Celio Messias/Estadão
Celio Messias/Estadão

Carille: o mecânico industrial que decidiu viver do futebol e ajudar ao próximo

Técnico do Corinthians coleciona amigos e benfeitorias por onde passa

Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

05 Fevereiro 2017 | 06h00

Fábio Carille poderia estar neste momento, arrumando ou mantendo o funcionamento de uma máquina em alguma fábrica, mas preferiu jogar tudo para o alto em busca do sonho de viver do futebol. Após uma carreira de futebol sem grandes feitos, seguiu a carreira de técnico e hoje ocupa o cargo de treinador do Corinthians. Em meio ao enorme crescimento profissional, jamais deixou de ajudar ao próximo e ser referência para os amigos e familiares.

O Estado visitou a cidade de Sertãozinho, local onde Carille viveu parte da infância com a família. "Ele não queria vir, porque achava que ficaria para trás na busca por ser jogador de futebol", lembra o pai do treinador, Joaquim. A reportagem ouviu várias histórias de solidariedade do treinador, que nasceu em São Paulo e desde criança já mostrou que seu destino estava ligado ao futebol.

"Eu esperava que algo acontecesse, porque desde moleque ele sempre se interessou muito pelo futebol e não brincava de outra coisa. Não imaginei que um dia ele chegaria ao Corinthians, mas esperava ver crescê-lo no futebol", contou Joaquim. Nas conversas com familiares e amigos do treinador, o que mais se ouve são histórias em que ele demonstra companheirismo e fraternidade até mesmo com quem ele nem conhece.

Carille tem uma coleção de benfeitorias. Dentre outras, já doou prótese e sonda para uma criança, comprou um aparelho contra surdez para uma vizinha, dentre dezenas de camisas do Corinthians para leilão, muitas delas que ele comprou para ajudar instituições. "Ele já doou camisa para ajudar morador de rua também", conta, orgulhosa, dona Vanda, mãe do treinador. 

Corintiano desde criança, Carille já demonstrava solidariedade ainda nos tempos de jogador. "O Fábio levou o Fabiano, um atacante que passou pelo Inter, para a nossa casa, quando os dois eram garotos, porque ele não tinha onde ficar", lembra Joaquim. "No fim do ano, ele não almoçou um dia sequer na minha casa, porque sempre teve que ir na casa de alguém", contou a mãe. 

A bondade do treinador deixava dona Vanda em uma situação constrangedora em alguns momentos. "O Fábio tinha mania de levar um monte de gente em casa e muitas vezes fazia isso sem avisar. Então, chegava aquele monte de gente e não tinha 'mistura' para todo mundo. Eu tinha que fritar ovo para os meninos e depois eles ficaram bravos, porque falavam que eu gostava mais de um do que do outro", conta, sorrindo, a mãe do comandante corintiano. 

Na infância, quem sofria com o fanatismo de Fábio pelo futebol eram suas irmãs, Fabiana, de 39 anos, e Flávia, de 34. Ele tem 43. "Eu tinha que brincar de futebol com ele, porque era a única coisa que ele brincava. O Fábio me colocava no gol e eu tinha que defender. Ou melhor, eu tinha que me defender", lembra Fabiana, aos risos.

Apesar da reclamação, as duas irmãs abrem um sorriso de orelha a orelha quando falam do mais velho e contam com orgulho. "Ele pagou a minha faculdade e a da minha irmã e sempre falava que fazia questão de fazer isso", contou a jornalista Flávia, com os olhos cheios de lágrimas, ao lado de Fabiana, formada em Matemática.

Dino Pontes foi o primeiro chefe de Carille. Quando ele tinha apenas 12 anos, trabalhou como office boy na empresa do amigo, que veio a se tornar seu padrinho de casamento. O empresário ainda o ajuda a "se esconder" quando vai para Sertãozinho. 

O treinador é muito reservado e tenta, algumas vezes, viver uma vida de pessoa anônima, sem que sua popularidade o impeça de fazer ações comuns. Dino lembra que no ano passado, Carille tentou ir em uma quermesse em Sertãozinho e pediu para o amigo reservar uma mesa no fundo da festa, para não ser notado. 

O problema é que outras pessoas ocuparam o lugar e o técnico teve que sentar mais à frente e não conseguiu curtir a festa. "Ele virou o centro das atenções e teve que deixar o local uns três minutos e foi embora", lembrou Dino. 

Mas Carille também tem suas manias. Uma delas é a pontualidade e o fato de não aceitar atrasos. "Ele é que nem meu pai, chato com os horários. Nas festas de crianças, a gente sempre era um dos primeiros a chegar", lembra Flávia. "Eu sou o contrário. Sempre chego atrasado e o Fábio fica bravo comigo", conta Fabiana.

Ele também é muito reservado e não gosta que fiquem perguntando sobre sua vida pessoal. "Eu sou xereta, mas depois dele reclamar, a gente se fala por telefone e é só 'oi' e 'tchau', porque ele não deixa eu perguntar nada", conta Vanda. "No fim do ano passado, ele me levou para São Paulo, chegamos na casa dele e vi que ele foi se arrumar. Eu achando que a gente ia sair para tudo quanto é canto, que ele iria me levar para vários pontos da cidade, quando ele apareceu e disse que estava indo para o Corinthians, pois seria o novo técnico da equipe. E eu não sabia de nada!", conta, surpresa, a mãe do goleiro. 

Assim, essa figura peculiar é Fábio Carille. Um homem bondoso, de personalidade e reservado. Que sonha alto e suas aspirações são dividas entre os amigos. "Você veio aqui para falar sobre o técnico do Corinthians. Quem sabe um dia venha para contar sobre o Fábio, técnico da seleção brasileira, né? Vamos torcer", disse Dino. 

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