Campeonato Ucraniano recomeça sob tensão e sem jogos na Crimeia

Crise política vivida pelo país atrasa em duas semanas o reinício do torneio

Gonçalo Junior e Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2014 | 17h00

SÃO PAULO - Danilo Silva não pode mais ir ao shopping que sempre gostou de frequentar próximo à Praça Independência, no centro de Kiev, capital da Ucrânia. Com medo, só faz compras no mercadinho da esquina da sua casa e, mesmo assim, acelera o passo.

Danilo Silva é zagueiro do Dínamo de Kiev. De acordo com a Embaixada brasileira na Ucrânia, é um dos 36 jogadores brasileiros que atuam em 13 times do Campeonato Ucraniano, competição que recomeçou neste fim de semana em clima de tensão e insegurança. O torneio que sempre é interrompido em janeiro e fevereiro por causa do rigoroso inverno, desta vez foi adiado em mais duas semanas por causa da grave crise política do país. Neste domingo, um referendo pode determinar a anexação da Crimeia à Rússia. Independentemente do resultado, há temor de que a instabilidade aumente na Ucrânia e provoque novos conflitos – centenas de pessoas já morreram.

A onda de manifestações teve início depois que o governo do presidente Viktor Yanukovich desistiu de assinar um acordo comercial e político com a União Europeia, preferindo a Rússia, seu principal aliado. Os três meses de protestos, que se tornaram violentos em fevereiro, culminaram na destituição do contestado presidente pelo Parlamento e no agendamento de eleições antecipadas para 25 de maio – se tudo der certo é a partir dessa data que Danilo Silva pretende voltar a andar pelas ruas do centro sem restrição.

Todos os jogadores brasileiros estão de sobreaviso. Os atletas foram procurados por representantes da Embaixada, que já tem um plano de fuga de volta para o Brasil caso a situação do país piore. A informação é de que um avião está de prontidão para tirá-los da Ucrânia.

Kiev, onde Danilo Silva mora, foi palco dos protestos mais violentos até agora. Até por isso a orientação é para que o zagueiro saia pouco de casa. “Nós vivemos em sinal de alerta. O amarelo pode virar vermelho a qualquer momento. As malas ainda não estão prontas, mas sabemos exatamente o que temos de fazer”, diz o jogador de 27 anos, com passagens por Guarani, São Paulo e Internacional.

Na região da Crimeia, as partidas de futebol estão vetadas. Neste sábado, por exemplo, o Sebastopol, do brasileiro Farley Rosa, enfrenta o Dnipro Dnipropetrovsk, de Giuliano, ex-Internacional. O jogo é na Arena Dnipro. “Todas as vezes que eles tiverem de jogar em casa, ou vão para outra cidade ou jogam na casa do adversário. Não há condições de ir para as cidades da Crimeia. De repente a gente não consegue nem entrar nas cidades. Ou seja, é inviável para que a gente possa viajar e ter uma partida de futebol nessas cidades”, conta Giuliano.

O confronto modificou a tabela na estreia do Dínamo de Kiev. Sua primeira partida seria em Simferopol, na Crimeia, contra o Tavriya, mas foi transferida para a capital por motivos de segurança. Com isso, o time vai fazer dois jogos em casa, turno e returno. O Estado procurou o meia Farley Rosa, mas ele foi proibido pela direção do Sebastopol de conceder entrevistas. Os dirigentes não querem que declarações dos jogadores contribuam para acirrar ainda mais os ânimos. Ali, a população de maioria russa apoia a presença dos militares nas ruas.

Bernard, uma das principais contratações do Shakhtar, da cidade de Donetsk, também preferiu o silêncio. Embora tenha alertado para a insegurança da região no amistoso da seleção brasileira contra a África do Sul, no início do mês, informou, via assessoria que não se sente confortável em falar sobre esse assunto por estar vivendo o dia a dia do clube.

O reinício do torneio é momento de preocupação, mas também de esperança. “Esperamos que tudo volte ao normal, porque estamos ansiosos para voltar a fazer o que gostamos. Estamos trabalhando muito para conseguir algo inédito, que é o título”, diz Marlos, ex-atacante do São Paulo e que está no Metalist Kharkiv.

Moraes, atacante revelado pelo Santos, com passagens por Ponte Preta e Santo André, está na Ucrânia há um ano e oito meses e atua no Metalurg Donetsk. E joga no time dos otimistas. Apesar de os conflitos terem alcançado a sua região – uma pessoa morreu e dezenas ficaram feridas na última quinta-feira –, ele acredita no poder pacificador do futebol. “Espero que o futebol traga trégua e paz, que as pessoas possam ver que existem coisas melhores na vida a se fazer do que guerra. O Pelé e o futebol já conseguiram parar uma guerra. Quem sabe aqui não acontece a mesma coisa?”

ENTREVISTA

Cleiton Xavier, do Metalist Kharkiv:

ESTADO - Qual é a sua expectativa para a retomada do Campeonato Ucraniano?

CLEITON XAVIER - A expectativa é grande. O campeonato sempre dá uma parada no início do ano por causa do frio, mas agora demorou um pouco mais. Estamos felizes por voltar a jogar, mas não podemos esquecer que o mais importante é que o país consiga solucionar os problemas e que o povo siga a sua vida em paz.

ESTADO - Como os times tiveram mais tempo de preparação, espera um equilíbrio de forças maior?

CLEITON XAVIER - O campeonato já vinha bem equilibrado. O Shakhtar, que geralmente dispara na ponta, está em primeiro com 38 pontos, cinco a mais do que nós, que estamos em segundo, mas com um jogo a menos. O Dínamo também tem 33 e logo atrás vem o Dnipro e o Chornomorets, com 32. Isso comprova que nada está definido e muitos times ainda estão na briga. Ano passado conseguimos ficar com o vice-campeonato pela primeira vez na história do clube e agora o nosso objetivo é chegar em primeiro. Vamos ver.

ESTADO - A crise política pode afetar o futebol?

CLEITON XAVIER - Já afetou um pouco, né, tanto é que o campeonato foi paralisado. Mas isso é normal porque o principal problema hoje é a crise política e não podemos simplesmente ignorar tudo o que está acontecendo e continuar jogando futebol. O esporte é muito importante na vida das pessoas, mas nem se compara com o que está acontecendo aqui. O que eu mais quero é que tudo se resolva da melhor maneira possível. Se for para paralisar o campeonato de novo, não tem problema. Estamos vivendo um momento importante na história da Ucrânia e precisamos ter paciência.

ESTADO - Você teme que a situação possa piorar daqui para a frente?

CLEITON XAVIER - Nunca penso no pior. Espero que tudo se resolva o mais rápido possível. Tenho muita fé de que tudo terminará bem para a Ucrânia. Os conflitos já diminuíram, mas ainda há risco. Vamos ver, temos de rezar e pedir para que ninguém mais saia ferido e que esse momento sirva para o país sair fortalecido.

 

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