Fabio Motta/Estadão
Flamengo e Corinthians, clubes de maior torcida no Brasil, são patrocinados pela Caixa Fabio Motta/Estadão

CAIXA AUMENTA ATUAÇÃO NO FUTEBOL NOS ÚLTIMOS ANOS

Banco estatal tem acordo com dez clubes e negocia com mais três

Almir Leite, O Estado de S. Paulo

23 de janeiro de 2016 | 17h00

A política agressiva de patrocínios adotada pela Caixa Econômica Federal nos últimos anos no futebol brasileiro é uma iniciativa única em nível mundial quando se trata de bancos públicos. Nos países mais desenvolvidos, por exemplo, eles nem passam perto dos clubes, até por restrições legais. É o que ocorre na Europa, na emergente liga norte-americana e até mesmo na América do Sul. Banco estatal colocando dinheiro em clubes de futebol é situação mais comum em países em que as diretrizes governamentais prevalecem sobre as tendências de mercado, como China e Catar.

No meio da semana a Caixa anunciou seu pacote de patrocínio aos clubes brasileiros para este ano. Serão R$ 83 milhões distribuídos por dez clubes, valor que deverá aumentar porque está em curso a negociação para renovar o acordo com o Corinthians que vence no final de fevereiro (R$ 30 milhões). E Vasco e Atlético-GO ainda sonham em entrar para a turma. Além disso, haverá o desembolso de mais R$ 18 milhões em patrocínio a várias competições, como Copa Verde, Copa do Nordeste, Brasileiro das Séries B e C e competições de futebol feminino.

Voracidade assim – praticamente metade dos clubes da Série A terá o logo do banco na camisa –, vê-se atualmente somente na China. Lá dinheiro não falta, e o governo colocou em ação plano ambicioso para tornar o futebol do país uma potência. Os bancos, claro, foram "chamados" a contribuir.

Um deles, o Citic Group, está à frente do Beijing Guoan, que tirou Renato Augusto do Corinthians pagando salários de R$ 2 milhões mensais – Ralf também foi para lá. O ICBC, Industrial and Commercial Bank of China, também está a postos para colocar seus yuans no futebol.

O Citic, fundado em 1979 pelo então líder chinês Deng Xiaoping, não divulga dados sobre investimentos no futebol. Mas, segundo a revista Fortune, apresentou lucro de R$ 19 bilhões em 2014.

No Catar, sede da Copa de 2022, o Qatar FC é patrocinado pelo Qatar Nacional Bank (QNB), que tem 50% de seu capital público. É comum a equipe ter jogadores brasileiros no elenco. O treinador é Sebastião Lazaroni, que comandou a seleção brasileira na Copa de 1990.

ESTRATÉGIA

A Caixa patrocina times de futebol desde 2012, ano em que firmou seu primeiro contato com o Corinthians. Já chegou a ter sua marca exposta em 15 clubes simultaneamente. E virou-se para o esporte mais popular do País como estratégia de marketing. "Em que pese a Caixa ter grande presença em esportes olímpicos e competições amadoras há décadas, isso não dava exposição muito grande à marca. Então, entendemos que precisávamos ser mais agressivos e partimos para os times de futebol", afirma o superintendente nacional de promoções do banco, Gerson Bordignon.

Ele diz não concordar com quem condena o investimento do banco no futebol pelo fato de ser público. "É uma crítica equivocada. Quando a Caixa patrocina o futebol, eu não entendo que seja uma estatal. É um banco comercial como um outro qualquer, tem toda a gama de produtos que um banco privado tem. Precisa competir em igualdade de condições em um campo altamente competitivo como esse."

Bordignon também rebate quem vê influência política na escolha dos clubes contemplados – Atlético-MG e Cruzeiro entraram este ano no rol dos patrocinados e comenta-se que foi fruto do empenho do governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT). "Nosso foco são os grandes mercados, mercados de interesse da Caixa, clubes de grande torcida", diz, garantindo que estes são os critérios considerados.

NO SUL

Outro banco público a investir no patrocínio de clubes de futebol é o gaúcho Banrisul, que investe em Internacional e Grêmio. Segundo o mercado, o banco colocou R$ 16 milhões em cada clube no ano passado.

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Caixa investe em esporte há quatro décadas

Banco tem tradição no investimento em esportes olímpicos

Almir Leite, O Estado de S. Paulo

23 de janeiro de 2016 | 17h33

A relação da Caixa com o futebol é recente, mas com o esporte é antiga. Desde a década de 70 o banco investe em esportes amadores e olímpicos. Atualmente, está ligada ao atletismo, ginástica, lutas e ciclismo, além de 13 modalidades paralímpicas. Voltou-se para o futebol por não ter o retorno esperado em exposição da marca com as iniciativas tradicionais, mas manteve o investimento nelas.

"A Caixa tem responsabilidade com o desenvolvimento do esporte do Brasil, por isso que patrocina os esportes olímpicos e paralímpicos", diz o superintendente nacional de promoções e eventos da instituição, Gerson Bordignon. Este ano de Jogos no Rio o banco destinará R$ 40 milhões aos esportes olímpicos e R$ 32 milhões aos paralímpicos. "O maior contrato no mundo no esporte paralímpico é o da Caixa", assegura o superintendente.

Idel Halfen, executivo que já integrou a diretoria de marketing do Fluminense, considera que a Caixa tem de estar sempre voltada para o esporte olímpico, sobretudo em iniciação esportiva. Por isso, ele faz críticas à gana com que o banco ataca o futebol hoje.

Para ele, o mais indicado seria a instituição deixar o futebol para a iniciativa privada, porque sua atuação pode vir a trazer prejuízos para esse esporte.

"Eu acho que eles não deveriam colocar dinheiro público não por ser o futebol, mas, pensando a longo prazo, no que isso poderia trazer para o futebol", pondera. "Eles acabam investindo em muitos clubes que recebem uma cota maior da televisão. Você recebendo mais da televisão e ainda recebendo mais de uma empresa que está comprando mídia, faz o campeonato ser desequilibrado. Aí a tendência é que haja menos audiência e menos gente nos estádios."

Halfen, aliás, não vê a forma como a Caixa atua como relação de patrocínio. "Eles estão é comprando mídia, como tem sido a grande maioria dos acordos que ocorrem no futebol brasileiro. Patrocínio envolve a associação de uma marca com outra, e o ideal seria no longo prazo", afirma. "Aqui, pensa-se simplesmente em expor a marca e a colocar na camisa de um time."

Na opinião de Halfen, as queixas da Caixa de que o retorno nos esportes olímpicos não é o esperado é fruto do imediatismo. "Não tem retorno porque não pensam em longo prazo. Se pensar um pouco mais adiante, no esporte como agente de formação, de educação, estaria formando mais pessoas e, indiretamente, a Caixa estará ganhando", considera.

O Banco do Brasil é outra instituição pública que investe em esportes. A relação começou em 1991, com o vôlei. Atualmente, também atua em modalidades como vôlei de praia, automobilismo, judô e iatismo, entre outras. Em 2014, aportou cerca de R$ 100 milhões.

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