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Ugo Giorgetti
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Decisão bem longe da América: a Libertadores nunca esteve tão distante

O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2018 | 04h00

Tudo já foi dito sobre as vicissitudes de Boca e River pela final da Libertadores. Não me interessei muito, pois é um incidente vulgar, até corriqueiro, que podia ter acontecido aqui no Brasil. Até já aconteceu algo do gênero em pleno Pacaembu num jogo não tão recente entre Corinthians e o próprio River. Portanto, nada de novo na nossa América Latina. A coisa passou a me interessar a partir do momento em que se começou a decidir o local desta partida que não houve.

Saíram de cena os maiores protagonistas até então, Boca e River, para assumir a liderança da coisa a Conmebol, no começo, depois a Fifa, através de Gianni Infantino, seu presidente, depois o Catar e, finalmente, a Espanha. A Argentina como parte da América Latina, sem nenhum prestígio no mundo, ficou de fora, expectante sobre o que outros decidiam em seu lugar. É a primeira vez na história que a Libertadores da América é decidida em qualquer outro lugar que não a América. É a primeira vez que o maior clássico da Argentina, que eles denominam de superclássico, num momento tão decisivo, vai se jogar para outras torcidas, cujo interesse no jogo talvez seja apenas a curiosidade de ver como se comportam esses dois times de lugares mais ou menos selvagens e distantes, agora sob supervisão, proteção e vigilância da Espanha.

É algo que lembra como eram exibidos os primeiros nativos da América nas cortes europeias do século 16. Os argentinos ficam privados de ver um jogo para o qual se prepararam várias vezes e já haviam pago ingresso. O pior é como essa decisão foi aceita. Em primeiro lugar, como a decisão de não realizar o jogo na Argentina foi conduzida. Os espertos do momento viram, desde o início, a possibilidade de aproveitar o incidente para ganhar algum. De início o Catar, que dispunha do dinheiro, ofereceu logo Doha. E naturalmente alguns trocados. A possibilidade de um Boca e River no CATAR, decidindo uma Libertadores da América (!), talvez tenha feito corar as faces até do senhor Infantino que, evidentemente, também alarmado pela iminência de perder a boquinha, sugeriu a Europa.

O Catar concordou e, por sua vez sugeriu Paris, um pouco mais familiar a ouvidos latino-americanos, e cidade esportivamente em seu poder, já que é dono do famoso PSG. Paris também não vingou certamente por questões financeiras e finalmente apareceu a Espanha e o jogo foi cair no Santiago Bernabéu, sempre com a concordância do imprescindível Catar. E, naturalmente, da silenciosa Argentina, que recebeu em troca do desprestígio de seu futebol, e de seu país, umas migalhas de dinheiro que aceitou alegremente.

Não estou incriminando a Argentina. Nós, do Brasil, faríamos exatamente o mesmo. Somos todos Argentina nesse momento, como diziam os dizeres estampados nas camisetas espalhadas pelo mundo depois de cada desgraça. Somos todos, enfim, América Latina, sempre à procura da proteção dos outros, atenta para agradar, incapaz de levantar a cabeça e se impor, não pela força, mas pela inteligência, criatividade e caráter. Estamos sempre dispostos a nos colocar à disposição de algum outro país que finge nos considerar e respeitar, porém, no fundo, nos despreza.

Parece que na América Latina os que dirigem não aprendem que dignidade e orgulho nacional são indispensáveis para ocupar nosso lugar no mundo. Isso não é nacionalismo barato e fanfarrão da minha parte. Não tenho um pingo de nacionalismo sentimentaloide. Não me emociono com qualquer coisa. Mas esse episódio lamentável de Boca e River, times de que todos nós, latino-americanos, nos orgulhamos, e pelos quais, não importa o país, todos sentimos admiração e respeito, nos fere profundamente. A Libertadores nunca esteve tão distante.

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