Jamil Chade|Estadão
Operários esperam para começar o trabalho no estádio Khalifa Jamil Chade|Estadão

Catar faz Copa de 2022 com trabalho degradante

Operários estrangeiros ficam sem passaporte e se revezam para dormir

Jamil Chade / DOHA, O Estado de S. Paulo

26 de março de 2016 | 17h00

São pouco mais de 6h30. Um ônibus repleto de operários chega a um dos canteiros de obras da Copa de 2022, na periferia de Doha, no Catar. O projeto é ambicioso: construir uma nova cidade, Lusail, para acomodar 200 mil pessoas e um estádio com um custo de US$ 45 bilhões. 

No vidro do ônibus, a bandeira do país dos trabalhadores: o Nepal. Dentro, o grupo de operários se levanta lentamente de seus lugares e em silêncio, desce do veículo diante do sol que começa a clarear o deserto. Eles acordaram às 5 da manhã e, depois de um trajeto entre o alojamento e o canteiro de obras, começariam mais um dia de trabalho.

Há quase um ano, dirigentes da Fifa foram presos e investigações foram abertas sobre o que seria uma "Copa do Mundo da fraude". Milhões de dólares foram congelados em contas em paraísos fiscais e cartolas passaram a ser investigados sobre a suspeita de compra de votos para a sede da Copa de 2022. Mas a 6 mil quilômetros da sede da Fifa, nos canteiros de obras no Catar, os operários em condições de semiescravidão tem outras prioridades.

Pressionado por sindicatos, pela Organização Internacional do Trabalho e pela imprensa estrangeira, o Catar descobriu que a Copa desenhada para ser a oportunidade para mostrar ao mundo um novo país também vai gerar exigências. A preparação e o escrutínio internacional estão forçando o governo a avaliar mudanças num sistema de exploração da mão de obra importada que permitiu erguer em tempo recorde uma metrópole sofisticada em pleno deserto e que, agora, faz surgir da areia os novos templos do futebol. 

O Estado visitou, sob anonimato, alguns dos canteiros de obras em Doha e conversou com operários, todos estrangeiros, da Ásia ou África. Nenhum deles sabia que existia uma investigação sobre a suspeita da compra de votos para sediar o Mundial. E poucos tinham consigo seus passaportes, confiscados pelos empregadores para os impedir qualquer fuga, organizar um protesto ou até mesmo mudar de emprego. 

Conhecido como sistema kafala, a lei no Catar exige que um trabalhador, para deixar o país, obtenha um visto de saída, mesmo sendo estrangeiro. As regras impedem a liberdade de associação e esses operários não podem ter carteira de motorista ou conseguir empréstimos em um banco. Quem decidir trabalhar para outra empresa pode ser punido com uma pena de três anos de prisão ou pagar US$ 13 mil, uma fortuna para esses operários. 

No Catar, 1,8 milhão de operários estrangeiros atuam nas obras da Copa, na infraestrutura e em serviços. São 800 mil indianos e 700 mil nepaleses. 

Oficialmente, trabalhadores que sejam recrutados em seus países de origem para atuar no Catar não devem pagar qualquer tipo de taxa. Mas muitos do Nepal confirmaram ao Estado que é "comum" que várias das 760 agências de recrutamento em Katmandu cobrem um valor pelo "trabalho administrativo". 

Para deixar o Nepal, o operário pode pagar até US$ 600 em comissões para a agência, além de seguro do voo. Ao desembarcar em Doha, porém, descobre que o salário irá variar de US$ 220 a US$ 460 por mês e as dívidas se acumulam desde o primeiro dia. A água nos alojamentos, por exemplo, é limitada e qualquer pedido extra é cobrado. Nesses locais, afastados da população, existe apenas um armazém que vende comida, controlado pela mesma empresa que fornece os trabalhadores para as construtoras. 

Nos alojamentos, são seis pessoas por quarto, com divisão das camas. "O que fazemos é nos alternar. Um dorme, enquanto o outro espera e, no meio da noite, trocamos", contou o nepalês Arun, que vive há dois anos em Doha. Em seu alojamento, são doze banheiros para mais de 130 pessoas. Os imigrantes também não podem circular por Doha. Áreas "livres" de operários estrangeiros não foram estabelecidas.

Não são poucos os que temem falar. Patrick Choy, da Nigéria, permanecia em silêncio quando a reportagem o questionou sobre as condições de trabalho. Mas, falando baixo, passou seu celular. "Ligue mais tarde", pediu. Pelo telefone, horas depois, seu tom era bem diferente e admitia: "O que os operários sofrem no Catar é algo que ninguém poderia imaginar, muito menos para construir os locais da Copa."

No canteiro, são 78 horas de trabalho por semana. Hamid, do Paquistão, conta que o pagamento é melhor do que ganhava no interior de sua região natal. Mas lamenta que não possa economizar muito dinheiro diante dos gastos e das dívidas contraídas, no Catar e no Paquistão. 

"Se eu soubesse que era assim, não teria vindo", disse enquanto se prepara para assumir seu posto em um dos canteiros em Lusail. Com um contrato de um ano, ele terá de esperar o prazo estabelecido para poder pedir para voltar.

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Empresas da Europa estão à frente das obras no Catar

Multinacionais terão contratos com lucros de US$ 15 bilhões até 2022

Jamil Chade / DOHA, O Estado de S. Paulo

26 de março de 2016 | 17h00

Um engenheiro irlandês, que pediu para não ser identificado, confirmou as condições "terríveis" em que vivem os operários. "Se uma empresa fizesse isso na Europa, seria denunciada."

Mas segundo a Confederação Internacional de Sindicatos (ITUC, sigla em inglês), a realidade é que a grande maioria das obras está sendo realizada justamente por empresas europeias. Juntas, as multinacionais do setor da construção terão contratos com lucros avaliados em US$ 15 bilhões até 2022, num projeto que vai custar US$ 220 bilhões. 

A construtora espanhola ACS, por exemplo, emprega 6 mil operários no Catar. A americana Bechtel, que atua no aeroporto de Doha, usou em seu momento mais intenso cerca de 47 mil operários. Os contratos da belga Besix são realizados em 60% por operários indianos, contra 25% de Bangladesh e 6% do Nepal. A divisão de construção da francesa Bouygues opera com 5 mil pessoas nas obras no Catar. 

Para o ITUC, os "maiores vencedores da Copa são as empresas de construção do Ocidente que ganharam contratos para erguer o projeto com parceiros do Catar." 

"Nenhum CEO presidiria sobre um modelo de negócios que escraviza seus próprios filhos”, denunciou Sharan Burrow, secretário-geral da ITUC. “Fazer negócios no Catar significa aceitar o sistema kafala, em contradição com os direitos e liberdades dadas em nações democráticas das sedes das empresas atuando no Catar", insistiu. 

Em um apelo, ele "clama às empresas que deem no Catar o mesmo tratamento que dão para seus operários em seus países de origem”. “O Catar é uma prisão a céu aberto", disse. 

O governo catariano diz que novas regras vão entrar em vigor em dezembro, o sistema de vistos de saída vai ser abolido para partes dos operários e já estabeleceu um método de pagamento eletrônico para garantir que não haja serviço forçado. Mas, para os sindicatos, nada substitui à liberdade. 

Para a ITUC, porém, essa pressão ainda tem feito pouco efeito. "Muito pouco tem mudado para os trabalhadores imigrantes, que continuam em um regime de escravidão moderna. O Catar continua a ser um estado escravagista", atacou. 

PRAZOS 

Outra pressão contra o governo catariano veio, nesta semana, mais uma vez da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em Genebra. Numa reunião da entidade, diplomatas e sindicatos decidiram dar um prazo de um ano para que o Catar reforme suas leis trabalhistas. Caso não o faça, os governos estrangeiros irão instaurar uma comissão de inquérito para examinar e sancionar o país, algo que a entidade fez em apenas uma dúzia de ocasiões desde 1945.

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