Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Calendário do futebol terá mudanças, mas fair play financeiro vai demorar

Atletas do Bom Senso se reúnem com cartolas na CBF para discutir reivindicações

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2013 | 08h00

SÃO PAULO - Atletas representantes do Bom Senso FC reúnem nesta segunda-feira com os dirigentes da CBF, no Rio, para nova rodada de discussões sobre as reivindicações do movimento que visa à melhoria de trabalho dos jogadores do futebol brasileiro. Entre os pontos a serem negociados, está o calendário nacional, que sofrerá mudanças em já 2014, ainda que pálidas. Outro item, porém, deverá demorar para ser atendido: o fair play financeiro. Isso porque os clubes brasileiros, de maneira geral, precisam de tempo para colocar suas finanças e compromissos em dia.

É provável que no Brasil ocorra algo similar ao que foi feito na Europa. Lá, a Uefa aprovou o fair play em 2009, mas concedeu um tempo para os clubes se adaptarem. A partir da atual temporada, quem não se enquadrou será punido se vier a falhar.A maioria dos clubes, no entanto, fez a lição. Pelo menos no Reino Unido, que tem a Inglaterra como carro-chefe quando o tema é futebol. É o que mostra estudo conjunto feito pela consultoria BDO brasileira em conjunto com a divisão inglesa da empresa. O trabalho mostra que lá, após o período de aclimatação, 85% dos clubes vão cumprir as regras do fair play financeiro (e outros 10% também esperam cumpri-las, mas para que consigam terão de fazer mudanças no modelo de gestão). Mas, para isso, 88% deles vão manter ou reduzir verbas para pagamento de salários e transferências de jogadores.

Pedro Daniel, da área de gestão esportiva da BDO, explica que a intenção da pesquisa é ter noção de como será o futebol brasileiro no futuro, sem deixar de considerar as diferenças. E ele alerta os jogadores: na questão do fair play financeiro, é preciso paciência e unir forças também com os clubes. "Vai levar no mínimo de 3 a 5 anos para os clubes de adaptarem. Se na Europa, com clubes com receita muito superiores aos brasileiros, demorou cinco anos, não vejo como fazer isso num prazo menor no Brasil'', diz Daniel.

O consultor explica que primeiro é preciso definir o conceito de fair play financeiro. "Não é só querer uma gestão mais clara dos clubes. Tem medidas que vão impactar a todos, jogadores, clubes, patrocinadores, enfim o mundo do futebol.'' Uma dessas medidas talvez não passe pela cabeça dos jogadores de equipes brasileiras: a redução dos salários em caso de queda de divisão. No Reino Unido, mostra o estudo da BDO com clubes das quatro principais divisões da Inglaterra e com a divisão principal da Escócia, 84% deles têm as chamadas cláusulas de rebaixamento. "Outra coisa: hoje, na Premier League, tem regulamentação de teto salarial, o que é impensável ainda no Brasil. Aqui, os atletas estão levando o fair play para o lado de receber em dia. Na Europa o conceito é muito mais amplo do que isso'', observa Pedro Daniel.

Outra decisão para honrar os compromissos do Fair Play: 53% dos clubes entrevistados na pesquisa vão reduzir o tamanho de seus elencos e 42% pretendem mantê-los no formato atual. Apenas 5% dos clubes demonstraram intenção de aumentar a quantidade de jogadores. Ele alerta que os altos salários praticados no futebol brasileiro também contribui para o desequilíbrio financeiro – em média os clubes têm um custo futebol de 65%, considerado alto – em 2012, o Cruzeiro teve um custo futebol de 82%; Botafogo, de 80%. "Os jogadores não podem só cobrar dos clubes salários em dia se fazem parte desse desarranjo financeiro. Eles também devem participar do fair play.''

O executivo vê poucos clubes do País com bom modelo de gestão. "O Corinthians, o Internacional, o São Paulo deu lucro nos últimos seis anos... Mas os exemplos são poucos.'' Apesar disso, há luz no fim do túnel: em 2012, 46% dos maiores clubes brasileiros tiveram superávit, de acordo com seus balanços. Ainda falta muito, mas já é um alento. O consultor constata uma diferença de filosofia entre a gestão do futebol no Brasil e a dos britânicos. "O Brasil, os clubes pensam em como vão aumentar a receita, mas esquecem que as despesas também aumentam quando se contrata grandes jogadores. No Reino Unido, eles (os clubes) estão olhando mais as despesas dos que as receitas. Esse e o foco do fair play financeiro.''Para Pedro Daniel, os clubes ingleses podem servir como exemplo para o futebol brasileiro, desde que respeitadas as diferenças: "O mercado brasileiro ainda tem muito a avançar para chegar ao patamar do mercado do Reino Unido. Aqui temos de modelar de acordo com o nosso mercado, porque o modelo europeu não se enquadra totalmente no Brasil.''

Pedro Daniel entende que os atletas estão certos em focar principalmente neste momento o calendário. Este deverá ser o principal tema do encontro desta segunda-feira que terá também a participação de representantes de clubes, árbitros, da Rede Globo, detentora dos direitos de transmissão dos campeonatos e de sindicatos ligados aos jogadores – os atletas do Bom Senso FC não se consideram representados por eles. Treinadores e executivos ligados ao futebol brasileiros também deverão se fazer representar na reunião.

AS REIVINDICAÇÕES DOS ATLETAS

1 - Mudança no calendário do futebol brasileiro

Os jogadores querem redução do número de jogos e intervalo maior entre as partidas

2 - Férias de 30 dias

A solicitação dos atletas é para que o período de férias seja ininterrupto

3 - Pré-temporada

A preparação deve ser feita em um período considerado ideal para aprimorar a forma física e técnica dos atletas

4 - Fair Play financeiro

Punições aos clubes por atraso no pagamento de salários

5 - Representatividade

Participação de atletas, técnicos e executivos nos conselhos Técnicos que definem regulamentos das competições

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