Arnd Wiegmann / Reuters
Arnd Wiegmann / Reuters

CAS diz que Valcke garantiu acordo milionário para filho no Rio durante a Copa de 2014

Francês era dirigente da Fifa e também agiu para que ingressos da Copa do Mundo fossem vendidos no mercados negro

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2018 | 12h54

Principal responsável na Fifa pela organização da Copa do Mundo de 2014, Jérôme Valcke operou nos bastidores para que seu filho conseguisse comissões de R$ 2,8 milhões para montar um stand na praia de Copacabana durante o torneio. Os detalhes do caso fazem parte dos documentos da Corte Arbitral dos Esportes (CAS, na sigla em inglês) que revelam ações do ex-secretário-geral da Fifa, afastado depois de o Estado e outros jornais revelarem como ele negociou entradas para jogos da Copa de 2014 com redes de cambistas.

Demitido e banido do futebol, Valcke recorreu à CAS, em Lausanne, mas seu recurso foi rejeitado. De acordo com o tribunal, ele "usou sua posição dentro da Fifa para ajudar seu filho a obter remuneração de parceiros comerciais da Fifa".

Em 8 de julho de 2013, Valcke, o então diretor de marketing da Fifa, Thierry Weil, e o filho do cartola, Sébastian Valcke, viajaram até a cidade de Manchester, na Inglaterra, para um encontro na sede da empresa EON Reality Inc., especializada em realidade virtual. De acordo com os documentos da CAS, Valcke mantinha relação com a empresa especializada em fazer hologramas.

"Naquela reunião, EON apresentou uma nova tecnologia que poderia ser usada na Fan Fest da Fifa no Rio de Janeiro durante a Copa", informa o documento. O holograma, em questão, era da taça da Copa do Mundo, que acabou atraindo milhares de pessoas para a praia de Copacabana.

Weil, em depoimento, disse que a ideia da reunião veio de Valcke, "com base numa proposta de seu filho". "Jérôme veio a mim e disse que seu filho tinha uma empresa que fazia algo realmente especial que seria completamente novo e não tinha sido visto antes", disse Weil. "Isso poderia ser de interesse da Fifa", completou. Segundo ele, Valcke sugeriu que os dois fossem até a Inglaterra visitar a empresa.

Depois do encontro, a equipe de Weil manteve as negociações com a EON, em nome da Fifa. Em 16 de janeiro de 2014, um contrato de serviço foi assinado entre a empresa e a organização esportiva. Os documentos revelam como Valcke se envolveu diretamente para garantir o contrato a seu filho. Em vários e-mails, ele "aconselhei seu filho sobre como conduzir as negociações (com a Fifa) e negociar sua posição com a EON". Valcke, como secretário-geral da Fifa, era o responsável por organizar a Copa no Brasil, o que também incluía a Fan Fest.

Em 18 de julho de 2013, por exemplo, Valcke escreveu para seu filho a fim de orientar como deveria ser o contrato de Sebastien com a empresa. Dez dias depois, o contrato estava assinado. Em 28 de agosto, Valcke enviaria ao filho uma lista de itens que teriam de ser realizados para que projeto avançasse.

Em 27 de outubro de 2013, Sébastien escreveria a seu pai contando a conversa que teve com o presidente da EON, Lejerskar. Se ele convencesse a Fifa a assinar o contrato, seria compensando em um primeiro momento por US$ 709 mil (R$ 2,887 milhões, na cotação atual).

Valcke então orientou seu filho sobre quem ele deveria contactar dentro da Fifa para fechar o acordo. "Entre com contato com Thierry (Weil). Diga que você explicará a ele as novas condições de um acordo com a Fifa", escreveu. "No dia 4 de novembro de 2013, Sébastien Valcke enviou um e-mail a seu pai para dizer que a Fifa havia respondido positivamente e que pediria que Weil enviasse o contrato de serviço FIFA-EON para ser assinado", relata o documento.

Dez dias depois, Valcke enviaria outro e-mail a Weil perguntando se ele iria finalizar o acordo com seu filho. "Weil imediatamente respondeu que a Fifa enviaria o acordo no mesmo dia", indicou o documento, que aponta que o pai ainda enviaria a informação a seu filho.

Em 16 de janeiro de 2014, EON e a Fifa assinaram um acordo de serviços e, no dia 13 de fevereiro de 2014, a Fifa pagou para a EON US$ 709 mil, exatamente o valor da comissão do filho de Valcke. O caso ainda revela como Valcke agiu nos bastidores para garantir ingressos no mercado negro e ainda fez a Fifa gastar mais de US$ 11 milhões (R$ 44,8 milhões) em jatos privados em três anos para suas viagens e de sua família. As viagens incluíram destinos como o Taj Mahal, na Índia, e encontros com o emir do Catar.

MALA

Os documentos ainda tratam do escândalo revelado pelo Estado sobre a venda de entradas para a Copa de 2014, no Brasil. Valcke teria fechado um entendimento com o empresário Benny Alon, responsável por vendas de ingressos. Pelo acordo, Valcke ficaria com US$ 2 milhões, metade do faturamento que Alon conseguiria ao colocar entradas no mercado negro e com a autorização da Fifa. 

De acordo com depoimentos ao Ministério Público da Suíça, Alon indicou que se reuniu com Valcke e que houve um acordo sobre quais jogos do Mundial seriam alvos da venda paralela. O empresário ficaria com 50% da renda e o restante iria ao ex-cartola.

“Eu o sugeri nos dar todos os jogos do Brasil”, contou Alon, que também pediu outras partidas totalizando mais de 8 mil entradas no mercado negro. “Em troca, Valcke negociou para si mesmo 50% de participação na renda das entradas para doze jogos”, disse. Valcke admitiu que a proposta lhe foi apresentada. Mas garante que “jamais a aceitou”. 

No dia 3 de abril de 2013, Valcke e Alon trocaram mensagem sobre um encontro em Zurique quando o dinheiro seria entregue ao francês. Por conta de outros compromissos, a reunião jamais conseguiu ser realizada. Mas o empresário enviou ao ex-cartola uma foto da mala onde estariam US$ 500 mil como um adiantamento. 

A mala escolhida vinha com uma imagem de uma Ferrari, carro de Valcke, e uma bandeira da França, país do dirigente. Para falar do dinheiro, a palavra usada era “documento”. 

“Coloque-os em algum lugar. Numa eventual corrida para a presidência, eu não os posso olhar até que tome uma decisão sobre meu futuro”, escreveu Valcke. Alon responderia: “ele vai crescer à medida que chegarmos perto dos jogos”.

O dinheiro jamais seria entregue e o entendimento foi cancelado depois de vários meses. Valcke alegou diante da corte que não entendia a palavra “documentos” como dinheiro, mas sim como evidências de um acordo secreto que envolvia ainda a Copa de 2006. Naquela ocasião, Alon teria ameaçado a Fifa com um escândalo se ele não fosse aceito num novo entendimento para a venda de entradas. Seu silêncio foi comprado com um novo contrato. 

O CAS afirmou não ter ficado convencido da versão de Valcke, principalmente por conta dos termos usados nos emails. Num deles, Valcke diz que os “documentos são minha aposentadoria”. Noutro, o empresário indicava que, quanto mais se aproximava da Copa, “maior” seriam os “documentos”, numa alusão ao dinheiro gerado. Para completar, o próprio Alon escreve que aquilo renderia mais que a Bolsa de Nova Iorque. 

 

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