Maxim Shipenkov/EFE
Maxim Shipenkov/EFE

Campanha ruim da Argentina deixa nação dividida antes de jogo decisivo

Seleção argentina precisa do alívio de um triunfo na Copa para encarar sua dura realidade

Diego Jemio, especial para o Estado / Buenos Aires, O Estado de S.Paulo

23 Junho 2018 | 05h00

Parece exagerado. Foi uma encenação criticada por colegas e espectadores. Mas não fica muito longe do drama com o qual os argentinos vivenciam o futebol. Após a derrota de quinta-feira da equipe nacional contra a Croácia por 3 a 0, um painel de jornalistas do TyC Sports, o canal a cabo de esportes de maior audiência no país, abriu o programa com uma proposta singular: “um minuto de silêncio”. Assim, com esse pequeno ritual, sem olhar para a câmera, “fizeram o enterro” da equipe, incluindo Lionel Messi e o treinador Jorge Sampaoli.

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As duas partidas disputadas pela seleção na Rússia suscitaram tanto esperança como mal-estar em um país que, como poucos na região, encara o futebol como uma religião de fanáticos. O empate por 1 a 1 contra a Islândia – rival subestimada no início – foi o sinal de alarme. E o descontentamento detonado com a vitória esmagadora contra a equipe europeia. É difícil procurar as razões e justificativas se a derrota for analisada a partir da visão dogmática do torcedor. Mas o resultado não é surpreendente se alguém analisar a história da Argentina nas Eliminatórias, nas quais ganhou dolorosamente uma passagem para a Rússia contra o Equador, graças ao talento de Messi.

As críticas demolidoras não foram só disparadas por jornalistas esportivos, mas também por ex-jogadores, muitos deles que já passaram pela equipe argentina. Nas últimas horas, tornou-se viral um áudio de Diego Simeone, campeão duas vezes da Copa América e atual treinador do Atlético Madrid. “O que está acontecendo com a seleção mostra o que aconteceu nos últimos quatro anos no futebol argentino: anarquia e falta de comando na liderança. A equipe está perdida. Está errado”, disse o “Cholo”.

Nesta vertigem de pegar um sabre e cortar cabeças, Héctor Enrique, ex-campeão mundial em 1986, atacou duramente o número dez do Barcelona. “Quem diabos é o Messi para não correr? Os jogadores são crianças muito mimadas”, disse o “Negro”. E ele relembrou um duelo que os argentinos amam: Messi versus Maradona. “Diego não deixava você abaixar os braços. Corria mais do que todo mundo, ficou com mais raiva do que todo mundo, enfrentou; se batiam nele, levantava-se e seguia em frente. Essa atitude contagiava”.

 

Como um afogado que dá as últimas braçadas antes de afundar, os torcedores se apegaram à partida entre Nigéria e Islândia. O triunfo dos africanos deu um pouco de oxigênio à equipe Argentina, que deve vencê-los na última partida para aspirar às oitavas de final. Nesta sexta-feira, na cidade de Buenos Aires, buzinas foram ouvidas na rua e os gols de Ahmed Musa despertaram gritos lancinantes, que saíram dos edifícios da capital argentina. A partida conseguiu picos históricos de audiência para uma partida da série do Mundial na qual a Argentina não jogou.

Talvez com mais força que nunca, o país quer ganhar alguma coisa. Passaram-se 32 anos desde que a equipe venceu a última Copa do Mundo. A isso se soma a grande decepção de três finais perdidas nos últimos anos: o Mundial de 2014 contra a Alemanha e as duas últimas edições da Copa América contra o Chile. Os argentinos querem sentir-se triunfantes por um tempinho, não só por causa de seu fanatismo, mas também porque, fora do gramado, poucos motivos existem para se comemorar.

“A situação da Argentina é tão delicada que as partidas da seleção não conseguiram fazer esquecer os temas quentes da agenda do país, tais como o empréstimo do FMI, que concordou em enviar US$ 50 bilhões. A Argentina joga contra a Nigéria na terça-feira. Na segunda-feira, haverá uma greve nacional dos principais centros sindicais, que paralisará todo o país. Há um grande descontentamento social, que será transformado em protesto”, disse, ao Estado, Julio Gambina, professor e especialista em economia política.

Além disso, o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) acaba de anunciar alguns números desanimadores: o desemprego cresceu no primeiro trimestre para 9,1%. Enquanto isso, as principais consultorias projetam inflação de 30% em 2018, a maior da região depois da Venezuela. Nos últimos dias, o governo comemorou – quase como um triunfo da seleção – a ascensão à categoria de “mercado emergente” de acordo com a agência de classificação de risco Morgan Stanley Capital International (MSCI). Este novo status traria novos investimentos produtivos no país. Gambina não é muito otimista. “O governo encarou isso como uma boa notícia. Mas há algo que raramente é falado. Essa condição de emergente supõe o aprofundamento da reforma trabalhista e provisões para reduzir os custos de produção”, concluiu Gambina.

Para passar de forma angustiante às oitavas de final, a Argentina deve vencer a Nigéria na terça-feira, em São Petersburgo. E, por sua vez, esperar que a Islândia não derrote a Croácia. Se o último acontecer, tudo será definido pela diferença de gols. Se a seleção de Messi for deixada de fora, não apenas adicionará mais um amargor a um país inteiro. Também obrigará os argentinos a acordar de uma ressaca terrível e enfrentar uma realidade na qual também não se pode vencer. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

 

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