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Campo de sonhos

José Trajano é um conhecido jornalista exilado em São Paulo há muitos anos. Certamente gosta da cidade onde vive, mas sua ambição maior parece ter sido poder um dia voltar pra casa. Agora voltou: acaba de sair seu livro “Tijucamérica – uma chanchada fantasmagórica”. 

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

02 de agosto de 2015 | 02h00

É um livro que, a meu ver, disfarça muito bem as intenções do autor. Na aparência é apenas uma brincadeira, uma anedota, criada por marmanjos que se reúnem num bar para beber e contar casos, sem maiores consequências senão fazer rir um pouco e causar alguma surpresa em quem escuta. De fato o livro trata das peripécias de José Trajano que, cansado de assistir a décadas e décadas de fracassos do seu América F.C., resolve tomar providências para que de alguma maneira volte a ser campeão. Como parece não haver força humana que consiga realizar essa proeza, o autor recorre ao sobrenatural. 

Através de sortilégios de magia e de forças poderosas das nossas religiões populares, convoca-se uma seleção de craques, vivos e mortos, que um dia vestiram a camisa do time glorioso da Tijuca. Essa seleção de mortos vivos volta para disputar um campeonato carioca de sonhos e, depois de ultrapassar todos os tradicionais adversários, triunfa, esmagando o Flamengo na final eletrizante. 

O livro que poderia ser apenas isso, é muito mais. Mas é preciso lê-lo com atenção. Porque vai se perceber que não é só do América que ele fala, mas do Rio de Janeiro, da Tijuca, de umas poucas ruas da Tijuca percorridas incontáveis vezes e, principalmente, da infância. É a Tijuca o grande personagem do livro, não o América. O clube aparece porque está na Tijuca. 

José Trajano sequer torcia para o América, até se mudar para lá e abrir pela primeira vez a janela de sua casa: a primeira coisa que viu assombrado foi uma enorme bandeira do América ao vento suave, vermelha, brilhante, que parecia ocupar toda a paisagem diante dele.

Sua casa ficava na rua Afonso Pena, perto do velho estádio de Campo Sales. Foi a Tijuca, foi a rua Campos Sales, que lhe deu o time de presente. O América chega como umas das glórias do bairro, certamente a sua maior, e como tal se apresentava diante do menino logo na primeira hora. É apenas uma das belas cenas do livro, rapidamente contadas que parecem querer se perder no decorrer do relato. E o relato é sempre a tentativa de vingança por uma derrota no perdido ano de 1954 contra o eterno Flamengo.

À medida em que se aproxima a decisão, aumenta ainda mais a presença de um mundo que não mais existe. No domingo da final começa a chegar e se encaminhar para o Maracanã uma multidão de torcedores americanos, eles também vivos e mortos, todos convocados por uma legião de forças mediúnicas comandadas por Pai Jeremias, formando um exército de alegres zumbis, felizes mortos vivos, todos de volta, todos aqui outra vez!

A chegada dessa multidão ao Maracanã, para mim é o ponto alto do livro. Porque subitamente, Trajano, ele também no meio da massa que entrava, vislumbra seu pai, de volta dos mortos, entrando no Maracanã. E os dois sem se comunicar, sem se falar, mas se reconhecendo, vão para seus lugares e silenciosamente vêm o jogo lado a lado. É a cena mais bela do livro, e me parece que toda a história foi engendrada só para chegar a ela. Não consigo imaginar uma maneira mais criativa de, num relance e em poucas palavras, descrever um encontro longamente esperado entre pai e filho.

O que Trajano queria no fundo era poder de algum jeito terminar seu exílio, às vezes insuportável, reencontrar a Tijuca perdida e rever seu pai. Compreendeu, ou intuiu, que só a ficção mais delirante daria conta do recado e recorreu a ela. A partir de certa idade ressurge com alguma constância a ideia de voltar para casa. Alguns, não todos, vão em frente: sentam-se diante do computador e começam sua bela viagem para trás.

 

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