Lucas Figueiredo/CBF
Lucas Figueiredo/CBF

Carta de patrocinadores da CBF aumenta pressão na semana de votação das federações do caso Caboclo

Reunião nesta quarta, na qual a Comissão de Ética tornará pública a conclusão da investigação de três meses sobre a conduta do presidente acusado de assédio moral e sexual, vai definir futuro do dirigente e do futebol brasileiro

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2021 | 10h00

Na semana em que o presidente afastado da CBF Rogério Caboclo terá seu destino definido em reunião da Assembleia Geral na qual membros independentes da Comissão de Ética vão tornar público a conclusão da investigação de três meses sobre a conduta do dirigente, acusado de assédio moral e sexual contra uma funcionária da entidade, um assunto monopoliza as discussões dos representantes das 27 federações estaduais de futebol, dos vice-presidentes e dos colaboradores do andar de cima da sede da instituição na Barra da Tijuca: a pressão dos patrocinadores ligados à entidade, cujo investimento anual está na casa dos R$ 320 milhões, isso sem contar a toda-poderosa Nike, que espera o desfecho das apurações e seu encaminhamento para tomar decisões.

A empresa de material esportivo eleva o capital da CBF para perto dos R$ 500 milhões, repartidos em dinheiro e uniformes para as seleções, como aqueles que foram mostrados pelo time campeão olímpico em Tóquio, provocando, inclusive, problemas com o Comitê Olímpico do Brasil (COB), que tinha outro fornecedor 'escondido na cintura' dos jogadores.

Todos os participantes da reunião desta quarta-feira na sede da CBF vão ter em mãos uma carta oficial dos patrocinadores da entidade sobre o caso. O documento, que alguns já tiveram acesso durante o processo de investigação da conduta de Caboclo, chamado apenas de 'senhor' pelos signatários da nota, foi endereçado ao atual comandante da entidade, Antonio Carlos Nunes de Lima, o Coronel Nunes. Uma funcionária da CBF protocolou em junho uma acusação de assédio moral e sexual contra o presidente Rogério Caboclo. A denúncia foi formalizada perante a Comissão de Ética do Futebol Brasileiro, que passou a investigar os fatos. A mulher, cujo nome está sendo preservado, mostrou gravações das condutas abusivas do dirigente desde abril de 2020. Ele foi afastado antes da Copa América.

Representantes de marcas como Gol, Vivo, Mastercard, Ambev, Farmácias Pague Menos, Semp TCL, Itaú e Cimed pontuam o compromisso que suas empresas têm com a sociedade e suas mudanças no sentido de uma maior inclusão social, esforço para combater o assédio nas repartições e tornar as comunidades mais justas e igualitárias. A pressão não para por aí. As empresas que estão vinculadas à CBF lembram que elas também esperam de seus parceiros atitudes semelhantes no sentido de favorecer as minorias e respeitar as mulheres em ações que tornam o mundo melhor para elas.

Nunca antes os patrocinadores da CBF precisaram se reunir para um posicionamento tão forte, deixando claro suas posições como companhias importantes do País que apoiam o futebol brasileiro conduzido pela entidade. A cobrança não diz respeito somente ao que pode acontecer com o presidente Caboclo, cuja sentença do Comitê de Ética pode ser aceita pelos membros das federações ou não. "Nós estamos cientes e preocupados com as sérias alegações. Continuaremos acompanhando a situação, esperamos que as investigações sejam profundas e rápidas", posicionou-se a Mastercard no começo das investigações. Mesma posição da Ambev. "Manifestamos nossa profunda preocupação com os relatos divulgados, pois reportam práticas que não toleramos. Seguimos atentos à apuração do caso e esperamos uma análise com a seriedade e rapidez que a situação requer."

Para que a conclusão das investigações com pena sugerida seja efetivamente levada a cabo, de acordo com o próprio estatuto da CBF, ela precisa ser aceita, em votação fechada, por pelo menos 21 dos 27 presidentes regionais, ou seja, 2/3 dos convocados para a Assembleia Geral. Uma vez votada, a pena é aplicada imediatamente. Ela pode ser branda, como advertência; mais dura como afastamento ou veto de retorno às funções esportivas; e pode ainda ser mais pesada, como o banimento do futebol. Há ainda a questão de a acusação ser aceita pela Justiça e parar nos tribunais, uma vez que assédio é crime no Brasil. Nesse caso, a denúncia sai da esfera esportiva e passa a ser investigada na esfera criminal.

A carta dos patrocinadores da CBF terá peso importante na decisão dos presidentes das federações. Todos eles sabem o que significa a participação dessas empresas na estrutura do futebol brasileiros, não somente da seleção comandada por Tite, mas de todas as divisões e campeonatos organizados pela CBF, como Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro das Séries A, B, C e D. Não seria demais supor que sem o dinheiro de seus parceiros, a CBF teria sérios problemas para sobreviver por um ano, mesmo a despeito de ter registrado lucro nas últimas temporadas.

A CBF registrou receita e investimento recordes em 2019, por exemplo. A receita total foi de R$ 957 milhões, um aumento de 43,3% em relação a 2018. Este número foi alcançado, especialmente, pela elevação de três fontes de receitas da entidade: patrocínios, direitos de transmissão e comerciais e Fundo de Legado da Copa do Mundo de 2014. Mais da metade desse valor foi investido indiretamente no futebol. Dos R$ 535 milhões aplicados pela CBF em 2019, R$ 215 milhões custearam as seleções (principal, feminina e de base) e R$ 320 milhões, as competições de clubes e fomento do futebol em todos os Estados brasileiros. Somando as temporadas de 2017, 2018 e 2019, os valores chegaram a R$ 1,3 bilhão.

Os patrocinadores da CBF declaram total apoio às investigações da Comissão de Ética, que primeiramente afastou Rogério Caboclo do cargo por 30 dias e depois ampliou o prazo para três meses, de modo a ter mais autonomia para realizar o trabalho dentro da entidade, colhendo depoimentos dos envolvidos e conhecedores do caso. Neste trabalho, novas denúncias foram aparecendo. Começou com uma mulher, aumentou para uma segunda e agora há uma possível terceira. Os nomes das denunciantes são preservados.

Qualquer que seja o resultado, uma coisa é certa: ele vai respingar em todos os setores do futebol nacional, de clubes a treinadores, passando por colaboradores, federações e seus representantes até chegar aos jogadores. No corredores da CBF as vozes se misturam. Há os que defendem que o dirigente não deveria retomar sua posição, independentemente do desfecho da comissão, porque não haveria clima para uma continuidade, de modo a chamar eleições o quanto antes. Havia dois interventores na sede da CBF, Reinaldo Carneiro Bastos, da Federação Paulista, e Luiz Rodolfo Landim Machado, presidente do Flamengo. Mas não duraram muito. Mas há também, por parte dos aliados de Caboclo, aqueles que entendem que o cartola teria mais do que os sete votos que precisaria para não aprovar qualquer penalidade em relação ao caso.

Compliance

Embora seja uma entidade privada, a CBF tem compromissos com seus parceiros e também na gestão da modalidade, como cobram os patrocinadores da entidade. Isso significa ter mais cumplicidade com o que ocorre na sociedade, condições de ampliar e tornar mais transparente seu controle de governança, ética e compliance para fazer com que sua marca e a de seus apoiadores não sofram constrangimentos no mercado. Somente depois de conhecer o desfecho das investigações e os caminhos apontados pela Comissão de Ética, assim como a votação dos presidentes das federações nesta quarta, é que os patrocinadores da CBF vão se posicionar sobre o caso e sobre o futuro da relação de suas empresas com a entidade.

No começo das investigações, a Nike tornou pública sua posição. "A Nike está profundamente preocupada com as graves acusações feitas ao presidente da CBF. Seguimos acompanhando de perto a apuração do caso. Esperamos que todas as descobertas sejam acionadas rapidamente", informou a empresa em nota oficial. A fabricante de materiais esportivos suspendeu o contrato em um caso semelhante envolvendo o atacante Neymar. O rompimento foi decidido depois que o jogador da seleção e do PSG não colaborou com as investigações do caso, que teria acontecido em 2016. Segundo o jornal Wall Street Journal, que revelou o episódio, o contrato do atleta com a Nike tinha mais oito anos de duração quando foi encerrado, em setembro do ano passado. 

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