Cambistas se esbaldam no Real x Barça

Que tal pagar R$ 2.200 por uma entrada que vale R$ 120? Ou desembolsar R$ 2000 por um ingresso que custa R$ 45? Os preços são absurdos, mas é a cotação dos bilhetes para Real Madrid x Barcelona disponíveis com os cambistas. A lotação oficial, de 80 mil, está esgotada há semanas e quem se dispuser a ir ao Santiago Bernabéu a qualquer custo, na noite de sábado, terá de se submeter aos atravessadores.A praga é a mesma em qualquer parte do mundo. A abordagem é semelhante àquela que ocorre em torno do Morumbi ou do Maracanã, em vésperas de partidas de grande apelo. Os "revendas", como são chamados os cambistas na Espanha, circulam pelas calçadas do Paseo de la Castellana, das ruas Padre Damían ou Rafael Salgado à procura de fregueses. Ao menor gesto de interesse, se aproximam com a pergunta inevitável: "Quer entradas?" Se a resposta for sim, vem a proposta. "São 200 mil pesetas para uma tribuna", preço que pode oscilar para cima, se o cambista percebe que conversa com um turista. "E tem de comprar já, porque estão acabando", enfatizam, como forma de convencer o incauto.A ação dos agentes tem mão dupla. Há os que se acercam de quem se aproxima das bilheterias fechadas com outra pergunta. "Tem ingressos para vender? Pago 65 mil pesetas (ou pouco mais de R$ 70) por qualquer lugar." Os profissionais jogam com a emoção de uma partida que se disputa pouquíssimas vezes por temporada para obter lucros exorbitantes. E agem sem muito constrangimento e praticamente sob as vistas da polícia. Pior do que isso só os que se comprometem a colocar no estádio pessoas sem entradas, ao custo de R$ 30 por cabeça (crianças têm desconto). Esse grupo conta com a cumplicidade de porteiros. A Espanha, européia e desenvolvida, com alto grau de civilidade, tem manobras provincianas e grotescas de permitir evasão de renda. Ou, no caso, de lotação extra.A diretoria do Real Madrid tenta fazer a parte que lhe cabe. Nos últimos dias, tem avisado, por todos os meios, que não existem mais entradas, nem se responsabiliza pela validade de bilhetes comprados fora dos "canais normais". A advertência está até no luminoso que fica na bilheteria central, que até já colocou à venda entradas para o jogo de terça-feira, contra o Leeds, pela Liga dos Campeões. Como o time garantiu classificação por antecipação na competição européia, há boas pechinchas. A mesma tribuna que custa no oficial R$ 45 para o clássico espanhol é oferecida a R$ 30 para o confronto com os ingleses.O Real não está cuidando apenas dos interesses de seus torcedores ao combater os cambistas. Os dirigentes cuidam também de dissociar o clube de qualquer atividade ilegal. Há leis, de Madri e da Espanha, que proíbem essa atividade. Por isso, o clube desencoraja também que sócios ou "abonados" (aqueles que compraram, com antecedência, pacotes com ingressos para todos os jogos do campeonato) abram mão de suas entradas.A tentativa de repressão se estende até aos atletas. Cada jogador recebeu 50 ingressos para distribuir entre amigos, parentes e colaboradores. Os números das entradas foram anotados para impedir que fiquem em poder dos cambistas. O que, na prática, pode não significar muita coisa. O temor de represálias fez, também, com que o Ibazar, site especializado em leilões virtuais, cancelasse qualquer barganha com ingressos para o clássico."Venderíamos cinco vezes a capacidade de nosso estádio", admitiu Jorge Valdano, diretor técnico do Real Madrid. "É impressionante o número de pedidos que chegaram até nossos escritórios." O consolo, por enquanto, fica por conta da possibilidade de o jogo ser transmitido por tevê aberta e não pelo sistema pay-per-view, como ocorreu no primeiro turno, em Barcelona. Naquela ocasião, foram negociadas mais de 300 mil autorizações ao preço de R$ 10 reais cada. Um faturamento extra nada desprezível, para os canais por assinatura e para os times.

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