Alex Silva/Estadão
Bruno Loska já gastou mais de R$ 1500 com o Cartola neste ano Alex Silva/Estadão

'Cartoleiros' se multiplicam e celebram até gol dos rivais

Febre no País, fantasy game faz as pessoas deixarem de lado o time de coração e gastarem muito dinheiro para se divertir

Ciro Campos, Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2017 | 17h00

Já se tornou um hábito, onde quer que você esteja, ao sair o gol de qualquer time em jogos válidos pelo Campeonato Brasileiro, ouvir alguém gritar: ‘Gol do Cartola’. O jogo se tornou uma febre em todo o País e mudou até o pensamento de alguns torcedores, que deixam de lado o sentimento pelos clubes do coração ou aproveitam para criar uma fonte extra de renda naquilo que era para ser apenas uma brincadeira.

Cartola FC é um fantasy game criado pelo site Globoesporte.com para o Campeonato Brasileiro da Série A. A plataforma permite aos internautas montarem os times a cada rodada com jogadores que consideram ser os possíveis destaques das partidas. Os atletas têm um preço fictício fixado e recebem pontuações de acordo com os desempenhos reais.

A brincadeira possibilita ao participante medir forças com amigos em campeonatos personalizados em formato de pontos corridos ou mata-mata. Para pontuar bem a cada rodada, há quem adote a tática do vale-tudo, inclusive apostar nos adversários do próprio time ou em rivais.

Um deles é o psicólogo Ronny Rodrigues de Queiroz, de 32 anos. São-paulino, não hesita antes de escalar alguém que irá enfrentar seu time de coração. “Como sei que o São Paulo leva bastante gol, coloco atacante que vai enfrentar meu time e acabo dando sorte”, disse o torcedor.

Mas engana-se quem pensa que Ronny e tantos outros comemoram derrota do time de coração. “Na rodada passada, coloquei o Guerrero. Ele fez gol e não comemorei. Só fiquei menos bravo”, brincou.

Para alguns torcedores, escalar o Cartola é quase como um ritual. Alguns anotam na folha cada jogo, prognósticos e apostas. Outros monitoram informações, para saber quem vai jogar e fazer mudanças na escalação. “Gosto de acompanhar a rodada da Libertadores, para já planejar quem pode entrar na rodada”, explicou Ronny.

A competitividade das disputas tem feito os ‘cartoleiros’, como são chamados os participantes, apostarem alto. Alguns investem pesado e até conseguem uma renda extra.

O empresário Bruno Loska, de 31 anos, por exemplo, ganhou no ano passado cerca de R$ 1,6 mil. Atualmente, participa de cinco ligas, desembolsou pelo menos R$ 1,5 mil, mas já recuperou R$ 910. “A mais complicada de todas é uma que a gente paga R$ 20 por rodada”, conta o empresário são-paulino. 

Ele ainda participa de ligas mata-mata e a premiação não se resume apenas em dinheiro. “Temos uma liga de amigos que jogam bola e o vencedor ganha um agasalho”, contou. A premiação e pagamento das ligas geralmente são feitos em churrasco com amigos.

Loska aderiu ao Cartola por ser fã de apostas e já convenceu a mulher a participar. “Coloquei ela em uma liga de R$ 60 só para ir pegando gosto. O engraçado é que a liga tem só homem e eles ficam bravos, porque ela vai bem e acaba ficando à frente várias vezes”, contou, em relação ao preconceito dos amigos. 

Legião. O jogo existe desde 2005 e nos últimos anos teve crescimento exponencial. Segundo dados do site Globoesporte.com, até 2015 o recorde de times escalados foi de 1,7 milhão. Esse número foi facilmente batido nos anos seguintes. A marca chegou a quase 4 milhões no ano passado e neste ano, após sucessivas quebras, bateu em 5,7 milhões de times escalados na última rodada.

Para dar conta dessa demanda, o site tem investido em equipe e em novidades. Três pessoas acompanham cada partida e são encarregadas de aferir as pontuações. Há também uma equipe de controle de qualidade para checar os lances duvidosos. “A equipe faz ainda um trabalho de escuta social e revê lances que estão sendo discutidos no Facebook e no Twitter. Temos uma enorme preocupação em sermos justos e trabalhamos para que as pontuações não tenham erros”, disse o diretor do site, Gustavo Poli.

Nesta temporada já foram criados 7 milhões de times, dos quais mais de 300 mil são de usuários pagos. Essa modalidade, criada no último ano, permite aos jogadores participarem de mais competições e concorrerem a prêmios exclusivos de uma liga premiada. A taxa anual para participar é de R$ 39,90.

A própria TV Globo também passou a divulgar mais o produto nos últimos anos, ao citar o jogo nas transmissões das partidas e nos programas jornalísticos. O sucesso faz os organizadores planejarem ainda para este ano uma nova versão do aplicativo do Cartola. “Sempre ouvimos a comunidade ‘cartoleira’ antes de tomar decisões. Foi assim que criamos as ligas mata-mata, que hoje são um sucesso”, afirmou Poli.

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Atletas viram vítimas dos torcedores

Atletas tratam o Cartola como tabu e são cobrados por não pontuarem bem, mesmo o time vencendo o jogo

Ciro Campos, Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2017 | 16h59

Adorado por torcedores, o Cartola é motivo de muita polêmica entre os jogadores que disputam a Série A do Campeonato Brasileiro. Alguns gostam, mas a maioria não quer nem ouvir falar e tratam o assunto como uma espécie de tabu.

O Estado conversou com alguns jogadores, mas nenhum deles aceitou se expor e admitir publicamente que não gosta do jogo. “É complicado você jogar bem e depois saber que fez uma pontuação ruim”, reclama um atleta, que já foi vítima de muitos xingamentos em redes sociais por causa de uma má pontuação no jogo.

“A gente ganha e vem torcedor xingar e te cobrar o motivo de você não ter ido bem no Cartola. Pô, vai comemorar a vitória do time”, desabafou um lateral-direito que não está entre os melhores pontuadores do jogo. “Isso é pior do que ficar recebendo nota de jornal ou site por atuação”, completou. 

Uma vítima das críticas por má pontuação e que virou notícia foi o meia Alejandro Guerra, do Palmeiras. No jogo contra o Atlético-GO, dia 21 de junho, o venezuelano foi um dos melhores em campo, mas teve pontuação negativa no jogo. Em suas redes sociais, sofreu uma enxurrada de xingamentos, pois foi um dos atletas mais escalados naquela rodada.

O zagueiro Tiago, do Bahia, também foi vítima do ódio virtual por uma má atuação no game, mas não deixou barato e xingou o torcedor que o criticou. Esses são alguns dos casos em que atletas tiveram que ler críticas por seu desempenho no Cartola e não na partida.

A divergência entre uma boa atuação e má pontuação se dá pela questão matemática. O jogo usa como parâmetro para pontuação fundamentos do futebol como passes certos, finalizações, roubadas de bola e também por disciplina – faltas cometidas, cartões amarelos e vermelhos.

A maioria dos atletas não gosta da dinâmica do jogo, mas existe quem aprove. Um deles é o lateral-direito Victor Ferraz, que não só joga como gosta de comentar com os companheiros sobre o desempenho deles.

Existem ainda alguns casos curiosos. O atacante João Paulo, do Bahia, saiu do banco de reservas para marcar um dos gols da derrota por 4 a 2 para o Palmeiras e teve uma das maiores pontuações da rodada. Sorte de uma pessoa, que foi a única a escalá-lo.

Já um meia, que pediu para não ser identificado, chegou em casa feliz por ter vencido uma partida complicada e antes de qualquer coisa ouviu do irmão uma reclamação. “Ele falou que eu deveria ter chutado ao gol em vez de cruzar para o meu companheiro fazer o gol, pois assim ele faria mais ponto e ganharia do amigo dele no Cartola. Fiquei muito bravo”, disse o jogador. 

Enquanto quem está no jogo se irrita, alguns sonham estar lá. “Se tudo der certo, ano que vem será nossa vez de ser ‘cornetado’ pelos torcedores”, disse um atleta do Guarani.

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Depoimento: ‘É preciso compreender como se pontua, não só entender de futebol’

Thiago Freitas ganhou seguidores nas redes sociais após título nacional no ano passado e agora dá dicas para outros 'cartoleiros'

Thiago Freitas, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2017 | 16h59

Ter sido o campeão brasileiro do Cartola no ano passado mudou bastante a minha vida. Eu ganhei seguidores nas redes sociais para acompanhar minhas dicas para o jogo. Agora é um hobby, mas no futuro penso até em seguir trabalhando de vez com isso, seja como blogueiro ou comentarista de futebol. Nunca tinha vivido uma repercussão parecida.

Antes de cada rodada eu faço um vídeo no meu blog sobre as apostas para montagem do time e algumas dicas. Tenho em média 300 mil visualizações para cada vídeo. Na minha página do Facebook tenho 30 mil seguidores e no meu Instagram são 14 mil. Realmente tem cada vez mais gente interessada em jogar.

No ano passado eu me consagrei o campeão nacional sem ter sido o melhor em nenhuma rodada. A chave para mim foi a regularidade. Somente no fim do campeonato eu assumi a liderança, mas nunca esperei que pudesse ir tão bem.

Um dos segredos para ter boa pontuação é entender o jogo, não só de futebol. É preciso saber como funciona as pontuações e buscar observar nas partidas os laterais que atacam bastante, os atacantes que finalizam mais e as características positivas de cada posição. 

Quando vejo os jogos pela televisão, eu tento observar esses detalhes e entender os motivos que levam um determinado jogador a pontuar. O que me ajudou também é que jogo o Cartola desde 2009, então a prática me fez melhorar bastante.

Thiago Freitas, advogado e campeão do Cartola FC 2016. Atualmente atualiza páginas com dicas para o jogo no Facebook, Twitter e Instagram

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