Cesar Greco|Agência Palmeiras
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Campeonato Brasileiro tem novo protocolo médico para pancadas na cabeça entre jogadores

Medida foi tomada após aumento de incidência de concussões na competição; trauma no futebol só perde para lesão muscular

Felipe Laurence , especial para o Estado

Atualizado

  Cesar Greco|Agência Palmeiras

As concussões, como são chamadas as contusões cerebrais que ocorrem após pancadas na cabeça, se tornaram uma preocupação real no futebol. Levantamento feito pela CBF apontou que tais pancadas são a segunda maior incidência de lesões no futebol brasileiro, somente atrás de lesões musculares. Assim, a entidade instituiu no segundo turno do Campeonato Brasileiro um protocolo obrigatório que os médicos dos times precisam seguir quando um jogador sofre uma concussão.

"As concussões empatam com lesões nos joelhos e só ficam atrás das lesões musculares", explica Jorge Pagura, presidente da comissão de médicos da CBF. Para Pagura, o aumento da incidência de concussões no futebol se dá pelo fato de o jogo estar mais veloz e os jogadores mais altos. O médico diz que por ser uma preocupação nova no futebol, ainda não há um comparativo internacional para saber se o Brasil tem mais ou menos concussões no futebol do que outros países.

A CBF já tinha há alguns anos uma diretriz para os médicos ficarem de olho nas concussões, seguindo as recomendações da Fifa, mas não eram obrigados a assinar um documento oficial sobre o assunto. "Uma coisa é falar que não aconteceu nada, outra é preencher um formulário e assinar como médico", diz Pagura. Para o médico da CBF, a criação do protocolo faz com que os médicos dos clubes se habituem com a situação. "É uma forma de educar, de fazer com que os médicos pensem seriamente no problema de concussão. Você vai criando um hábito."

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Uma coisa é falar que não aconteceu nada, outra é preencher um formulário e assinar como médico
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Jorge Pagura, Presidente da comissão de médicos da CBF

Como funciona o protocolo: a CBF juntou dois documentos oficiais da Fifa sobre o assunto, o Concussion Recognition Tool 5 (CRT5) e o Sport Concussion Assessment Tool (SCAT5), em um formulário único. O médico do clube assina os dados do jogador e como aconteceu o choque. Após isso, o médico faz a avaliação de 11 sinais de concussão, sendo que quatro são destacados em vermelho como sinais inequívocos e determinam a retirada imediata do jogador de campo e ida ao hospital. São elas: perda de consciência, convulsão, no solo sem se movimentar e marcha instável com cabeça baixa.

Caso os sinais sejam inconclusivos, o médico aplica um teste de memória para determinar as funções cognitivas do jogador. O questionário tem perguntas básicas para saber se o atleta sabe onde está, contra quem estão jogando e o nome do treinador. Se acontecer confusão mental em algum desses pontos, o médico é obrigado a informar ao técnico para retirar o jogador de campo.

Como ainda não há um médico neutro nas partidas para analisar os casos de concussão, os médicos dos times entregam os formulários para os oficiais de antidoping da CBF presentes no fim da partidas. "No futuro, o nosso desejo é instituir um médico neutro para avaliar esses casos e receber os protocolos, parecido com o que acontece na NFL (liga de futebol americano dos EUA)", fala Pagura.

TESTE MÉDICO EM CAMPO

Segundo o diretor médico da CBF, os casos de concussão são analisados quinzenalmente pela entidade para saber se os médicos estão cumprindo o protocolo. "Os médicos são funcionários dos clubes, mas são profissionais da saúde acima de tudo, então eles precisam priorizar a saúde dos jogadores em detrimento do jogo", afirma.

Até agora, o novo protocolo de concussões foi utilizado pelo menos oito vezes no levantamento preliminar feito pela CBF. Pagura cita o caso de Zé Rafael, meia do Palmeiras que foi retirado de campo após choque com Tadeu, goleiro do Goiás, no dia 9 de setembro. "O protocolo foi seguido à risca pelo médico do Palmeiras."

Para 2020, o novo protocolo de concussões será instituído em todas competições organizadas pela CBF e Pagura afirma que já está conversando com as federações estaduais para colocá-lo em prática também nos torneios regionais no ano que vem. Pensando a longo prazo, Pagura espera que a educação continuada sobre concussões leve a mudanças mais profundas nas regras do futebol, como a instauração de uma quarta substituição nestes casos. "Estamos trabalhando com o Leonardo Gaciba na comissão de árbitros e temos apoio da Conmebol para fazer esse pedido à IFAB (órgão internacional que regula as regras do futebol) nos próximos anos."

DEPOIMENTO: Zé Rafael, meia do Palmeiras

Quando bati a minha cabeça com o Tadeu, no jogo contra o Goiás, apaguei completamente. Eu me lembro bem de tudo o que aconteceu naquele dia até o momento da concussão, mas depois, mesmo estando consciente, tem uns 40 minutos entre eu sair de campo e chegar até o hospital que fiquei sem saber o que estava fazendo.

Os médicos me explicaram bem que eu tinha sofrido a concussão, que é normal esse choque com pancadas na região e falaram que é comum perder um pouco da memória, não lembrar de alguns momentos, mas eles me liberaram logo depois ao verem que os exames não tinha nada de errado.

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Mesmo estando consciente, tem uns 40 minutos entre eu sair de campo e chegar até o hospital que fiquei sem saber o que estava fazendo
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Zé Rafael, Jogador do Palmeiras

A gente vê no futebol que sempre tem pancada de cabeça, mas nunca tinha imaginado que fosse um negócio tão complicado quanto eu senti, em que você perde memória e os sentidos por um momento. No futebol tem tanto disso, você sempre vê supercílio cortado, uma cabeça que bate na outra e a gente acaba achando que é normal até sentir na própria pele como funciona.

Em função da competitividade do futebol, de todo mundo querendo vencer cada disputa de bola, todo mundo luta como se fosse a última do jogo, então acho que por isso que as pancadas na cabeça estão aumentando. Até uns dois dias depois da pancada eu fiquei lento, meio com a sensação de que as coisas estavam devagar. Foram uns quatro, cinco dias até realmente me recuperar e voltar a treinar em campo. Foi chato porque perdi o jogo seguinte, mas entendi que uma nova pancada tão cedo poderia me afetar a longo prazo, não só no futebol, mas ficar com alguma sequela para o resto da vida.

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Impacto das concussões a longo prazo só foi descoberto recentemente

Encefalopatia de Bellini, capitão do Brasil na Copa de 1958, foi descoberta apenas depois da morte do ex-jogador

Felipe Laurence, especial para o Estado

22 de outubro de 2019 | 11h00

O estudo sobre as consequências das concussões só começou a tomar forma no começo dos anos 2000, quando estudos feitos em cérebros de ex-jogadores da NFL nos Estados Unidos mostraram uma deterioração comparável a de doenças como Alzheimer e Parkinson. "Até então a gente pensava que as concussões eram somente transitórias ou tinham consequências somente em esportes como o boxe, na chamada erroneamente de demência pugilística", diz Jorge Pagura, da CBF.

Luana de Oliveira, neurologista do Hospital Sírio-Libanês, explica o que é concussão. "É uma alteração da função mental. Não necessariamente envolve a perda de consciência, mas em muitos casos leva a tal, causada por um traumatismo cerebral, uma pancada, lesão externa."

Os estudos feitos por médicos como Bennet Omalu, retratado no filme Um Homem Entre Gigantes, mostrou que repetidas pancadas na cabeça acabam causando uma séria doença degenerativa chamada encefalopatia traumática crônica (CTE, na sigla em inglês). "São micro lesões cerebrais, não necessariamente por traumas grandes, mas por várias concussões repetidas, lesões que não são diagnosticadas por exames de imagem e levam à alteração da função cerebral em si", explica a neurologista. A longo prazo, essas lesões levam a prejuízos comportamentais e na memória. "A pessoa fica aquém da capacidade mental e cognitiva compatível à idade dela."

Hoje não há exames que façam o diagnóstico da encefalopatia antes de o paciente apresentar clara deterioração cognitiva, o que aumenta a importância da prevenção destes casos com regras que limitem o impacto na cabeça. "Tem havido uma educação médica continuada sobre isso, o assunto tem se tornado mais relevante, atingido um maior número de médicos nos últimos anos", comenta a médica do Sírio-Libanês.

MORTES

Os avanços nos estudos sobre concussões e suas consequências mostraram que no futebol jogadores já morreram por causa de encefalopatia. Bellini, capitão do primeiro título mundial do Brasil na Copa do Mundo de 1958, faleceu em 2014 após lutar contra o Alzheimer. Depois de sua família doar o cérebro para a Universidade de São Paulo (USP) foi descoberto que Bellini na realidade sofria da doença degenerativa cerebral e morreu por conta das suas consequências.

Na Inglaterra a discussão sobre a encefalopatia apareceu após a morte precoce de Jeff Astle, lenda do West Bromwich, em 2002, aos 59 anos, também apresentando quadro de demência. Em 2014, após uma campanha feita pela sua família, se descobriu estudando restos do seu cérebro que ele morreu de encefalopatia. Rod Taylor, ex-meia do Portsmouth que faleceu em 2018, aos 74 anos, com os mesmos sintomas, foi outro jogador que teve a doença degenerativa diagnosticada após sua morte.

As famílias de Astle e Taylor se juntaram em um processo contra a Associação Inglesa de Futebol, a FA. Elas pedem indenizações por conta das mortes dos jogadores e que a confederação coloque mais investimentos na pesquisa das consequências dos choques de cabeças no futebol, além de informar os jogadores atuais dos possíveis danos cerebrais que eles estão sujeitos no esporte.

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