Cesar Greco/Palmeiras
Cesar Greco/Palmeiras

Campeonato Brasileiro chega a 56 casos em surto de covid-19 que atinge dez times

Número de contaminados explode durante a semana; especialistas veem relaxamento dos atletas

Raul Vitor, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

21 de novembro de 2020 | 05h00

 

A 22.ª rodada da Série A do Campeonato Brasileiro começou ontem sob o impacto de um impressionante aumento de casos de covid-19 entre jogadores, treinadores, membros de comissão técnica e funcionários dos clubes. Até a noite de sexta-feira, pelo menos 56 atletas de 10 times e 4 treinadores estavam contaminados e fora de ação. Somente ontem o Palmeiras, que lidera o “ranking” com 18 casos, afastou mais 5 jogadores.

A CBF entende que a contaminação não ocorre em campo e não cogita mudar o protocolo neste momento. Para os especialistas ouvidos pelo Estadão, o problema está no descumprimento dos protocolos sanitários por parte dos jogadores. Eles acreditam que os atletas, assim como parte da sociedade, relaxaram em relação ao cumprimento das medidas de segurança.

É o que diz o infectologista Alexandre Naime Barbosa, chefe do Departamento de Infectologia da Unesp. “Os eventos ‘superdisseminadores’, que englobam batizados, festas de aniversários e qualquer outro tipo de ambiente que tenha mais de seis pessoas e as medidas de proteção não são respeitadas, estão fazendo com que a curva volte a crescer. As pessoas estão banalizando a questão da flexibilização, inclusive os jogadores, que estão sendo flagrados nesses eventos”, avalia.

Essa situação, somada às condições de trabalho no futebol, facilita a disseminação do vírus. Um atleta infectado tem possibilidade de contaminar vários outros por causa da proximidade dos treinos.

“Houve um relaxamento das medidas de proteção fora dos clubes. Os jogadores estão se expondo a ambientes onde não é possível manter a proteção. Festas, restaurantes e grupos de amigos. O sujeito que se infecta vai acabar contaminando seus companheiros, já que, pela natureza do esporte, não é possível aplicar distanciamento e uso de máscaras”, explica o infectologista Alexandre Cunha.

Atrás do Palmeiras, que registra 18 casos – Gabriel Menino também se contaminou, mas já está recuperado –, estão Atlético-MG, com 11 contaminados, Vasco, com 7. O Santos tinha 9 doentes, mas ontem 6 deles foram liberados por estarem recuperados – Alex, Alison, Sandry, Pituca, Jobson e Jean Mota.

Segundo Naime, se os jogadores seguissem à risca os protocolos de segurança elaborados pelos clubes, não haveria esse tipo de situação. “Olha o nome: ‘concentração’. É óbvio que haverá aglomeração. Se um ou dois não fazem a lição de casa, acaba com a proteção de todos. O jogador, nesse caso, prejudica o próprio clube”, explica.

Cunha também acredita que esses casos não parecem ser consequência de falhas nos protocolos dos clubes. Para o infectologista, é mais provável que um indivíduo tenha se contaminado fora das atividades e levado o vírus para dentro dos CTs. “Os jogadores são jovens e nessa faixa etária a covid-19 é uma doença benigna. Mais da metade dos infectados podem ser assintomáticos, o que torna mais difícil uma contenção a partir da avaliação clínica”, afirma.

TÉCNICOS

O surto nos clubes também colocam em risco a saúde dos treinadores e de suas comissões técnicas. Na semana passada, Jorge Sampaoli, do Atlético-MG, e Cuca, do Santos estavam afastados de seus cargos em decorrência da covid-19. O treinador santista chegou a ficar internado e, mesmo tendo testado negativo na última bateria de exames, permanecerá longe de seu posto por cerca de 10 dias. Ele é do grupo de risco por ter problemas cardíacos – há algum tempo passou por cirurgia no coração.

Tanto o Atlético quanto o Santos tiveram dificuldades para repor a presença de seus técnicos em campo. Isso porque até mesmo quem deveria substituí-los foi diagnosticado com a doença. No time paulista, no lugar de Cuca e Cuquinha entrou o auxiliar Marcelo Fernandes. Na equipe mineira, Leandro Zago assumiu interinamente.

Os últimos casos entre os treinadores foram registrados no Internacional e no Sport ontem. O clube gaúcho informou que Abel Braga, que aos 68 anos é do grupo de risco, testou positivo para a doença. Segundo o boletim médico do Colorado, ele está assintomático.

No fim da tarde, a equipe pernambucana anunciou que Jair Ventura não estará à frente do time segunda-feira contra o Atlético-GO, pois também foi contaminado.

ATLETAS CONTAMINADOS

Palmeiras - 18 casos: Jailson, Vinicius Silvestre, Matías Viña, Alan Empereur, Benjamín Kuscevic, Danilo, Gustavo Scarpa, Quiñonez, Gabriel Silva, Rony, Gabriel Veron, Marino Hinestroza, Pedro Acacio, Raphael Veiga, Willian, Aníbal, Breno Lopes e Alan

Atlético-MG - 10 casos: Alan Franco, Allan, Vargas, Victor, Réver, Guga, Sávio, Éverson, Jair e Gabriel

Vasco - 7 casos: Benítez, Carlinhos, Ribamar, Ulisses, Tiago Reis, Fellipe Bastos e Talles Magno

Coritiba - 4 casos: Ricardo Oliveira, Nathan, Henrique Vermudt e Ramón Martinez

Fluminense - 4 casos: Egídio, Michel Araújo, Nino e Pacheco

Santos - 3 casos: Ângelo, Vladimir e Luan Peres

Fortaleza - 3 casos: Osvaldo, Yuri César e Paulão

Ceará - 3 casos: Saulo, Gabriel Lacerda e André Luiz

Corinthians - 3 casos: Jemerson, Jô e Mateus Vital

Internacional - 1 caso: Daniel

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