Marcos D'Paula-AE
Marcos D'Paula-AE

Carência de ídolos é cada vez maior no futebol brasileiro

Falta de talentos e pouca identidade são principais motivos pela ausência

Glauco de Pierri e Wilson Baldini Jr., O Estado de S. Paulo

28 Março 2015 | 17h00

A seleção brasileira que disputou a Copa do Mundo de 1982 ainda é cantada em verso e prosa por seus feitos em campos espanhóis, apesar de não ter conquistado o título. O time tinha um meio de campo formado por Falcão, Cerezzo, Sócrates e Zico. Quatro grandes ídolos dos quatro times de maior torcida dos quatro estados mais importantes do esporte no País. Garantia de popularidade. Mas o que se vê no futebol verde e amarelo do momento é uma carência total de ídolos. Falta de talentos e pouca identidade dos jogadores atuais com seus clubes de origem, preferindo muitas vezes até iniciar a carreira no exterior, são alguns dos motivos apontados por craques do passado para o melancólico momento pelo qual passa o futebol nacional.

Esse panorama faz com que jogadores como David Luiz, Hulk, Diego Costa, Deco, Roberto Firmino passem despercebidos pelos times do País, façam sucesso na Europa e cheguem a integrar seleções nacionais, disputem copas do mundo e, ainda assim, sejam desconhecidos do público brasileiro.

Roberto Rivellino, apontado como o maior jogador da história de Corinthians e Fluminense e um dos protagonistas da seleção tricampeã no México em 1970, critica o trabalho feito nas categorias de base dos clubes. Segundo ele, os garotos são colocados em uma fôrma. "São todos iguais. O garoto não pode mostrar algo diferente, não pode arriscar um drible. A primeira preocupação dos técnicos é não levar gols e não em fazer."

Para Rivellino, os jovens não são preparados tecnicamente para entrar na equipe profissional. "O cara nasce com o talento para jogar bola, mas é possível trabalhar essa habilidade, o que não ocorre. O jogador vai para o time de cima sem saber bater na bola."

O "Reizinho do Parque", apelido que ganhou quando atuava pelo Corinthians, alusão ao Parque São Jorge, dá como exemplo o Santos no tratamento aos novos talentos. "Lá é o único lugar onde se enxerga quando o garoto sabe jogar bola. E eles (dirigentes e comissão técnica santistas) não têm medo de colocá-los em campo."

Rivellino diz que o País não revela mais grandes jogadores como antigamente, mas ainda é possível encontrar "meninos bons de bola". "O time do Corinthians que foi campeão da Copa São Paulo de Juniores tinha três garotos muito bons, mas onde eles estão? Ninguém põe eles para jogar", disse a "Patada Atômica", como foi chamado pelos mexicanos na Copa de 70 por causa de seu violento chute de pé esquerdo. "A Federação Paulista errou ao determinar que os clubes só poderiam usar 28 jogadores no Estadual. Era hora de colocar os garotos para jogar.

Roberto Dinamite, maior artilheiro da história do Vasco com mais de 700 gols, passou pela experiência de ser presidente e diz que as ambições dos garotos ao chegar em São Januário são bem diferentes das dele no início da década de 70. "Minha intenção era ser jogador do Vasco, ser campeão com o Vasco. Hoje, o menino com 15, 16 anos, assina o primeiro contrato e já vislumbra a oportunidade de ir para o exterior. O objetivo, mais do que um sonho, é jogar na Europa. E o mais rápido possível. Sempre com o apoio dos pais e dos empresários."

Roberto revela que os jogadores chegam aos clubes e não têm a menor noção da história da camisa que vão vestir. "Falta respeito com a entidade à qual vão servir", afirma o ex-centroavante, que serviu a seleção brasileira nas copas de 1978 e 1982.

Atacante que enfrentava os zagueiros, Roberto foi contemporâneo de Reinaldo (Atlético-MG), Serginho (São Paulo), Nunes (Flamengo). "Todos nós marcamos época nos clubes pois fazíamos muitos gols. Hoje são poucos os artilheiros, com exceção de Messi e Cristiano Ronaldo."

Reinaldo, ídolo do Atlético-MG na década de 70 e considerado um dos atacantes mais técnicos de todos os tempos - lesões nos joelhos anteciparam sua aposentadoria -, concorda com Dinamite. "O maior problema é a falta de identidade dos jogadores com os clubes. Trata-se de um problema sem solução, pois os times europeus sempre vão pagar mais e essa negociação ocorre cada vez mais cedo."

Ademir da Guia, maior jogador da história do Palmeiras, clube no qual atuou de 1961 a 1977, indica que os títulos formam os ídolos.

"O Marcos ganhou o carinho da torcida palmeirense porque foi campeão", diz o Divino, apelido que recebeu devido à elegância e categoria apresentada durante os jogos. Para o eterno camisa 10 alviverde, o chileno Valdivia tem o respeito da torcida pelo fato de ter sido campeão no clube. "É preciso ter uma identificação com a camisa que você veste." Mas para isso é preciso permanecer no clube por um bom período de tempo. "O Palmeiras contratou 19 jogadores este ano. Vamos ver por quanto tempo eles vão ficar no clube."

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