após o decepcionante empate entre Brasil e Suíça, em uma rodada na qual Messi já havia perdido pênalti (e a Argentina empatado com a Islândia), México vencido a Alemanha (e causado um miniterremoto na Cidade do México) e Portugal e Espanha empatado entre si, o apresentador de TV Nicola Savino não teve dúvidas em soltar a piada. “No Mundial das decepções, a Itália saiu na frente”, disse, à frente do programa Balalaika - Dalla Russia Col Pallone

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É a terceira vez que a tetracampeã e duas vezes vice Squadra Azzurra fica fora de uma Copa. Em 1930, primeira edição, a seleção italiana optou por não participar. Seis décadas atrás, em 1958, a exemplo desta, não conseguiu se classificar. 

Piadas à parte, nas ruas da Itália pouco se vê ou se ouve sobre a Copa da Rússia. Como se trata de um país apaixonado por futebol e dono de uma das camisas mais pesadas do torneio, a atmosfera se aproxima de um velório. No dia da abertura, por exemplo, os sites dos dois maiores jornais italianos não destacavam nenhuma notícia sobre o campeonato - do mundo esportivo, as chamadas eram sobre contratações do mercado da bola na intertemporada europeia por causa da Copa do Mundo. 

Para assistir ao jogo de abertura, entre Rússia e Arábia Saudita, a reportagem procurou uma cervejaria na província de Milão - daquelas que ostentam diversos televisores e telões pelo ambiente e exibem futebol o tempo todo. Apesar de a cerimônia ter se iniciado às 16h30 e a partida às 17h (horários locais), a unidade de Paderno Dugnano de La Birreria Italiana só abriu às 17h30. E, durante todo o jogo, a única mesa ocupada era a nossa. 

 

Os italianos pareciam não estar mesmo se importando com um Mundial sem a Itália. “Estamos tristes, mas não excessivamente. Sabemos que não nos classificamos porque não temos um bom time”, comenta o empresário Michele Galella, de 78 anos, um fã de futebol, proprietário de uma escola infantil em Senago, na Lombardia. “Em outros tempos, quando a situação do país não era boa, o futebol era um refúgio, uma distração, porque não havia outras satisfações. Hoje, depois de tantos anos, podemos ficar como se estivéssemos apoiados na janela, observando como espectadores o Mundial da Rússia.”

Pela primeira vez na história, a Copa não é transmitida pela estatal RAI na Itália. Em dezembro, com a Nazionale desclassificada, o grupo Mediaset fechou a exclusividade da transmissão.

TORCIDA

E, na falta de um escrete para chamar de seu, por quem torcem os italianos? Tão logo foi confirmada a ausência da equipe, o jornal italiano Corriere della Sera fez uma sondagem para descobrir quais seriam as segundas opções favoritas no país do Calcio. A Argentina liderou o ânimo dos “tifosi” (fãs). Entre as justificativas, Lionel Messi, “que merece ganhar o Mundial”, e a presença de craques que jogam no futebol italiano (Dybala e Higuaín, na Juvetus; Biglia, no Milan; Fazio, na Roma; Ansaldi, no Torino).

O coração italiano também bate pela Islândia, seleção que tem tudo para sair como queridinha deste Mundial. O motivo? Bom, sempre que se mescla ineditismo com fama de azarão ganha-se simpatia. Foi ainda muito citada a Alemanha - por pragmatismo, afinal, houve o 7 a 1 contra o Brasil e são os atuais campeões mundiais.

A Suíça foi outra lembrada. Isso porque os italianos do norte gozam de proximidade histórica, geográfica e cultural com esses vizinhos. Além do fato de que torcedores da Lazio nutrem um carinho imenso pelo técnico Vlado Petkovic - principalmente pelo título da Copa Itália 2012-2013.

A seleção brasileira não ficou fora dessa sondagem - apesar da rivalidade histórica, o Brasil foi campeão nas duas vezes em que a Itália foi vice, em 1970 e 1994. Os argumentos para justificar essa preferência foram os de exaltar a história do “futebol-arte”, com direito a citações de ídolos do passado, como Pelé, Garrincha e Zico. Alguns ainda lembraram que o técnico Tite, cujo nome é Adenor Leonardo Bachi, tem origem italiana - sua família é da cidade de Mantova, na Lombardia.

Diretor de compras de uma empresa em Solaro, perto de Milão, Denny Tria, de 34 anos, vestiu a amarelinha com orgulho no jogo contra a Suíça. E promete seguir assim até o fim do Mundial. No caso dele, a escolha pela seleção brasileira é natural. “Porque é minha segunda família”, diz o italiano, casado com uma arquiteta brasileira e, por isso, viaja ao Brasil uma vez por ano.

“Simpatizo pelo Brasil porque um de meus jogadores favoritos na atualidade é Marcelo”, afirma o estudante de ciências sociais da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, Gabriele Calista, de 20 anos, citando o lateral-esquerdo da seleção, jogador do espanhol Real Madrid. 

Morador da cidade de Milão, o empreendedor Lorenzo Fasano, de 58 anos, está acompanhando o Mundial porque gosta “de bons jogos”. É outro que também torce pelo Brasil. “Morei alguns anos em São Paulo, então um pedaço do meu coração também é verde e amarelo”, afirma. Fasano reconhece que o clima está esquisito na Itália. “Nem se compara com as edições passadas. Nós, italianos, gostamos muito de futebol, então estamos tristes com a ausência.” Tria concorda: para ele, as ruas estão sem “aquela magia de outras Copas do Mundo”.

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Nós, italianos, gostamos muito de futebol e estamos tristes com a ausência.
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Lorenzo Fasano, empreendedor

Boa parte dos milaneses não está nem acompanhando os resultados. É o caso da arquiteta Flavia Sensale, de 27 anos - apesar de alheia, ela diz gostar do Brasil, mas não sabemos se é por sinceridade ou para expressar simpatia à reportagem. O arquiteto Claudio Fusina, de 45 anos, também prefere nem ligar a TV na hora dos jogos. O designer Luca Mantovanelli, de 25 anos, até está acompanhando, achou interessante a Islândia - mas não torce para ninguém. 

O empresário Galella, por sua vez, diz que, com a falta da Itália, o natural é torcer, jogo a jogo, sempre para “o time mais fraco”. E reconhece que, pelo menos, está se divertindo ao assistir a bons jogos - como os 3 a 3 entre Portugal e Espanha. 

Estudante da Universidade Livre de Bolzano, Lorenzo Teso, de 25 anos, decidiu torcer pela Inglaterra. “Porque é uma seleção que, apesar de ser muito forte nos últimos anos, ainda não conseguiu um resultado importante”, explica. Teso admite, contudo, sentir falta da Itália no Mundial. “Ver o time na Copa é uma ocasião para encontrar os amigos, assistir aos jogos, sofrer e torcer juntos.”

 

 

 

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