Campeonato leva esperança à favela

Da vida bandida para a vida de atleta. Uma competição realizada entre crianças de favelas e comunidades carentes do Rio, áreas sob influência do narcotráfico, está permitindo que elas troquem o crime pelo prazer e a arte de ser um craque de futebol. Durante três meses, 1.152 jogadores de até 15 anos, distribuídos por 64 equipes, participaram do 7º Campeonato de Futebol Infantil Masculino de Favelas.Organizado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a Arquidiocese do Rio de Janeiro, o Campeonato de Favelas tem por objetivo realizar um trabalho social de prevenção a drogas e a promoção da cidadania entre as comunidades carentes do Estado. A disputa tem por lema: "Aqui só tem feras. Drogas não entram". Apesar de estar em sua sétima edição, a primeira competição foi realizada pela Arquidiocese do Rio nos anos 80.A vida marginalizada na favela é um assunto que incomoda as crianças, pois muitas, apesar da pouca idade, já tiveram contato com o narcotráfico. "Aqui, nós temos meninos que eram aviãozinhos do tráfico - office-boy de traficantes - e, agora, estão recuperados", disse Elzu Alves de Brito, que organizou por cinco anos a competição e, atualmente, é massagista da equipe Resende, que representa o município fluminense do Vale do Médio Paraíba.O contato precoce com a vida marginal não diminuiu o sonho daqueles que almejam ser como o artilheiro Romário, do Vasco, o atacante Ronaldo, da Internazionale, de Milão, ou o goleiro Júlio César do Flamengo. Com um discurso de jogador profissional, as crianças já sabem o que dizer quando o assunto é o futuro. Unânimes, todas querem um dia abandonar a vida de miséria e se tornarem um craque do futebol.Com 20 gols, Rodrigo Frech, de 14 anos, foi o artilheiro deste campeonato, que terminou no sábado. O terceiro lugar na competição não tirou o ânimo do jogador que, nos próximos meses, passará a treinar nas divisões de base do Fluminense. Acompanhado por seus pais, Leonel e Ediléia, e pela irmã Patrícia, ele é um dos poucos privilegiados que, além de estudar, ainda faz um curso de inglês. "Fico feliz pela ajuda que recebo dos meus pais e meus companheiros do time", afirmou.Já Rafael Andrade, de 13 anos, vivia a perambular pelas ruas da favela Vila Aliança, na zona oeste, onde mora, e pouco freqüentava a escola, apesar de estar matriculado, antes de participar da competição. A casa dele fica às margens de uma ferrovia utilizada por bandidos para o tráfico de drogas. Com a entrada para a equipe, o jogador passou a ir ao colégio e ter acompanhamento médico e psicológico.A miséria entre os intregrantes das equipes é alarmante. O técnico Wagner de Carvalho, do Vila Aliança, disse que, na noite de sexta-feira, distribuiu frutas nas casas de seus atletas para que eles tivessem algo para comer na véspera da disputa da final. De acordo com o treinador, cuja equipe ficou em segundo lugar, o desespero provocado em seus atletas por causa da perda do título é mais do que justificável.Wagner de Carvalho lembrou que, além de sua equipe realizar 15 jogos e terminar a competição invicta (perderam o título na disputa por pênaltis), a maioria dos atletas só conhece a alegria quando está em campo. "A barra que eles enfrentam é dura demais. Por exemplo, eles ganham dos organizadores tíquetes-refeição - no valor de R$ 3 - a cada jogo, e nós controlamos para que alguém (família e amigos) não os tirem deles", disse.As diferenças entre o sonho e a realidade dos meninos podem ser expressas pela equipe vencedora do campeonato deste ano: a Cruzada de São Sebastião. O local é uma das comunidades mais carentes do Estado e fica localizada no Leblon, bairro de classe média alta na zona sul do Rio. O complexo habitacional, criado por um dos idealizadores Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Hélder Câmara, usa a religião e a educação para livrar os jovens da marginalização.O projeto Campeonato de Favelas também é voltado para as meninas. A 5ª edição da disputa está prevista para setembro. Além de tíquetes-refeição, todos os atletas recebem, por jogo, quatro vales-transporte, no valor de R$ 1 cada, e todo material esportivo para que possam participar da competição. E, para que possam participar, há somente duas exigências: ter no máximo 15 anos e freqüência escolar, que é monitorada pelos dirigentes das equipes.Vários jogadores já atuaram pelo Campeonato de Favelas e conseguiram passar a profissionais. Entre eles, o meia Cláudio Paulista, que jogou por dois anos na Fiorentina, da Itália, e atualmente está na Arábia Saudita; o zagueiro Marlon, contratado pelo juvenil do Flamengo; e o zagueiro Carlos Alexandre, da Portuguesa.

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