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Campo neutro

Ninguém nunca mandou jogos em clássicos, a não ser o mando vindo da técnica

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2018 | 04h00

Sou favorável à permanência do Pacaembu como estádio de futebol do município por razões culturais e simbólicas. Já escrevi sobre isso. O Pacaembu deixou apenas de ser um campo onde se joga bola para passar à condição de monumento. E não se destroem monumentos, em geral comemorativos e destinados a chamar nossa atenção permanentemente para feitos e conquistas da comunidade.

Agora, porém, é com satisfação que vejo o Pacaembu reduzido, se essa é a palavra, a legítimo e necessário estádio de futebol. Por causa da vida atribulada de nossos clubes, de elefante branco ele passa a ser necessário. Os grandes de São Paulo têm seus estádios. Uns mais chiques, outros menos, mas todos deveriam cobrir as necessidades de uma disputa paulista, por exemplo. Não é o que acontece. Frequentemente os clubes de São Paulo são obrigados a se valer do Pacaembu para jogos. Agora mesmo ele está servindo para abrigar dois jogos de Palmeiras e Santos e reproduzir um dos clássicos mais tradicionais da cidade.

Isso em virtude dos problemas dos clubes com seus campos. O Palmeiras é proprietário de uma belíssima arena contanto que ninguém decida marcar um show de música para o mesmo dia do clássico. Falo de outras corporações que também têm direito ao estádio e que não dão a mínima para clássicos, tradicionais ou não. Não há clássico que resista aos novos negócios. E parece que marcaram alguma coisa que inviabiliza o Allianz no dia do jogo.

Quanto ao Santos, sempre indeciso entre a cidade que lhe deu origem e São Paulo, onde abriga grande torcida, talvez aproveitando-se da circunstância que o Palmeiras oferece de jogar no Pacaembu aceita disputar as duas partidas nesse local. O pessoal de Santos talvez possa ver os jogos num telão.

Não estou lamentando essas dificuldades dos clubes, ao contrário. São elas que mostram que o Pacaembu, como local de jogo, vive. E tenho certeza de que o jogo no Pacaembu estará aumentando a mística que cerca essas partidas antigas e veneráveis. Principalmente porque jogar no “próprio da municipalidade” retoma uma das regras de ouro desses jogos importantes de São Paulo, isto é, o campo neutro.

Mesmo que, infelizmente, a torcida seja única, o campo neutro restaura um pouco da grandeza antiga. Clássico que se apresenta joga-se em campo neutro. Jogo entre dois grandes prescinde do expediente provinciano, caipira, do “mando de jogo”. Ninguém nunca mandou jogos em clássicos, a não ser o mando vindo da qualidade de um dos times naquele dado momento. E era tudo.

Ainda bem que essa neutralidade foi um pouco restaurada graças ao Pacaembu e com ela algo do que esse jogo já foi. Porque tem sido através dos tempos um grande jogo. Só para exemplificar, houve um Santos 7 x 6 Palmeiras que ficou na história do futebol brasileiro. Não valia muita coisa, era um jogo de um Rio-São Paulo, mas o grande Pepe diz que foi o maior jogo que jamais disputou na carreira.

Foi numa quinta à noite e não houve apagão. Não há relato disso. Eu mesmo não lembro bem de apagões em noites de jogo no Pacaembu. Curiosamente, eles só começaram a se multiplicar depois que foi divulgada a intenção de privatizar o estádio.

Uma das razões, dizem, é reformar a parte elétrica e, portanto, evitar os apagões. Se realmente essa for uma das razões tem que estar nos planos do prefeito a privatização da cidade inteira, pois há apagões por toda parte. Posso falar da Vila Madalena, por exemplo, onde, ao começar um chuvisco, todos correm para desligar os computadores.

Apesar disso, ouso dizer que nunca um apagão vai ter importância num Palmeiras x Santos. Haverá sempre algo muito mais importante para ser lembrado.

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