Rafael Arbex/ Estadão
Ex-jogador Walter Casagrande, lança o livro "Socrates e Casagrande - Uma historia de amor" Rafael Arbex/ Estadão

Casagrande se 'reencontra' com Sócrates na Praça das Corujas e relata conversa imaginária em livro

'Sócrates & Casagrande, uma história de amor' conta a parceria da dupla no futebol e na vida e alivia o coração do centroavante sobre assuntos não ditos ao amigo que ficaram para trás

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2016 | 07h00

'Sócrates & Casagrande, uma história de amor' não é um livro de futebol. É um livro de amor, amizade, carinho entre dois homens de gerações diferentes, um mais novo, outro mais velho, ligados pela política do Brasil, Diretas Já e Democracia Corintiana, que extrapolou as tabelinhas dentro da área e os gols, muitos gols, no Corinthians.

A foto da capa em que estão lado a lado num treino no Parque São Jorge é do Estadão. Para Casagrande, ela capta o que seria a amizade de ambos já no primeiro ano juntos, em 1982. "É um espelho de duas pessoas numa só, separadas por uma diferença de idade de quase dez anos. Eu queria ser o Sócrates em muitos momentos e sei que ele também queria ser o Casagrande algumas vezes, mais novo, irreverente, irresponsável. E eu atrás da sua maturidade", conta Casagrande ao Estadão, em seu apartamento em São Paulo, óculos escuros, ao lado de inúmeras camisas de clubes e de alguns quadros de seu começo de carreira. "Não é uma história de futebol. É uma história de amor, de mágoa, afastamento, saudade, de um relacionamento intenso e de muitas coisas que não foram ditas."

O livro é o segundo assinado pelo comentarista de futebol da Rede Globo, em parceria com o jornalista Gilvan Ribeiro. O primeiro, 'Casagrande e Seus Demônios', perto de 100 mil exemplares vendidos, trouxe à tona o envolvimento do ex-atacante com as drogas, suas internações e distanciamento dos familiares até a quase morte por overdose, além, claro, de sua recuperação. Nesse segundo trabalho, Casão trata de seu amor por Sócrates, das desavenças entre ambos que custou um afastamento por anos (não sabe precisar), com mágoas dos dois lados, mas sobretudo de sua necessidade de retomar o laço afetivo e conversas que ficaram para trás. "Havia muito a ser dito". A morte de Sócrates em 2011 abreviou tudo. 

Por isso, Casagrande escreveu 'Papo de Louco', o último capítulo de 'Sócrates & Casagrande'. "Pensei nesta conversa no primeiro dia da intenção desse livro. Queria simular um diálogo com ele, de coisas que queria falar e não consegui. Éramos dependentes químicos. Eu das drogas, ele do álcool. Eu tinha várias dúvidas. Queria falar com ele, questioná-lo, ouvi-lo. Passei uma fase muito crítica, de destruição, e me trato até hoje. O Magrão não conseguiu chegar a esse ponto. Eu queria dizer a ele: 'pó, Magrão, para com a bebida'. Ele tinha de ver o que aconteceu comigo e mudar, parar, mas sei que era feliz daquele jeito. O problema é que estava fazendo mal a ele próprio e não percebeu isso. Fico puto! Ele morreu por causa dessa dependência."

A conversa imaginária de Casagrande com Sócrates aconteceu na Praça das Corujas, pertinho de sua casa, num dia de insônia em que maritacas barulhentas o impedia de dormir. Ele jura que o diálogo "aconteceu, que iria acontecer e que eles precisavam falar um para o outro aquelas coisas. A bate-papo girou em torno de futebol, Copa de 1982, do buraco que ela abriu no peito do Magrão, de suas vidas, desavenças, da política atual do País, de Lula e de seu envolvimento nas apurações da Lava Jato e até de como é a vida 'do outro lado'. 'Eu te amo' é falado e escrito algumas vezes, de Casão para Sócrates e de Sócrates para o 'Big House', como Magrão o chamava. 

FILHO DE SÓCRATES

O livro trata de momentos importantes na vida de ambos e traz a revelação de um possível filho de Sócrates numa noite de aventura com uma mulata chamada Raimunda. O garoto tem 35 anos e tenta saber por meio de exame de DNA se é mesmo filho de Sócrates Brasileiro. "Uma paixão sem rima e sem solução", escreve o autor sobre o tema. "O caso ficou soterrado pelo tempo e somente após sua morte, em 4 de dezembro de 2011, o suposto descendente resolveu tirar a história a limpo". Gilvan Ribeiro diz que Casagrande ficou sabendo dessa história pela apuração do autor. Raimunda era empregada doméstica e não ficou com a criança. Nem Sócrates. Adotado, o menino ganhou o nome de Fernando Verzimiase Martinez. Essa e outras histórias prendem o leitor nas aventuras desses dois personagens do futebol brasileiro.

'Sócrates & Casagrande, uma história de amor' será lançado dia 12 de julho, na Fnac da Paulista, a partir das 19h, em São Paulo. Dia 26, Casagrande estará em Ribeirão Preto, onde Sócrates foi enterrado, para novo evento da editora. "Vou visitar o Magrão no cemitério. Fui no túmulo do Jim Morrison, do The Doors, e agora vou no do Sócrates." 

FICHA DO LIVRO

Título: Sócrates & Casagrande, uma história de amor

Autores: Walter Casagrande Jr. e Gilvan Ribeiro

Gênero: Biografia

Páginas: 376

Formato: 23cm

ISBN: 978.8525061768

Preço: R$ 39,90

Tiragem: 30 mil exemplares

Editora: Globo Livros

LANÇAMENTOS

12/7 - 19hs - Fnac Paulista -Avenida Paulista 901

16/7 – 11hs - Memorial do Corinthians – Parque São Jorge 

19/7 – 19hs - Saraiva do Shopping Rio Sul (Av. Lauro Muller, 116) – Botafogo – Rio de Janeiro

26/7 – 19h30 - Ribeirão Preto – Saraiva – Cineclube Cauim – Rua São Sebastião, 920 – Ribeirão Preto – SP. 

 

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Casão conta sua relação com Sócrates e o fato de ele não admitir a dependência em álcool

Ex-jogador não vê mais parceria no futebol como a sua com Magrão

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2016 | 07h00

Em seu apartamento no Alto de Pinheiros, em São Paulo, Casagrande recebeu a equipe de reportagem do Estadão para uma conversa sobre seu mais novo trabalho, o livro que trata de seu 'amor' por Sócrates, morto em 2011. Na entrada do apartamento, um tapete de boas vindas com várias caras de John Lennon 'informava' que estávamos no andar certo. Casão sempre foi do rock. Nossa conversa teve exatos 38 minutos, no sofá, em que o comentarista da Rede Globo expôs seus medos, mágoas, dúvidas e todo o amor que ainda sente pelo companheiro. Mas também boa dose de ressentimento por não ter conseguido fazer Magrão entender a sua dependência química. O livro 'Sócrates & Casagrande, uma história de amor' chega para curar ou ao menos aliviar essa ferida.

O que significa o subtítulo do livro: uma história de amor?

Nós ficamos pensando no título. Pensando, pensando até o Gilvan falar que era uma história de amor. É isso. É uma história de amor de parceiros de campo, de amizade, afastamento, saudade, de um pouco de mágoa. Foi um relacionamento o que tivemos dentro e fora de campo.

Fala dessa conversa imaginária com o Magrão. Me pareceu que era você conversando com você mesmo.

Eu pensei nesse capítulo no primeiro dia que imaginei o livro. Na mesma hora da ideia de fazer o livro, pensei nessa conversa com o Sócrates. Você acertou. Tinha várias dúvidas e vontades e algumas coisas eu queria falar para ele e não consegui por ele morreu antes. Na parte da saúde, somos dependentes químicos, tanto eu quanto ele. Todos os prazeres que a droga me tirava, eu tenho hoje. O Magrão não conseguiu chegar a esse ponto. E não deu tempo de poder ajudá-lo. Mas queria dizer a ele que ele deveria ter percebido o que aconteceu comigo. Meu problema com as drogas foi antes do problema dele. Ele tinha de pensar em rever o seu comportamento. Ver o que aconteceu comigo... Eu esperava mais dele nesse sentido, talvez seja uma cobrança injusta da minha parte. Mas ele tinha de ver o que aconteceu comigo. Ele era médico, pô! E morreu por causa da dependência química. Quando ele morreu,  pensei 'poderia ser comigo'. Nessa conversa imaginária, ele me diz isso.

O Sócrates fez uma carta de amor baseado no seu amor pela Mônica, sua ex-mulher...

Viajamos para o Japão com o Corinthians e quando cheguei lá, pedi para voltar. Não conseguia me concentrar longe dela. Gastei todo o meu dinheiro de diária ligando para ela. Duas vezes por dia. E insisti para voltar. Teve a reunião do grupo, da Democracia Corintiana, para votar se eu deveria deixar ou não o elenco. Perdia a votação e voltava a pedir para ir embora. Aquilo marcou para o Magrão. Ele se indentificou muito com aquilo, de você querer uma coisa com amor. E era amor mesmo. Ele gostaria de ter aquele comportamento, mas era mais maduro. Voltar para uma paixão era o que ele mais queria na vida. Fazer as coisas por amor era o que ele mais queria. Ele achou aquilo o máximo.

Há um substituto para o Magrão na sua vida?

Eu tive um amigo que já era uma parceria, que estava crescendo e ficando potente, que era com o Marcelo Fromer, dos Titãs. Nos víamos todos os dias. Inventamos um programa de rádio, que era falar de futebol e música na FM. O Marcelo só queria saber de futebol e eu só queria saber dos Titãs. Fizemos na 89 FM. Ele faria meu primeiro livro. Tínhamos 12 fitas gravadas. Aí teve a morte dele e foi um impacto tremendo para mim, fique depressivo demais. Foram perdas em momentos diferentes. Quando o Sócrates morreu, eu estava mais forte, mais preparado, mais sólido, equilibrado. No caso do Marcelo, era uma época em que estava me destruindo nas drogas.

Você vê amizade parecida como a sua e o Sócrates atualmente no futebol?

Não vejo. Vejo muita parceria de músicos e atletas, pagodeiros e parceiros, mas não se vê conteúdo nisso, uma simbiose natural. Não vejo. 

Pode me explicar a foto da capa e da contracapa do livro?

A da capa é em um treino do Corinthians. Todos os jogadores estavam nesta posição. O fotógrafo, que era do Estadão, pegou esse momento, uma foto com leveza, poesia. É uma pessoa só. Um é adolescente e o outro é mais maduro, mas trata-se de uma pessoa só. Uma pessoa montada em duas. Na foto da contracapa, o que nos diferencia são os números da camisa, um é 8 e o outro é 9. Ele pegou na minha mão após a final de 1982, contra o São Paulo, em que ganhamos, e foi me mostrar para a torcida. Queria que a torcida me aplaudisse porque tinha sido um dos melhores da temporada. Esse era o Magrão.

Você esperava que ele te ajudasse com as drogas?

Não. Não esperava. Eu sei que ele me ajudava espiritualmente. Não precisava me ajudar com ações. Sei que ele me ajudava de outra forma.

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