Rafael Arbex/ Estadão
Rafael Arbex/ Estadão

Casão conta sua relação com Sócrates e o fato de ele não admitir a dependência em álcool

Ex-jogador não vê mais parceria no futebol como a sua com Magrão

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2016 | 07h00

Em seu apartamento no Alto de Pinheiros, em São Paulo, Casagrande recebeu a equipe de reportagem do Estadão para uma conversa sobre seu mais novo trabalho, o livro que trata de seu 'amor' por Sócrates, morto em 2011. Na entrada do apartamento, um tapete de boas vindas com várias caras de John Lennon 'informava' que estávamos no andar certo. Casão sempre foi do rock. Nossa conversa teve exatos 38 minutos, no sofá, em que o comentarista da Rede Globo expôs seus medos, mágoas, dúvidas e todo o amor que ainda sente pelo companheiro. Mas também boa dose de ressentimento por não ter conseguido fazer Magrão entender a sua dependência química. O livro 'Sócrates & Casagrande, uma história de amor' chega para curar ou ao menos aliviar essa ferida.

O que significa o subtítulo do livro: uma história de amor?

Nós ficamos pensando no título. Pensando, pensando até o Gilvan falar que era uma história de amor. É isso. É uma história de amor de parceiros de campo, de amizade, afastamento, saudade, de um pouco de mágoa. Foi um relacionamento o que tivemos dentro e fora de campo.

Fala dessa conversa imaginária com o Magrão. Me pareceu que era você conversando com você mesmo.

Eu pensei nesse capítulo no primeiro dia que imaginei o livro. Na mesma hora da ideia de fazer o livro, pensei nessa conversa com o Sócrates. Você acertou. Tinha várias dúvidas e vontades e algumas coisas eu queria falar para ele e não consegui por ele morreu antes. Na parte da saúde, somos dependentes químicos, tanto eu quanto ele. Todos os prazeres que a droga me tirava, eu tenho hoje. O Magrão não conseguiu chegar a esse ponto. E não deu tempo de poder ajudá-lo. Mas queria dizer a ele que ele deveria ter percebido o que aconteceu comigo. Meu problema com as drogas foi antes do problema dele. Ele tinha de pensar em rever o seu comportamento. Ver o que aconteceu comigo... Eu esperava mais dele nesse sentido, talvez seja uma cobrança injusta da minha parte. Mas ele tinha de ver o que aconteceu comigo. Ele era médico, pô! E morreu por causa da dependência química. Quando ele morreu,  pensei 'poderia ser comigo'. Nessa conversa imaginária, ele me diz isso.

O Sócrates fez uma carta de amor baseado no seu amor pela Mônica, sua ex-mulher...

Viajamos para o Japão com o Corinthians e quando cheguei lá, pedi para voltar. Não conseguia me concentrar longe dela. Gastei todo o meu dinheiro de diária ligando para ela. Duas vezes por dia. E insisti para voltar. Teve a reunião do grupo, da Democracia Corintiana, para votar se eu deveria deixar ou não o elenco. Perdia a votação e voltava a pedir para ir embora. Aquilo marcou para o Magrão. Ele se indentificou muito com aquilo, de você querer uma coisa com amor. E era amor mesmo. Ele gostaria de ter aquele comportamento, mas era mais maduro. Voltar para uma paixão era o que ele mais queria na vida. Fazer as coisas por amor era o que ele mais queria. Ele achou aquilo o máximo.

Há um substituto para o Magrão na sua vida?

Eu tive um amigo que já era uma parceria, que estava crescendo e ficando potente, que era com o Marcelo Fromer, dos Titãs. Nos víamos todos os dias. Inventamos um programa de rádio, que era falar de futebol e música na FM. O Marcelo só queria saber de futebol e eu só queria saber dos Titãs. Fizemos na 89 FM. Ele faria meu primeiro livro. Tínhamos 12 fitas gravadas. Aí teve a morte dele e foi um impacto tremendo para mim, fique depressivo demais. Foram perdas em momentos diferentes. Quando o Sócrates morreu, eu estava mais forte, mais preparado, mais sólido, equilibrado. No caso do Marcelo, era uma época em que estava me destruindo nas drogas.

Você vê amizade parecida como a sua e o Sócrates atualmente no futebol?

Não vejo. Vejo muita parceria de músicos e atletas, pagodeiros e parceiros, mas não se vê conteúdo nisso, uma simbiose natural. Não vejo. 

Pode me explicar a foto da capa e da contracapa do livro?

A da capa é em um treino do Corinthians. Todos os jogadores estavam nesta posição. O fotógrafo, que era do Estadão, pegou esse momento, uma foto com leveza, poesia. É uma pessoa só. Um é adolescente e o outro é mais maduro, mas trata-se de uma pessoa só. Uma pessoa montada em duas. Na foto da contracapa, o que nos diferencia são os números da camisa, um é 8 e o outro é 9. Ele pegou na minha mão após a final de 1982, contra o São Paulo, em que ganhamos, e foi me mostrar para a torcida. Queria que a torcida me aplaudisse porque tinha sido um dos melhores da temporada. Esse era o Magrão.

Você esperava que ele te ajudasse com as drogas?

Não. Não esperava. Eu sei que ele me ajudava espiritualmente. Não precisava me ajudar com ações. Sei que ele me ajudava de outra forma.

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