José Patrício
O torcedor Tião Guidelli fez uma música para o time feminino da Ferroviária José Patrício

Camisa grená da Ferroviária volta a brilhar no Paulistão

Boa campanha traz lembranças dos esquadrões históricos

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2016 | 17h00

Nos anos 1960, o menino Tião Guidelli gostava de jogar bola em um campinho de terra perto de sua casa no assentamento Bela Vista, em Araraquara. O suor se misturava com aquela poeira vermelha, grudava no corpo, cobria a pele de um jeito que virava um uniforme de tanta sujeira. Um dos colegas viu uma foto da Ferroviária numa Placar antiga e percebeu a semelhança: a terra mais o suor dava um tom parecido ao grená. “Esse é o nosso time”, disse o menino Tião.

Mais de 50 anos depois, Tião não joga mais futebol nos campinhos, mas continua amante do grená. O porteiro da empresa Vigiara, que presta serviços de segurança para a Uniara (Centro Universitário de Araraquara), foi homenageado pela Câmara dos Vereadores de Araraquara no ano passado pela composição do hino do time feminino da Ferroviária. É um torcedor ilustre, reconhecido pelas ruas. Jura que a primeira palavra que aprendeu – depois de papai e mamãe – foi “AFE”, apelido da Associação Ferroviária de Esportes.

Os bons resultados da Ferroviária na campanha atual do Campeonato Paulista fazem com que Tião se lembre dos tempos áureos do time grená, que já foi chamado de “Santos do Interior”. Obviamente, existe um certo exagero aí. Afinal, o torneio está ainda na 8.ª rodada. Para ele, o excesso pode ser perdoado. Afinal, o time ficou 19 anos longe da elite paulista. “A vitória sobre o Palmeiras já entrou para a história, mas está, principalmente, na minha mente e no meu coração”, diz o torcedor.

Funcionários do Museu do Futebol e Esportes de Araraquara afirmam que não é tão exagero assim pensar que a campanha de 2016 já está marcada. O time tem 23 jogos de invencibilidade na Arena da Fonte em partidas válidas pelo Campeonato Paulista da Série A2 (2014/2015) e Série A1. “O placar, em si, não é tão marcante. O Palmeiras já perdeu para outros times do interior neste mesmo Campeonato Paulista. O que chama a atenção é a forma como a vitória foi construída: a Ferroviária teve mais de 60% de posse de bola na casa do adversário”, analisa Gustavo Ferreira Luiz, do Museu.

Para Silvino Vallandro, dono da churrascaria Estrela do Sul, ponto tradicional da cidade, há 41 anos instalado em frente ao estádio, a equipe pode ir longe. “A gente já viu grandes times, e este está empolgando”, diz o gaúcho de Encantado.

Tião se empolga ainda mais e cita Olivério Bazani Filho, o maior jogador da história do time grená. O meia detém o primeiro lugar em número de títulos, jogos disputados – foram 758 entre 1954 e 1976 – e também em gols assinalados (244). Seu busto ocupa espaço nobre, logo na entrada do estádio. Foi bicampeão da segunda divisão (1955-1965), tricampeão do Interior (1967-68-69), esteve nas três excursões internacionais (1960-63-68), ganhou a taça dos Invictos em 1971. Como técnico comandou a ótima campanha no Paulista de 1985, quando o time chegou à semifinal do torneio e terminou o torneio na 4.ª colocação.

Além da trajetória de Bazani, os torcedores ‘das antigas’ têm realmente boas recordações. Entre os anos de 1967 e 1969, a equipe viveu a maior era de sua história. Conquistou a taça do interior três vezes consecutivas e ficou com a posse definitiva do troféu. Na campanha de 1968, a AFE terminou o Campeonato Paulista em 3.º lugar, atrás apenas de Santos e Corinthians. Para coroar o feito, em amistoso realizado em Araraquara em 1968, a Ferroviária massacrou o Napoli, da Itália, por 4 a 0. Depois disso, foram 39 anos na primeira divisão do Campeonato Paulista, sendo 29 anos consecutivos, de 1967 a 1996.

Os números na Fonte Luminosa mostram que a Ferroviária foi um adversário duro para o Santos de Pelé nos anos 1960 e 1970. Em 13 jogos disputados em Araraquara, a Locomotiva venceu sete vezes, empatou em duas oportunidades, e o Santos ganhou quatro jogos. A camisa grená, portanto, pesa.

A principal meta do time agora é fazer com que todas essas reminiscências façam com que os torcedores voltem ao estádio. Mesmo depois de se consolidar como sensação do Campeonato Paulista, a equipe ainda não empolgou totalmente o povo da cidade. A média de público nos jogos em casa é de três mil torcedores – a capacidade do estádio é de 22 mil. O maior público foi registrado no empate contra o Corinthians, com nove mil pagantes. “A torcida da Ferroviária é formada sempre por 1.000, 1.500 pessoas. O povão ainda não começou a ir ao estádio”, afirma Douglas Campos, presidente da torcida organizada Afeganistão.

Pelas ruas de Araraquara, são poucas referências ao time. Torcedores afirmam que o estádio deve ficar mais cheio na fase final – a equipe tem boas chances de classificação, pois está em segundo lugar no grupo do São Paulo, empatada em número de pontos, mas leva desvantagem no saldo de gols (6 a 5). Hoje, a equipe enfrenta o Novorizontino em casa. “Ainda falta empolgação. Queria ver a torcida mais entusiasmada. Não é todo dia que a gente vive uma situação dessas”, reclama Tião.

O programa de sócios-torcedores vai bem. Lançado no início deste ano, o Sócio Locomotiva já saltou de 70 sócios para mais de 1.500.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Administrada como empresa, Ferroviária tem parceiros fortes

Apoios são fundamentais para o equilíbrio financeiro

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2016 | 17h00

Chegar à fase final do Campeonato Paulista e buscar uma vaga na Série D do Campeonato Brasileiro não são os únicos objetivos da Ferroviária neste ano. Como clube-empresa, a equipe tem um orçamento a ser cumprido, com metas de redução de gastos, aumento de receitas e de crescimento. Neste ano, prevê lucro pela primeira vez desde 2003, quando o clube adotou essa forma de gestão. O nome bordado no uniforme – Ferroviária S.A. – mostra que o sucesso dentro de campo é tão importante quanto a eficiência administrativa.

Na prática, é como se fosse uma empresa mesmo. Os acionistas escolhem um Conselho de Administração que, por sua vez, elege a diretoria. E onde se lê a palavra acionista subentende-se outra: lucro. Os diretores estatutários não recebem salários, porém todos os gestores do clube são remunerados. “A sobrevivência na Série A-1 do Campeonato Paulista projeta que teremos lucro pela primeira vez”, afirma o presidente Carlos Salmazo.

A gestão da Ferroviária é feita por gente do mercado. Salmazo, por exemplo, é engenheiro de formação e hoje atua como executivo de negócios. Informações financeiras são tratadas de maneira confidencial. A diretoria não quis revelar, por exemplo, o nome do grupo acionista que controla o clube. De quanto será o lucro? Neca. “São informações estratégicas”, informou a área financeira.

A visita que o Estado fez a Araraquara nesta semana mostrou outros sinais desse ambiente corporativo. A sede do clube é um escritório, ainda em reforma, é verdade, mas cheio de baias com computadores que mostram planilhas de Excell.

Ser um clube-empresa tem os seus prós e contras. A carga tributária, por exemplo, gira em torno de 12% e 14%, enquanto os clubes tradicionais são isentos de quase toda tributação. O lado positivo do modelo é que a transparência facilita a captação de investidores. “Fica mais fácil atrair parceiros”, explica Pedro Daniel, gerente de Esportes da consultoria BDO.

A prefeitura de Araraquara é um dos principais parceiros, e essa história vem de longe, desde uma “tragédia”. Em 2003, a Ferrinha ficou na rabeira do seu grupo na Série A3 e disputou a última divisão paulista no ano seguinte. A dívida era de R$ 4 milhões, água e luz haviam sido cortadas. Com um grupo de empresários, o então prefeito Edinho Silva, hoje ministro da Secretaria de Comunicação Social, sugeriu que a Ferroviária virasse empresa. Surgiu a Ferroviária S/A.

A Arena da Fonte Luminosa, hoje Arena da Fonte, deixou de ser do clube. A prefeitura assumiu as dívidas, mas passou a dona do estádio. Hoje, o time é isento de aluguel e repassa ao estádio somente 10% da renda de seus jogos. Além disso, tem o direito de fazer as melhorias.

O poder municipal investiu cerca de R$ 25 milhões em uma reforma para criar uma das arenas mais modernas do interior. Além do aumento da capacidade de 18 mil para 22 mil lugares, todas as arquibancadas receberam novos assentos – grenás, obviamente – e até cobertura. O mais legal é que essa reforma teve cuidado de preservar preciosidades históricas, como os refletores, marca registrada da arena desde 1959, oito anos após a inauguração do estádio. Até algumas cadeiras do vestiário são da década de 50, aquele ferro grosso que nem se vê mais.

Também são parceiras fundamentais as empresas da cidade. O clube tem sete patrocinadores, entre eles, Cutrale, Lupo, Tribuna Araraquara, Farmácia Santa Paula e Move Mais, empresas sediadas ou fortemente identificadas com a cidade conhecida como “Morada do sol”. “Todos estão formando laços em torno do time”, diz o técnico Sérgio Vieira.

Obviamente existem dificuldades administrativas. Alguns patrocinadores têm contrato até a metade do ano, quando se encerra o Campeonato Paulista. O time vai ter de correr atrás de novos parceiros para o segundo semestre. Por isso é tão importante jogar o ano todo. Mais jogos significa maior visibilidade. Caso não consiga se classificar, o time terá como plano B a Copa Paulista, torneio que a Federação Paulista pretende fortalecer neste ano.

 

Notícias relacionadas

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    Tecnologia ajuda na evolução da Ferroviária

    Time conta com software que analisa desempenho

    Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

    05 de março de 2016 | 17h00

    Uma das razões das boas atuações da Ferroviária no Campeonato Paulista é a tecnologia. O clube investiu R$ 27 mil em um software para a análise do desempenho dos jogadores. “Poucos clubes no Brasil possuem esse equipamento”, afirma Rui Sousa, um dos analistas de desempenho da Ferroviária. 

    Analista de desempenho é uma figura nova nas comissões técnicas. Ele organiza para o treinador informações e elementos técnico-táticos do desempenho da própria equipe e também dos adversários com recursos tecnológicos, vídeos, estatísticas e relatórios.

    Em todos os jogos, o time leva dois analistas para gravar os jogos. É uma gravação diferente da tevê e que permite analisar setores do time que não estão participando do lance com a bola. No lance do primeiro gol do time contra o Corinthians, por exemplo, enquanto a bola está no ataque, os analistas alertam para a posição dos defensores. “Estamos sempre pensando no lance seguinte”, conta Sousa, português que trabalhou com o técnico Sérgio Vieira no Atlético-PR.

    As imagens podem ser analisadas ainda durante o jogo, no intervalo. A comissão técnica usa um iPad para mostrar aos jogadores as imagens do que acertaram e do que erraram. O programa permite recortes de todos os escanteios, contra-ataques e outros lances específicos. Em dois ou três minutos, a comissão técnica mostra as imagens da atuação da equipe.

    A análise de imagens se repete durante a semana com aulas quase diárias sobre a atuação do time e do adversário – a comissão técnica analisa quatro jogos de cada rival antes de enfrentá-lo. As projeções são feitas na Arena da Fonte em uma sala com vários recursos multimídia. Cada aula dura por volta de uma hora.

    Embora seja inovador, o novo método de treinamento já foi aprovado pelos jogadores. “Ficamos mais tempo na sala de aula do que no campo”, brinca o meia Rafael Miranda, um dos mais experientes e com passagens pelo Atlético-PR, Marítimo, de Portugal, e Bahia. “Já passei por vários clubes, inclusive na Europa, mas algumas coisas são novas para mim aqui”, afirma.

    O zagueiro Marcão afirma que está evoluindo com os vídeos. “No campo, nem sempre temos a percepção sobre o posicionamento correto. Na tela, fica mais fácil ver e corrigir”, diz.

    O técnico Sérgio Vieira, que começou sua carreira como analista de desempenho, afirma que os jogadores precisam ser estimulados a novos tipos de treinamentos. “No futebol, é importante estimular e repetir até atingir o resultado ideal”, afirma.

    Rui Sousa reconhece que existe um choque cultural para os jogadores que, em geral, não estão acostumados com aulas e vídeos. Passado o impacto, ele afirma que os jogadores procuram imagens que possam auxiliá-los, principalmente quando percebem a evolução da equipe. “Os treinos são muito diferentes daqueles feitos em outros clubes. Com o tempo, a gente se acostuma”, diz Rafinha.

    Notícias relacionadas

      Encontrou algum erro? Entre em contato

      Imagem Ignácio de Loyola Brandão
      Colunista
      Ignácio de Loyola Brandão
      Conteúdo Exclusivo para Assinante

      Análise: Quando os gols têm a cor grená

      Não tinha visto nenhum jogo da Ferroviária neste retorno à elite do Paulistão, após 20 anos. Tive receio quando o Módulo, um amigo que tem camarote na Arena Allianz Parque (não me conformo, continuo a achar o nome Parque Antártica mais poético, histórico) me convidou para o jogo de domingo passado.</p>

      Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

      05 de março de 2016 | 17h00

      Quando o time grená entrou em campo, fiquei tenso, me deu ‘nos nervos’, como se diz em Araraquara. Fiquei esmagado pela beleza do campo, pela luz, som, barulho da torcida. E olhe que não tinha tanta gente. Pensei, estamos perdidos, seremos esmagados. Pensamentos arcaicos. O jogo começou e de repente percebi quem que tinha o domínio da bolo e do jogo era a Ferroviária. Bola de pé para pé. Onde tinha visto isso? O que não ousei pensar, o Antero Greco e o Juca Kfoury disseram por mim: tinha algo do Barcelona na AFE. Fui me acalmando, consegui assistir o jogo sem medo. Vencemos e imaginei, poderíamos ter vencido por mais. Coisa de fanático, claro.

      No curso cientifico no colégio em Araraquara, um companheiro de classe se chamava Bazani. Titular da Ferroviária por anos, batia uma falta em curva indefensável. Hoje, falecido, ele tem um busto de bronze na entrada da Arena da Fonte (prefiro Estádio da Fonte Luminosa, sou implicante) em Araraquara. Quando vou assistir jogo ali, passo pelo busto, acaricio a cabeça do Bazani. Deu sorte todas as vezes. Desta vez, não havia meu amuleto, mas havia o time montado por este Sergio Vieira. Não precisamos viver de passado, pensar Dirceu, Pio, Rossi, Galhardo, Machado e tantos outros. O presente é estruturado. Para mim, dá sorte também comer amendoim torrado, ou aquela pipoca japonesa colorida, no momento em que a AFE ataca. Superstição que também dá resultados.

      Pelo meu time, junto com meu pai, apanhei em Batatais das ‘Mulheres Torcedoras’, senhoras maduras que nos bateram com sombrinhas. Levei ovos podres na cabeça, em Barretos. Era uma tática da torcida, jogar ovo podre, fedorento, na torcida rival e no time. Vi num jogo o Olten Aires de Abreu dar três pênaltis contra o time rival, se não me engano, o América de Rio Preto, eterno adversário. Todos os três foram perdidos. Então, Olten não se conteve: ‘quem perde três pênaltis, merece perder o jogo”. E deu um contra nós. Mas me comoveu ver o velho Comendador D’Abronzo chorar ao meu lado no alambrado do Pacaembu, em noite chuvosa de 1966, quando a Ferroviária venceu o XV de Piracicaba por 1 x 0, voltando à primeira divisão.

      Tenho medo que algum time grande, cujo técnico esteja com a cabeça a prêmio, vá buscar o nosso Sérgio Vieira. Tenho medo que os chineses que andam comprando tudo, cheguem a Araraquara com potes de dinheiro e levem os nossos jogadores. Espero que se isto acontecer, os nossos japoneses, que dominam as sorveterias da cidade, impeçam o saque.

      Para finalizar, conto que em Berlim, na Alemanha, onde morei algum tempo, havia uma bandeira que chamava a atenção de todo mundo. Era grená e nela estava escrito AFE. ‘Que país é este?’, indagavam, curiosos. Um país que é cheio de altos e baixos, mas que me deixa feliz, respondia. E nada mais explicava, era uma coisa entre eu e o meu eterno time.

      Encontrou algum erro? Entre em contato

      O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.