Ricardo Chaves
Coligay foi a primeira torcida homossexual do Brasil Ricardo Chaves

Coligay foi a primeira torcida homossexual do Brasil Ricardo Chaves

Casamento gay no Gre-Nal resgata presença LGBT nos estádios; relembre a pioneira Coligay

No fim de semana, torcedoras se casaram no estádio do Grêmio, clube que teve primeira torcida gay do Brasil

Gonçalo Junior , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Coligay foi a primeira torcida homossexual do Brasil Ricardo Chaves

No último domingo, as torcedoras gremistas Nicolli e Juliana protagonizaram uma cena inédita na Arena do Grêmio no intervalo do Gre-Nal: o pedido de casamento entre um casal homoafetivo. A cena sublinha a presença de torcedores LGBT nos estádios brasileiros. No próximo domingo, o Estado vai apresentar uma reportagem especial sobre esse tipo particular que reivindica o direito de torcer nas novas arenas sem o risco de discriminação e violência. Curiosamente, Nicolli e Juliana torcem para o time que teve a primeira torcida gay do Brasil: a Coligay. Mais de 30 anos atrás, a torcida do Grêmio levantou uma discussão que ainda está em pauta no futebol brasileiro.

A história da Coligay começou em abril de 1977. Inconformado com a falta de visibilidade dos homossexuais na sociedade e preocupado com a carência de animação da torcida do Grêmio nos estádios de futebol nos anos 1970, o cantor e empresário Volmar Santos resolveu fundar uma torcida gay. No dia 10 de abril de 1977, nascia a Coligay, a primeira torcida homossexual do Brasil.

Vestindo túnicas, calças justas ou adereços espalhafatosos e levando faixas, instrumentos musicais e bandeiras, os seguidores da Coligay fizeram muito barulho nas arquibancadas. E ganharam destaque nacional. A revista Placar, da Editora Abril, publicou a existência da Coligay pela primeira vez em 27 de maio como "o mais recente golpe no lendário machismo gaúcho". O nome foi inspirado na boate de Volmar chamada Coliseu, que se tornou o ponto de encontro para seus 60 integrantes.

Ouça a opinião de Sergio Cunha, um dos ex-integrantes da Coligay, sobre a contribuição da torcida: 

"A maior ajuda da Coligay para as torcidas organizadas, para combater esse preconceito contra viado, usando um linguajar bem brasileiro, foi dar a cara para bater. Nós vivíamos uma ditadura. Fomos muito homens para entrar em um estádio e começar a pular, dançar e cantar para torcer pelo Grêmio. Tivemos a hombridade de ser o que somos e torcer pelo nosso time”, afirmou o cabeleireiro Sergio Cunha, um dos primeiros integrantes da torcida.

Dirigentes, jogadores e membros de outras torcidas organizadas do Grêmio rechaçaram a Coligay. Foi um escândalo. O Brasil vivia um momento de conservadorismo com a ditadura militar. A exemplo de outras cidades, Porto Alegre possuía uma Delegacia de Costumes, que monitorava as ações da Coligay por meio do setor de "meretrício e vadiagem". A onda de repressão à homossexualidade incluía batidas policiais em locais frequentados por pessoas LGBT e detinha quem "atentasse contra o moral e os costumes vigentes".

Para se proteger, Volmar ensinava aulas de caratê para que os membros da torcida se defendessem de eventuais agressões homofóbicas. Mas a torcida nunca teve um membro preso por manifestar publicamente sua orientação sexual.

"Havia preconceito e vai haver sempre. Quando o presidente do Grêmio, Hélio Dourado, nos viu no estádio, ele ficou pasmo. Depois foi falar com a gente e nos apoiou nas excursões. Por outro lado, alguns torcedores olhavam 'atravessado' para a gente. Ficavam apavorados e não deixavam as crianças ficarem próximas. No interior do Rio Grande do Sul, a gente descia na praça principal com uma banda. Quando a gente passava, as famílias entravam, mas ficavam olhando pelas frestas das portas e das janelas. É o direito de ir e vir de todo mundo", diz Sergio Cunha, aos 65 anos hoje.

Com a fama de pé quente, pois foi criada no ano em que o clube encerrou jejum de oito temporadas, a torcida presenciou as conquistas gremistas de dois Campeonatos Gaúchos, um Brasileiro, uma Libertadores e um Mundial de Clubes, em 1983, ano em que ela encerrou suas atividades depois de seis anos. Apesar da vida curta, a Coligay inspirou outras associações entre torcedores homossexuais, como a Flagay, do Flamengo, que foi criada em 1979 pelo carnavalesco Clóvis Bornay. A mais visível torcida organizada homossexual de um clube virou livro do jornalista Léo Gerchmann sob o título "Coligay Tricolor e de Todas as Cores".

As torcidas LGBT viveram um longo hiato nas arquibancadas brasileiras após o fim da Coligay, a mais expressiva. Em 2013, grupos encabeçados pela Galo Queer, do Atlético Mineiro, começaram a articular uma retomada das torcidas LGBT, principalmente nas redes sociais.

Para a professora Luiza Aguiar dos Anjos, autora da tese de doutorado "De 'são bichas, mas são nossas' à "diversidade da alegria": uma história da torcida Coligay", defendida na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a atuação da pioneira torcida gremista foi bem diferente do que fazem os movimentos atuais. Ouça a opinião da especialista: 

Olhando para os contextos de ontem e hoje, a professora formula uma hipótese sobre a atuação política das torcidas de futebol. "Naquele momento, era um contexto teatralizado, uma festa nas arquibancadas. Eles estavam reivindicando a presença nos estádios. Hoje, há uma politização maior. A população LGBT quer ter sua cidadania reconhecida, o que significa uma questão mais ampla. Além disso, a Coligay apareceu antes do surgimento das torcidas organizadas como existem hoje", diz Luiza Aguiar dos Anjos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.