Neil Hall/EFE
Neil Hall/EFE

Campeão do mundo, Didier Deschamps rouba cena entre as estrelas

Técnico francês é defensor da eficiência das suas equipes, e não do jogo bonito

Tariq Panja / Londres / NYT, O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2018 | 05h00

Entre os prêmios entregues na festa anual da Fifa, mês passado, havia um para o principal treinador do ano. O poder de estrela da reduzida lista foi composto por Zinedine Zidane, que saiu do Real Madrid com o terceiro título consecutivo na Liga dos Campeões. Depois, houve Zlatko Dalic, o agente pouco conhecido que levou a Croácia à sua improvável jornada para a final da Copa. E, por fim, Didier Deschamps.

Ao guiar a França para passar pela Croácia de Dalic, em Moscou, Deschamps se tornou o terceiro homem a vencer a Copa do Mundo tanto como jogador e treinador. No entanto, enquanto Zidane e Dalic receberam aplausos estrondosos quando seus nomes foram lidos no Royal Festival Hall de Londres, a menção a Deschamps mereceu pouco mais do que uma onda de aplausos educados. Isso não foi surpresa para Deschamps: mesmo que ganhasse o prêmio, ele, pragmático como jogador e agora como treinador, está acostumado com os homens mais brilhantes do ramo, que roubam os holofotes.

No entanto, foi exatamente por isso que a vitória da França na Copa do Mundo – criticada por ser mais uma habilidosa caminhada que uma marcha triunfante – ofereceu uma espécie de justificativa. Em uma era de treinadores superestrelas, de nomes celebrados por suas grandes filosofias de mente ofensiva – pense em Pep Guardiola ou Jürgen Klopp – Deschamps, de 49 anos, continua um tipo antiquado: um artesão entre os artistas, um defensor sem remorsos da eficiência sobre a efervescência, um campeão da substância sobre o estilo.

“Em algumas das partidas, não tínhamos tanto domínio quanto as outras equipes, mas não era porque não éramos perigosos”, disse Deschamps sobre as críticas ao seu estilo cauteloso. “No futebol, você não segura a bola só para prendê-la. Quando você tem a bola, precisa ser perigoso, criar oportunidades e marcar gols. E, quando você não o faz, garanta que o time opositor também não.”

Para Deschamps, de baixa estatura com um sorriso que expõe uma fileira de dentes tortos, a beleza no campo não é importante. Ele observou que também não foi para a equipe que capitaneou no título da Copa do Mundo de 1998. Mas, como então, ele sabe que agora haverá uma inevitável pressão para que a França, a melhor equipe do mundo, jogue como “A Melhor Equipe do Mundo”.

A equipe de 1998, ele lembrou, perdeu o equilíbrio ao tentar dominar os adversários na Eurocopa de 2000. A França ainda venceu o torneio, mas essa memória, ele disse, guiará suas decisões em meio aos pedidos atuais para que Deschamps recolha o freio de mão, desista de controlar oponentes e, em vez disso, permita que jogadores como Mbappé e Griezmann os deslumbrem. 

“Podemos mudar de marcha, mas é arriscado”, disse ele. “No mais alto nível, se você não tem uma base defensiva sólida, não pode se virar. Em uma partida, sim. Mas ao longo de toda uma competição? Não.”

Deschamps está no cargo há mais tempo que todos menos 5 dos 55 treinadores de equipes nacionais na Europa, e esse poder de permanência é produto de um conservadorismo que ele diz ser necessário, dada a dinâmica do futebol internacional. Na gestão de clubes – função que ele exerceu na Juventus, no Monaco e no Olympique de Marselha – os treinadores podem ajustar seus esquemas táticos diariamente, permitindo que os melhores proponham gradualmente mais complexidade em seus planos de jogo.

Já treinadores de seleção, como Deschamps, podem passar meses sem ter seus jogadores juntos, e sua segurança no emprego diminui a cada derrota. “É difícil evoluir quando você tem apenas quinze dias ou três semanas para treinar, corrigir e mudar as táticas”, disse Deschamps. “Os jogadores são inteligentes, mas jogam de maneira particular com seus clubes. O treinador do Real Madrid não pedirá as mesmas coisas que o treinador do PSG ou o do Chelsea. Então você precisa encontrar um plano tático que funcione para todos eles.”

“Para mim, o objetivo é aproveitar ao máximo cada jogador, colocá-lo na posição onde ele se sente melhor. E depois repetir, repetir, repetir.”

O trabalho de alguns dos rivais de Deschamps na Rússia sugere que ele pode ter razão. A Inglaterra, por exemplo, chegou à semifinal por trás de uma abordagem rígida e segura e um foco em defesa. Mas, depois que a então campeã Alemanha caiu na fase de grupos, seu técnico, Joachim Löw, admitiu que, na tentativa de refinar seu ataque, permitiu que o time perdesse o foco no básico.

“Meu maior erro foi acreditar que chegaríamos ao menos na próxima rodada dominando os jogos”, disse Löw. “Era quase como arrogância: eu queria persistir com essa tática por muito tempo e continuei tentando aperfeiçoá-la.”

Talvez desconfiado da experiência de Löw, Deschamps não planeja cometer o mesmo erro: ele disse que seu maior medo agora é a complacência. A questão é de psicologia, segundo Deschamps. Para ele, torna-se cada vez mais difícil motivar os jogadores quando eles ganham o maior prêmio do futebol.

Ao escolher sua lista para a Copa do Mundo, Deschamps cortou cerca de uma dúzia de jogadores que estavam no elenco que chegou à final do Campeonato Europeu de 2016. Agora, enquanto se prepara para o Euro 2020, Deschamps não hesitará em fazê-lo novamente. “Você não pode hesitar, mesmo que seja difícil dizer não”, disse ele. “Muitas vezes, depois das maiores vitórias, cometemos os maiores erros. Nós achamos que estamos todos aqui, é ótimo, somos os melhores, tudo é maravilhoso, continuaremos vencendo. Mas não.”

“Sempre há mais.”

TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

 

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